Lista completa de mangás yaois sem pedofilia e romantização de violência

“Mas afinal, essas criaturas não tem MÃE?”

As Mina na História

Eles têm mãe. E elas têm nome.

Olinda Bolsonaro Dona Olinda Bolsonaro

Dona Olinda Bonturi Bolsonaro tem 89 anos. É comunicativa, amável e não se negou a dar uma entrevista sobre seu filho, o deputado Jair Bolsonaro. Falou com a Revista CRESCER sobre quem é o terceiro dos seis filhos que criou, segundo ela, com muito amor e respeito. Dona Olinda viveu com a família na cidade de Eldorado, a 249 km de São Paulo. Seu marido, Geraldo Bolsonaro, atuava como dentista em diversas cidades, mesmo sem ter estudado odontologia. Geraldo foi descrito por um dos filhos como “boêmio”, dado à “bebida” e um tanto ausente, “uma pessoa dura”. Jair Bolsonaro e o pai não se davam bem.

O que é interessante notar no discurso por vezes emocionado de Dona Olinda é que o filho que ela educou sem nunca bater, por acreditar no poder do diálogo e da compreensão, hoje prega que para…

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Desenhos animados, “fandoms”, pornografia e a naturalizaçao da pedofilia.

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Uma arte de fãs de “Billdip”, um dos “ships” (relacionamentos entre personagens) mais populares de Gravity Falls, envolvendo uma criança de 12 anos e um demônio com (pelo menos) séculos de existência.

Na semana em que a ONU pede proibição de mangás com teor pedófilo no Japão, eu decidi reviver meu blog (parado há pelo menos um ano) para trazer à tona uma questão que muito me preocupa: a relação entre os desenhos animados infantis, os fandoms (grupos de fãs) e a grande produção de arte dos fãs, os fanarts, de teor pornográfico ou pedófilo baseado em desenhos infantis.

Esta é uma questão que me preocupa há bastante tempo. Eu sempre estive bastante envolvida em diversos fandoms, incluindo alguns fandoms de desenhos animados. Eu diariamente vejo como os fanarts, que deveriam existir para demonstrar (artisticamente) sua paixão por um determinado fandom e para compartilhar sua arte com pessoas com interesses em comum, serem usados como forma de propagar racismo, homofobia, lesbofobia e gordofobia. No entanto, a questão mais preocupante é são os fanarts pornográficos, por vezes com teor pedófilo, produzidos em fandoms de obras que são voltadas para o público infantil.

No entanto, antes de realmente começar a abordar este assunto, eu gostaria de elucidar algumas questões:

  1. No decorrer deste texto, eu estarei falando de três fandoms específicos: My Little Pony (MLP), Steven Universe (SU) e Gravity Falls (GF), mas isso não quer dizer que o que eu isso conteça SOMENTE nos fandoms desses desenhos. Eu escolhi falar destes três fandoms especificamente por se tratarem de desenhos voltados para o público infantil que têm grande popularidade entre adultos, o que facilita com que a produção deste material pornográfico ocorra, com a justificativa de ser “voltado especificamente para os fãs adultos”.
  2. A produção de arte pornográfica e de teor pedófilo é feita por “fãs”. Ela, de nenhuma forma, é de responsabilidade dos desenhos e nem de seus criadores. No entanto, como eu irei desenvolver no decorrer do texto, eu atribuo aos criadores e produtores envolvidos no que irei chamar aqui de “caso Zamii” a responsabilidade pelas declarações dúbias e, no caso de Matt Burnett (escritor de Steven Universe), homofóbicas feitas pelos mesmos no twitter.
  3. Este texto não tem nenhum desejo de fazer propaganda contrária aos desenhos. My Little Pony, Steven Universe e Gravity Falls são ótimos desenhos. Estou fazendo este texto com o objetivo principal de trazer a tona (principalmente para mães, pais e cuidadores de crianças) algumas das formas perniciosas com as quais os personagens de desenhos animados infantis favoritos de muitas crianças são usados, no meio virtual, para produção de artes pornográficas há anos, e alertá-los sobre os perigos que vêm com essas questões.

Para início de conversa, o que inicialmente me motivou a escrever este texto foi o “caso Zamii”.

Irei explicar de forma breve o que aconteceu: Zamii é uma artista de 20 anos. Há algum tempo, ela vem sendo duramente criticada por desenhar personagens gordas como magras, produzir artes que pareciam caricaturas raciais, se referir à um desenho de dois garotos de 14 anos como “shota boys” (shotacon é a “versão masculina de lolicon”, ou seja, material sexual/pornográfico onde crianças do sexo masculino são sexualizadas), desenhar uma personagem de 12 anos de forma sexualizada, desenhar dois personagens de 13 anos abraçados e pelados e, entre outras coisas, por também ser amiga de Matthew James Gridley, conhecido na internet como Griddles, um pedófilo de 23 anos preso por porte de pornografia infantil, para quem inclusive fez uma comissão. Aproximadamente dois dias atrás, Zamii tentou se matar, supostamente por conta da perseguição que sofria na internet.

O que motivou esse texto foi quando, para defendê-la, criadores e escritores de desenhos animados começaram a tweetar sobre como “artistas deveriam ser livres para fazer arte como bem quiserem”:

“Deixe as pessoas desenharem os fanarts que quiserem”, diz o tweet de Ian Jones-Quartey, co-produtor de Steven Universe.

“Um desejo bem intensionado de ‘proteger’ os outros criou a primeira geração de jovens que acha que censura é mais legal que [liberdade de] expressão”, diz o tweet de Alex Hirsch, criador de Gravity Falls.

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A questão é: será que as pessoas deveriam ser totalmente livres para desenhar o que quiser?

Considerando que esses tweets vieram de pessoas envolvidas na produção de desenhos animados voltados para crianças, com o agravante de se tratarem de tweets defendendo uma mulher que já produziu material sexualizando crianças e com proximidade com pedófilos condenados, será que não é importante falar sobre como essa “liberdade artística”, que pode ser benéfica em muitos aspectos, também pode ser perigosa por ser a justificativa ideal para que se produza material pornográfico baseado em obras voltadas para o público infantil?

A maioria das pessoas que produzem esse tipo de material justificam que o fazem voltado especificamente para a apreciação dos “fãs adultos”. O problema é que: a internet não oferece nenhum tipo “barreiras” que impeçam crianças e adolescentes de terem contato com esse tipo de material sexualizado e/ou pornográfico. E, mais grave que isso, estas crianças podem esbarrar com material pornográfico envolvendo personagens menores de idades  o que é extremamente perigoso, mesmo que os personagens sejam retratados de forma “aged-up” (ou seja, personagens que são crianças ou adolescentes nos desenhos, são retratados com corpos sexualizados de adultos) nos fanarts.

O perigo está na identificação: crianças assistem desenhos e filmes e buscam identificação com certos personagens. É muito comum, por exemplo, que ao ver um desenho ou um filme, uma criança diga que é certo personagem ou que lhe pergunte qual personagem você é. Crianças buscam identificação com os personagens das obras que consomem inclusive isso é justamente o porquê de falarmos que representatividade é importante, pela necessidade de crianças que hoje não são representadas tenham, também, personagens com os quais se identificar nas obras que consomem. Logo, se uma criança ou até mesmo um adolescente entra em contato com material pornográfico envolvendo os personagens de seus desenhos animados favoritos, isso pode criar nelas a sensação de que isso é normal, inclusive se envolver jovens. Isso normaliza algo que não deveria ser normalizado: pedofilia.

Alex Hirsch de certa forma “debocha”, em seu tweet, do desejo das pessoas de “censurarem” certos tipos de arte com o objetivo de proteger outras pessoas. A questão que fica é: não deveríamos, então, proteger crianças e adolescentes de serem expostos a esse tipo de material? Tentar “censurar” a produção desse tipo de arte pornográfica seria simplesmente “se posicionar contra a liberdade de expressão”, mesmo se tratando de arte baseada em cartoons com os quais as crianças estão sempre em contato e criam laços de identificação?

Não que eu acredite que os envolvidos na produção tenham poder real de impedir que artes pornográficas, sexualizadas, ou que involvam pedofilia ou incesto deixem de ser produzidas. A produção desse tipo de pornografia baseada em obras infantis não é de hoje, não começou com Zamii e nem terminará com Zamii: é um forte fenômeno virtual, quase tão forte quanto outras formas de fazer pornografia. Atrai principalmente pedófilos, por envolver personagens infantis em poses sexualizadas ou em atos eróticos. E, assim como o resto da indústria pornográfica, não acabará totalmente enquanto houverem consumidores.

No entanto, o mínimo que nós esperamos é que os envolvidos na produção destes desenhos assumam uma posição contra isso. Que eles não se posicionem de forma “neutra”, “em cima do muro”. Nem que eles reproduzam discursos dúbios sobre “liberdade artística”, ignorando que suas falas vão ser usadas para justificar pornografia infantil, além de racismo gordofobia e outras questões. A incapacidade destas pessoas de se posicionarem claramente CONTRA quem produz este tipo de “arte”, este tipo de conteúdo deixa claro que essas pessoas podem estar incrivelmente preparadas para trabalhar na produção de cartoons, mas não estão nada preparadas para lidar com seu público alvo, as crianças, e de se posicionarem contra quaisquer atitudes dos fãs adultos que possam vir a expor, machucar ou por em perigo estas crianças e adolescentes.

Dito isso, eu gostaria então de falar sobre como a pornografia, a sexualização infantil e a pedofilia são abordadas de formas diferentes em fandoms diferentes. Começando por My Little Pony, o caso mais escancarado. E quando eu digo “escancarado”, eu quero dizer exatamente isso: não há esforço nenhum em esconder o material pornográfico produzido pelos “bronies”, os fãs homens adultos que majoritariamente estão no fandom com o objetivo de produzir ou consumir esse tipo de pornografia.

Por exemplo, ao procurar por “my little pony” no tumblr, você logo de cara encontra imagens das personagens, pôneis, extremamente sexualizadas. Outras imagens são claramente pornográficas.

Uma imagem onde a personagem Rainbow Dash, uma das principais poneis de My Little Pony, é representada de forma sexualizada. Esta é uma das imagens mais

Uma imagem onde a personagem Rainbow Dash, uma das principais poneis de My Little Pony, é representada de forma sexualizada. Esta é uma das imagens mais “leves” encontradas entre os fanarts de My Little Pony que são postados em diversas redes sociais. A maioria deles é explicitamente pornográfica.

Pela internet, ainda existem diversos vídeos e jogos pornográficos baseados em My Little Pony. Alguns são produzidos por fãs; outros, são claramente produzidos por sites pornôs com o objetivo de serem consumidos por estes fãs. Na maioria deles, as personagens (que em grande parte do desenho são pôneis) são desenhadas com seus antropomórfica, com seus rostos originais mas com corpos femininos extremamente sexualizados. Pessoas que têm fetiche com este tipo de desenho são por vezes conhecidas na internet como “furries”.

A questão principal com relação ao fandom de My Little Pony é a pornografia explícita, além da zoofilia. No entanto, em muitos outros fandoms, a pornografia é produzida de forma mais discreta. Você pode encontrar pornografia de My Little Pony em rápidas pesquisas no google, por ser produzida em quantidade absurda, a pornografia em outros fandoms, embora também bastante presente, costuma chamar menos atenção de quem não está diretamente envolvido com aquele fandom

Isso não quer dizer que crianças e adolescentes não possam ter acesso a esse tipo de conteúdo nocivo, mesmo que por acidente na verdade, isso só significa que a produção deste tipo de material pornográfico, além de por vezes pedófilo e incestuoso, é discreta o suficiente para que sua existência passe despercebida pela maioria dos pais e responsáveis. É esse o caso de Gravity Falls e Steven Universe.

[ATENÇÃO: SPOILERS]

Steven Universe é um desenho que eu considero incrível. Tem personagens e história interessantes e bem desenvolvidas, além de uma maravilhosa representação racial e representação lésbica. É um desenho que eu comecei a assistir com minha irmã e, confesso, provavelmente minha coisa favorita de se assistir atualmente. Eu já indiquei este desenho para muitos amigos e amigas. No entanto, como nem tudo são flores, o fandom de Steven Universe, no qual o “caso Zamii” se iniciou, tem três sérios problemas: o racismo, a lesbofobia e a pedofilia. Como o foco desse post é expor principalmente a forma como é produzida a pornografia nos fandoms de desenhos animados e a forma como a pedofilia coexiste nesse meio, não vou desenvolver sobre as questões do racismo e da lesbofobia mas achei importante destacar que ela existe e que também é um forte problema nesse fandom. Quem sabe, num futuro breve, eu desenvolva sobre esse assunto.

A pedofilia no fandom de Steven Universe é discreta, mas começou a ganhar força com a segunda temporada do desenho. A questão é que: existem hoje pelo menos três “grandes” ships (relacionamentos) dentro do fandom de Steven Universe que envolvem personagens que são crianças com personagens adultos, séculoss mais velhos que eles (literalmente).

O primeiro exemplo que irei citar é do ship denominado “Ponnie”. No episódio Sworn to the Sword, a amiga de Steven, Connie, e uma de suas figuras maternas, Pearl, treinam juntas.

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No entanto, disso que no máximo deveria ser visto como uma relação entre uma professora que tem pelo menos 5000 anos e sua aluna, que sequer tem 13 anos, acabou sendo encarado por algumas pessoas de uma forma sexual.

Um fanart

Um fanart “Ponnie”

Veja bem, eu acho que nem preciso falar o que há de errado em shippar um relacionamento de uma alien de mais de 5000 anos de idade com uma garota d no máximo 12, 13 anos. Especialmente quando a personagem adulta claramente demonstrou interesse romântico por pelo menos três outras personagens do desenho, todas também adultas, com quem poderia ter relacionamentos saudáveis. No entanto, algumas pessoas preferiram distorcer sua relação com sua aluna e produzir arte de teor pedófilo

Outro caso, ainda mais grave, é o do ship denominado “Pearlven”. Ele envolve o personagem principal, Steven Universe, e Pearl. Como foi mencionado anteriormente, Pearl é uma das figuras maternas de Steven. Ela cuida dele juntamente com Garnet e Amethyst. Ela lutou na guerra juntamente com a mãe de Steven, Rose Quartz, por quem foi e ainda é claramente apaixonada.

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Novamente, o que deveria ser encarado como a relação de mãe e filho, que é a relação que Steven tem com suas três responsáveis, foi distorcido e encarado de maneira sexual por pedófilos. Um agravante nesse caso é a lesbofobia: Pearl é claramente representada como lésbica desde a primeira temporada do desenho. É incrível que algumas pessoas prefiram distorcer a relação maternal que Pearl tem para com Steven do que pareá-la com uma das muitas mulheres adultas do desenho.

Por fim, ainda há “Stevidot”. Stevidot é um ship relativamente novo, envolvendo Steven Universe e Peridot, uma alien com pelo menos séculos de existência, que veio para a terra para cumprir uma missão que falhou. Nos últimos episódios, Steven e Peridot vêm desenvolvendo uma espécie de amizade. Pelo menos até o momento, essa amizade está primordialmente baseada na necessidade de cooperação para evitar que a terra seja destruída. No entanto, por aparentar ser um “arco de redenção” (onde um vilão recebe a chance de se redimir), é de se esperar que a amizade se torne genuína.

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Novamente, uma amizade que está ainda surgindo entre uma criança de 12, 13 anos e uma alien com pelo menos centenas de anos vem sendo distorcida por alguns fãs e sendo encarada como algo romântico/sexual. Algumas artes para este ship também vêm sendo feitas, como essa:

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Um fanart “Stevidot”

É importante destacar que, mesmo quando artistas transformam crianças em adultos, “aumentando suas idades” ou simplesmente lhes dando corpos mais desenvolvidos/sexualizados, o problema ainda persiste. Independente do quão desenvolvido está o corpo do personagem naquela arte específica, não muda o fato de que existem adultos que enxergam possibilidade de envolvimento romântico ou sexual entre um personagem que sequer chegou a adolescência e personagens adultos, por vezes séculos ou milênios mais velhos que estas crianças. E o interesse por parte desses adultos é tamanho que se prefere usar a arte para “aumentar a idade da criança” do que simplesmente respeitar personagens crianças, que querendo ou não representam crianças reais e provocam nelas identificação, o suficiente para não sentir interesse em vê-los envolvidos com personagens adultos?

Steven Universe também tem um problema sério com pornografia. Baseando-se nos antigos desenhos da criadora de Steven Universe, Rebecca Sugar, onde ela retrata dois personagens do desenho Du, Dudu e Edu tendo relações sexuais, e ignorando totalmente a segurança das crianças (que são o público alvo do desenho e podem acabar sendo expostas a esse tipo de conteúdo pornográfico). Artes que variam de gems sem roupa até “desenhos brutais de bondage são produzidos e podem ser encontrados por entre as tags de Steven Universe.

Um dos exemplos mais pontuais é “Japis”, um ship problemático entre Lapiz Lazuli e Jasper, duas gems que acabam fundidas motivadas por ódio e desejo de vingança. Não há necessidade de tentar explicar a dinâmica dessas duas; a própria Garnet já o fez:

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“Eita. Elas são terríveis uma para a outra.”

No entanto, boa parte do fandom de Steven Universe parece fascinado com este “relacionamento” disfuncional que elas têm. Muitos parecem extremamente fascinados com a ideia de “sexo envolvendo bondage” ou “sexo como punição” envolvendo estas duas personagens, como este:

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Problemas assim também são recorrentes no fandom de Gravity Falls.

Um dos ships mais populares deste desenho se chama “Billdip”. Ele consiste em Dipper, um dos personagens principais, um menino de 12 anos, e Bill Cipher, um demônio dos sonhos. Bill não tem “idade”, não como os humanos, pelo menos. Porém, ele tinha entrado em contato com Stanford Pines, um dos tios avôs de Dipper e Mabel, muitas décadas antes dos gêmeos nascerem.

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Muitas vezes, como forma de tentar deixar este ship menos grotesco, fãs da ideia de desenhar personagens crianças “aged-up”, como foi explicado anteriormente. Alguns artistas também desenham Bill com uma “forma humana”.

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Um fanart “Billdip” onde Bill Cipher é representado com uma “forma humana”.

O mesmo acontece num ship chamado “Mabill”, um ship que envolve Mabel, uma dos personagens principais, irmã gêmea de Dipper, e Bill Cipher. Novamente: frequentemente, fãs aumentam a idade de Mabel ou dão uma forma humana a Bill, como forma de tentar se livrar das críticas.

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Mesmo sendo bastante menos popular, a facilidade de encontrar arte pornográfica de Mabill é muito maior. A tag no tumblr está repleta de desenhos bastante explícitos, mesmo se tratando de um ship envolvendo uma menina de 12 anos. Isso provavelmente se deve ao fato da maior sexualização de jovens meninas; afinal, não é a toa que “lolicon” é um fenômeno muito mais conhecido e procurado do que “shotacon”.

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[FIM DOS SPOILERS]

Além do perigo de exposição de crianças e adolescentes a esse tipo de material pornográfico que é produzido pelos fandoms destes desenhos, existe um outro perigo, ainda menos discutido: o perigo de que pedófilos entrem nesses espaços virtuais e procurem usar esses desenhos como “interesse em comum” para poder conversar com crianças e adolescentes que acompanham e gostam desses desenhos. Esses pedófilos já têm espaço livre para produzir e consumir arte de teor pedófilo e pornográfico dentro dos “fandoms”, graças à forma como muitas pessoas que fazem parte dos fandoms simplesmente se recusarem a discutir um assunto de tamanha urgência por acreditarem na “liberdade de expressão”, “liberdade artística” ou até na “liberdade de shippar quem quiser”. O que os impede de usar esse mesmos espaços, nos quais eles têm liberdade, para se aproximar de jovens? De fazer vítimas? É como se eles fossem “unir o útil ao agradável” – ter a liberdade de consumir arte pedófila e, que sabe, entrar em contato com crianças e adolescentes reais, usando do mesmo pretexto, de um desenho.

Entenda, eu também adoraria viver num mundo onde fosse seguro advogar pela liberdade artística sem ter de me preocupar com adultos usando isso como justificativa para produzir pornografia infantil mas esse não é o nosso caso. Nós vivemos em um mundo onde simplesmente advogar pela liberdade artística total, sem nenhum tipo de regra ou freio, é indiretamente abrir brechas para que pessoas sintam-se livres par produzir material pedófilo, racista, misógino, homofóbico, entre outras questões.

E já que vivemos nesse mundo, acredito que seja essencial EXIGIR de quem produz esses desenhos, os desenhos que são usados como base para produzir arte pornográfica, arte que incita a pedofilia, arte racista, etc, que SE POSICIONE CLARAMENTE CONTRA ISSO!

Não com o objetivo de acabar com a produção deste tipo de material, pois esperar isso é utópico a arte pornográfica e a pornografia infantil, assim como as outras formas de pornografia, vão existir enquanto existir gente que consuma isso, gente que lucre com isso, e um sistema inteiro para apoiar esse tipo de violência. Não são os produtores que vão por fim nisso mas é essencial que essas pessoas não tentem ser “neutras” nesse aspecto. É essencial que criadores, produtores, escritores e animadores entendam que, se eles trabalham produzindo obras que serão consumidas por crianças, o mínimo esperado é que eles se posicionem contra qualquer uso indevido de sua arte, mesmo que somente como base para outras artes, para produzir material que pode ser nocivo ou violento para crianças.

Mais importante do que “liberdade artística” é o direito de jovens poderem aproveitar e pesquisar sobre desenhos animados feitos para elas sem correrem risco de esbarrarem com materiais pornográficos e nocivos.

Mais importante do que “liberdade de shippar quem quiser” é respeitar crianças e adolescentes o suficiente para não fetichizar relações pedófilas.

Mais importante do que “liberdade de expressão”, é a segurança das crianças e dos adolescentes.

Antes de se unir às feministas radicais, leia esse relato.

Uma texto muito, muito importante.

À margem do feminismo

Este post não deve ser encarado como mera experiência pessoal e isolada. Defendo que é ingenuidade ver assim. A motivação é pessoal, claro, como absolutamente tudo que é produzido por autoria. O Segundo Sexo foi fruto de motivação pessoal, por exemplo.

Antes de se unir às feministas radicais, ouça quem já esteve lá e vazou por incoerência. E, leia até o fim ou nem comente pois nem tudo aqui vai ser previsível.

O que é o feminismo radical? Em minha palavras, é um feminismo materialista, americano, nascido na década de 70 e com riqueza de discussão da práxis feminista. Muitas feministas radicais foram mais que teóricas, foram críticas da prática feminista. Ele se contrapõe ao liberal por não ver como solução o empoderamento de indivíduos, mas derrubada de um sistema, no caso o patriarcado. E ele não é marxista pois não vê o capitalismo como a raiz das opressões, mas…

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Nossos corpos são parte desta terra: sobre descolonização e o amor próprio radical para mulheres indígenas

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Este texto é uma tradução e uma adaptação de um texto chamado Our bodies are of this land: Decolonization and Indigenous women’s radical self-love, de autoria de Samantha Nock,  feminista indígena, parte da tribo Métis. Ela é graduada pela Universidade de British Columbia e tem bacharelado em “First Nations Studies”.

Eu sempre me senti impressionada com a beleza natural desta terra. Eu cresci admirando os rios e as luzes do norte. Eu estive me senti em êxtase com a elegância tranquila das árvores cobertas de neve. Fui criada em um lugar onde a paisagem deixa pessoas sem fôlego e sem palavras.

E mesmo tendo sido criada em um lugar onde fui incentivada a admirar a beleza da terra, nunca fui incentivada a admirar minha própria beleza. Em vez disso, graças à uma mídia insidiosa e seu apoio esmagador aos padrões de beleza brancos e ocidentais que sempre favoreceram as mulheres brancas e magras, fui criada para tentar seguir padrões impossíveis, formas impossíveis de se atingir esses objetivos. Eu herdei muitas coisas bonitas de minha mãe, sendo uma dessas coisas a impossibilidade de se adequar à essas normas de beleza. Quando se nasce baixinha, robusta e vesga dificulta muito para que você consiga realmente conseguir se ver como uma pessoa bonita. Eu ainda tenho problemas com isso.

Esta luta para que eu conseguisse me aceitar como sou também sempre teve muito a ver com o fato de eu ser Métis. Eu costumava pensar: “se eu pelo menos tivesse dois pais brancos… se eu pelo menos… eu talvez, quem sabe… não seria desse jeito. Não seria assim”.  Lutei comigo mesma intensamente durante toda a minha adolescência. Eu tinha me convencido e fui convencida por outros que minha indianidade era uma maldição, era algo de que eu deveria ter vergonha, foi fator determinante na minha “notável feiura”. Sendo eu mestiça, sempre me senti presa à um paradigma: eu não era indígena o suficiente para ser bonita nem branca o suficiente para ser bonita. Este padrão arbitrário de beleza no qual eu me guiava, que ainda permeia minha mente nos dias em que não me sinto forte o suficiente para combatê-lo, está profundamente enraizado na colonização e age como uma forma de perpetuar uma mentalidade colonial insalubre.

Venho tentando pensar em uma forma de  corrigir este pensamento. Como eu posso tornar o ato de amar a mim mesma uma parte normal da minha práxis decolonizadora? Para mim, a descolonização começa e termina com a terra, tudo está ligado à terra – como tratamos uns aos outros, como nos organizamos politicamente, como nos sustentamos como povos indígenas… tudo isso está ligado à terra. Seguindo o mesmo raciocínio, meu amor próprio, como uma mulher Métis, está ligado à terra também. Minhas curvas são como colinas verdejantes, minhas estrias são desfiladeiros, meus machucados são como as luzes do norte e as minhas veias são rios: eu sou bela como esta terra da qual eu venho e à qual pertenço.

Esta terra é maravilhosa e nós somos também. Se podemos parar para apreciar o pôr do sol e os picos das montanhas, podemos também parar para nos olhar no espelho todas as manhãs e apreciar as curvas de nossos corpos. Precisamos, como mulheres indígenas mas acima de tudo como mulher, praticar o “amor próprio radical”. Precisamos nos amar da mesma maneira que nós amamos esta terra. Nossos corpos são profundamente falhos, imperfeitos e de tirar o fôlego – como esta terra. Nossos corpos são território soberano como nossos Nações, nossos corpos são as casas nas quais temos para viver e com as quais temos que conviver. Muitas vezes nos sentimos deslocadas, descontentes e consternadas com de onde viemos, mas nós amamos isso – profunda e intrinsecamente. Amar a nós mesmas não é algo que pode fazer de forma simples, é um processo trabalhoso. É um trabalho de descolonização e é um trabalho que não podemos fazer sozinhas: precisamos de apoio e precisamos apoiar umas às outras.

Luto todos os dias para me amar. Eu sei que todas nós o fazemos. Mas, quando tudo se torna difícil e vêm dias ou eu mal consigo encarar-me no espelho, eu me lembro que nós existimos por causa do amor de nossos antepassados. Nossos corpos estão comprometidos com histórias mais antigas do que o tempo, o nosso sangue e os nossos ossos são desta terra, parte dela.

Mesmo se existirem dias em que eu não consiga enxergar a beleza em mim mesma, eu ainda irei ter consciência, sendo tão imperfeita como eu sou, eu estou aqui e sou apoiada por aqueles que me amaram para que eu existisse. Dentro desse acúmulo insuperável de amor, pela terra e pelas pessoas, eu encontro o suficiente para eu começar a me amar novamente.

A dor da existência e a existência da dor

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Eu ainda estou sobrevivendo…

Dizem que, quando você encontra um animal abandonado, você não deve dar nome para ele se não quiser se apegar. Nomear as coisas é torná-las mais do que “coisas”; normalmente é dar-lhes identidade, significado.

A dor que atinge uma mulher feminista é, normalmente, a mesma dor que lhe atingia antes de ser feminista. É a mesma violência, é a mesma opressão. Porém, essas mulheres, TODAS NÓS, nascemos e crescemos neste ambiente patriarcal. Nós nos acostumamos, aprendemos a achar normal. Por vezes sequer percebemos. É algo NATURALIZADO.

Quando uma mulher começa a ter contato com o feminismo, é normal o choque inicial. Parece surreal ler sobre objetificação, sobre violência emocional, sobre padrões de beleza, sobre feminilidade, sobre heterossexualidade compulsória, sobre jornada tripla, sobre violência obstétrica, sobre estupro, sobre relacionamentos abusivos, sobre misoginia. Passado o choque inicial, parece que quanto mais se lê e mais se envolve com o feminismo, mais tudo aquilo parece fazer sentido. Porque, para uma mulher feminismo nunca acaba somente em teorias: aquelas teorias são comprovadas pelo que vivenciamos todos os dias. Nós, então, começamos a reconhecer o que lemos e aprendemos nas nuances e em várias, senão todas as situações de nossa vida cotidiana.

Quando você enfim começa a notar essas opressões, quando você as nomeia… Você se permite sair da bolha. Você se permite sentir as dores sem nenhum tipo de anestesia ou névoa lhe cegando (ou ao menos, com menos dessa tal névoa). E o baque é duro, é dolorido. É impossível não começar a se sentir mal quando começamos a conseguir identificar pequenas violências, naturalização de preconceitos, piadas ofensivas, misoginia internalizada, propagação de padrões de beleza, relações abusivas…

De repente, nos tornamos as amigas chatas. Não sabemos mais brincar, não temos mais senso de humor. De repente, somos as exageradas. As grossas. As impacientes. De repente, perdemos amizades. Perdemos contato com pessoas que antes gostávamos. De repente, nos vemos desfazendo velhas amizades pois percebemos naqueles homens a misoginia, o preconceito, a agressividade.

E então, quanto nos sentimos uma ilha é normalmente quando percebemos que somos, que sabe, um arquipélago. Não estamos sozinhas: temos nossas irmãs conosco. E embora existam divergências, existam brigas, desavenças… Embora intrigas não faltem… Eu me orgulho de, ainda assim, ainda acreditar no poder dessa coisa chamada amizade feminina. Nessa coisa chamada sororidade.

Não que eu veja sororidade da mesma forma sem restrições que eu via tempos atrás. Acho que sororidade não é amar todas as mulheres nem passar a mão na cabeça delas. Acho que tem mais a ver com a ideia de criar laços com mulheres de cooperação, de amizade quem sabe… laços que o patriarcado nos ensinou que são fúteis e frágeis. É também articular uma luta de mulheres e pelas mulheres, é essa luta conjunta. E eu vejo como isso é fundamental para manter nossa sanidade quando começamos a enxergar o mundo sem o véu que o patriarcado nos ensina a usar; quando começamos a nomear as opressões e, consequentemente, notá-las.

As vezes, contudo, aquilo se torna simplesmente demais. Sentimo-nos fracas e cansadas, as nossas forças esvaziadas. As amigas estão brigando, o patriarcado atacando e a gente sente falta, mesmo que por apenas um segundo, da “inocência” de quando não éramos feministas.

Viver num mundo patriarcal parece mais fácil quando não temos completa noção de que nele vivemos. O que a gente esquece, contudo, é que por essa “comodidade” que essa inocência nos dá nós pagamos caro porque nós somos obrigadas a nos curvar. Ser pisada não é menos dolorido se não vermos o pé que nos pisa. Sabendo quem nos ataca e como o faz, podemos nos juntar, articular, lutar. Lutar pela liberdade, pela integridade, pela voz, pelos direitos e pela vida das mulheres.

Muitas vezes também, nos revoltamos com mulheres que recusam ter contato com o feminismo; o que esquecemos é o quanto esse primeiro contato é chocante e o quão dolorido é nosso processo de “imersão” no meio feminista, de todos os altos e baixos, toda a dor de repente clara, todo o choro e a bagunça na forma que vemos o mundo. Não podemos julgar as mulheres que não sentem vontade de imergirem num meio assim, mesmo que ele lute, também, por ela.

A maioria de nós, contudo, não pode se dar ao luxo de viver longe de tudo isso. Para a mulher numa posição socialmente “confortável”, é mais fácil. Mas a mulher negra, periférica, indígena, lésbica… Essas mulheres estão na linha de frente, elas são socialmente alvos fáceis.

Essas mulheres não podem se isolar dessa realidade tão facilmente como a mulher branca heterossexual de classe média. Quando dizemos que o movimento feminista precisa ser, especialmente, focado nas vivências dessas mulheres, é porque este precisa ser um movimento que foque em empoderar e apoiar todas as mulheres, especialmente as mulheres em situações mais delicadas e que estão socialmente mais expostas.

A vida da mulher não é mais fácil simplesmente por ela não enxergar sua opressão; no máximo é mais tolerável, fácil de engolir. Notar cada detalhe da forma como a opressão funciona é por várias vezes dolorido, mas isso também é o que nos faz entender como nossa luta deve caminhar.

Claro que a mulher mais engajada nessa luta tem uma maior tendência a sentir-se só e exposta; ela está, querendo ou não, desafiando o patriarcado e a classe masculina. Se for negra, também está desafiando a supremacia branca. Se é indígena, desafia o colonialismo. Se é lésbica, desafia o falo e o heterocentrismo. Desafios, desafios.

Para algumas de nós, todos os dias têm desafios. Para outras, viver em si é um desafio. No fim, não há escapatória. A classe feminina é, querendo ou não, forte simplesmente por existir. Qualquer mulher que ouse cruzar a linha, que ouse se rebelar contra a opressão, que ouse não apenas existir por existir mas dedicar sua existência à luta contra essa opressão e todo o sistema que a sustenta, é de uma força descomunal. É guerreira, subversiva.

Conheça ela essa força que carrega ou não.

Mulheres indígenas – violência, opressão e resistência

Mayroses

Através dos séculos nossa voz foi sufocada. Mas muitas vozes femininas ecoaram. Hoje o princípio da Terra, cujas sementes brotaram a partir das lágrimas de dor das mães, tias, avós e bisavós desse país se fazem presentes.

“Cunhã-Uasu Muacasáua – MULHERES FORTES E UNIDAS!”.

Hoje é o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher e escolhi destinar meu post à visibilidade das lutas por direito das mulheres indígenas. Quase sempre esquecidas nos debates sobre gênero, as mulheres indígenas são vítimas de graves violações de direito e são multiplamente ameaçadas pela discriminação de sexo, raça, etnia e classe social.

Segundo relatório da ONU, divulgado em 2010, uma em cada três índias é estuprada durante a vida. Isso deixa claro que as mulheres indígenas são mais vulneráveis a violência do que as demais. Numa sociedade patriarcal, que já coloca as mulheres em situação de desigualdade, o que dizer das mulheres…

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Alguns motivos para ser CONTRA o Projeto de Lei João W. Nery

Nosotras, las Brujas

Jean Wyllys e João Nery. Uma tristeza que a história do João esteja sendo usada para oportunismo.

Com as eleições chegando, os direitos da população LGBT viram oportunismo. A Marina Silva, atendendo aos pedidos de quem vai fazer campanha pra ela (os fundamentalistas), voltou atrás do programa pra questões LGBT que o PSB tinha formulado um dia antes. Entre outras medidas, ela retirou o apoio à criminalização da homofobia, e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. E ela também mudou a posição sobre a Lei João Nery, que é um projeto do Jean Wyllys (o mesmo que quer legitimar a cafetinagem através de outro PL absurdo e irresponsável). Em vez de lutar pela aprovação da lei, ela se comprometeu a impedir os “entraves burocráticos” pra ela ser aplicada, mas só no caso dela ser aprovada pelo congresso. A maioria das pessoas ainda não tá ciente do conteúdo dessa lei…

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Não estou “de boa” e não irei me calar!

Ser militante é estar em constante mudança, em constante transformação. Consideramos que vivemos em um mundo e em uma sociedade que estão em constante evolução, em constante mudança, o militante que tem medo de mudar, de repensar suas condutas e crenças… fica pra trás. Ser militante também exige estar sempre pronta pro combate, e não estou falando simplesmente do embate físico com outras pessoas, com outros movimentos ou até com os braços armados do governo.

Toda mulher feminista deveria cultivar o feminismo combativo, deveria cultivar em si a vontade crescente de estar sempre em movimento, de estar sempre lutando. É isso que faz e sempre fez  o movimento feminista, bem como qualquer outro movimento pela liberdade de outras classes oprimidas, continue existindo, continue funcionando. Se ativistas entram no ócio, se ativistas se acomodam, a luta estagna. E, considerando que nenhuma luta estagnada tem força, ela se torna ineficiente ou até inexistente. 

Há de se admitir: participar do ativismo feminista, especialmente no meio virtual, é desgastante. Há dias em que você sente vontade de acabar com tudo, de sumir. Se afastar da militância por um tempo ou até de forma mais permanente é completamente normal; há pessoas que não conseguem ter saúde mental para lidar com esse tipo de coisa, com esse desgaste constante. Eu não julgo essas mulheres, não mesmo.

O que eu critico, porém, é quando alguém acredita que pode usar o nome do feminismo como simples “identidade”. Eu não consigo tolerar que alguém se considere abertamente “feminista” enquanto prega o ócio; eu não consigo tolerar que mulheres que se dizem feministas estejam dizendo para as outras ficarem “de boa” enquanto a classe feminina é continuamente explorada pelo patriarcado.

Embora eu já tenha ouvido que a página foi criada para pregar a “harmonia entre vertentes”, nem isso faz sentido. O movimento feminista, em tese, tem a sororidade como uma de suas maiores pautas. Respeito mulheres feministas de outras vertentes, bem como mulheres em geral. Respeito-as, e respeito suas existências, mas sororidade não me obriga a aceitar ou fingir concordar com qualquer coisa que mulheres falem, sobre o mundo e sobre a militância feminista.

Se encaro o feminismo de uma forma diferente de minha colega de luta, creio que a discussão é essencial; isso não é ir contra a sororidade, mas sim agir como qualquer outro ser racional que encontra divergências entre sua forma de pensar e a do seu próximo: civilizadamente debater sobre tais divergências, tentar expor o que eu acredito, ouvir o que o outro têm a dizer. Quando você mina qualquer possibilidade de discussão e debate com discursos que basicamente dizem “deixe isso de lado, cara, fica de boa!!!!”, você também mina a possibilidade de diálogo entre mulheres, mina a formação de ideia com base nas discussões e nas mediações.

Política é embate, é discussão, é debate, é não aceitar o que o outro te diz se você não concorda com ele. Militar por uma causa significa embater com pessoas que não pensam da mesma forma; militar por um grupo oprimido é ter de sempre estar pronta para embater contra a classe opressora. Minar isso em prol do ócio, em prol de “ficar de boa” é desestimular mulheres a cultivarem o sentimento que foi e é o motor histórico e social das conquistas femininas; se algumas de nós não tivessem, em algum momento, se revoltado com suas situações e com a latente desigualdade; se elas não tivessem cultivado o feminismo combativo, se não tivessem brigado, se não tivessem discutido, inclusive entre si, e se não tivessem ido a luta, nós nunca estaríamos onde estamos hoje. 

Se não fosse por todas as mulheres combativas, que deram a cara a tapa pelos direitos da classe feminina, nós não teríamos nada. Nenhum direito, nenhum espaço, nenhuma voz. Esses ainda são escaços, mas se temos alguma coisa, é por causa delas. 

Considerando isso, é no mínimo uma afronta contra a memória dessas mulheres reduzir o movimento que elas suaram e apanharam para construir a um jogo identitário, onde o ócio e a acomodação são formas de lutar contra a opressão e onde qualquer um, por mais desinformado ou descomprometido com a causa feminina que esteja, é feminista a partir do momento em que assim se diz. 

Propagar esse tipo de ideia, essas ideias cultuadoras da “boa vizinhança” ou do ócio, dentro dos espaços de militância, como uma forma de lutar ou militar, é atentar contra o passado e o presente de lutas feministas, bem como ameaçar o futuro.

E eu entendo que essa provavelmente não era a intenção. A intenção de quem começou com essas ideias era, provavelmente, ter um descanso de tantas brigas e discordâncias internas. O que não muda o aspecto problemático dessas ideias, que parecem promover o descaso e a acomodação dentro de um movimento que só existe por causa do comprometimento de mulheres com uma luta que antes parecia impossível, e porque mulheres em algum momento da história fizeram a opção por não se acomodar em suas posições sociais de opressão, escolheram se incomodar e embater contra o sistema que criou e que mantem sua opressão, e contra a classe opressora.

Eu não vou ficar “de boa”, eu não vou me acomodar. Eu não tenho motivos para fazê-lo. A classe feminina sempre foi explorada, e eu não vou ser quem vai banalizar a luta que minhas irmãs suaram e morreram pra construir e consolidar. O feminismo não ter a ver com bem-estar pessoal ou com identificação, o feminismo é um movimento político de libertação feminina, tem a ver com aplicar as teorias do feminismo na militância virtual e presencial, tem a ver com prática, com formas de agir e de enxergar o mundo, e principalmente, com a luta pela libertação da classe feminina das garras do patriarcal, da violência de gênero e da exploração. 

Enfiar o ócio e o pacifismo dentro do feminismo é não somente banalizar a história da luta feminista, aliás, como também é se enganar achando que simplesmente ignorar os problemas, dentro e fora da militância feminista, vai fazer com que eles sumam. Se você quiser por seu bem-estar acima da luta, faça-o. Faça o que acredita melhor para você. Se acredita que realmente vai poder conquistar algo se valendo do pacifismo ou do que agora é chamado de “deboísmo”, então tente. Só não tente atribuir esse caráter acomodado e anti-revolucionário ao movimento feminista; no mínimo, promover isso é minar o feminismo combativo que, para mulheres vivendo em uma sociedade patriarcal, é a única forma de constituir não somente sua existência, mas também constituir resistência.

E a resistência é a única coisa que pode nos libertar. 

Se sua forma de militar mina o feminismo combativo, a resistência, o espírito revolucionário, ele não está realmente preocupado com a libertação feminista, e de gente minando ou silenciando essa libertação, a principal causa feminista, propositalmente ou não, o feminismo já está cheio.

Ser mulher não é simplesmente “calçar nossos sapatos”!

 

Adaptado de um texto de autoria de Julia Maria Fernandes, postado no Facebook. Ela me autorizou a adaptá-lo e  disponibilizá-lo aqui. Eu mudei algumas palavras que acreditei que fossem se encaixar melhor, mas procurei manter o sentido do texto original integralmente. Obrigada, Julia!❤

 

Hoje meu recado vai para você, transativistas, em especial a uma que fez um texto direcionado para nós; mas também vai para todos os outros grupos anti-feministas e anti-espaços exclusivos de mulheres, o que tem se tornado um pleonasmo, ao meu ver.

Nós, mulheres, também passamos uma vida sendo apedrejadas.
No Oriente Médio, as maiores vitimas desse modo de execução são as mulheres, onde sua palavra de nada vale e grande parte parte das vezes seu julgamento não é justo. Sakineh Ashtiani é uma mulher de 43 anos e sua execução é iminente.
Os números são assustadores. Dentre os vários casos de execução, é mencionável o caso de  uma menina de 16 anos que foi enforcada, em 2004. Seu crime? Ela foi estuprada diversas vezes por um homem casado de 51 anos. Ele não foi a julgamento.

Também somos ridicularizadas desde a infância. Se não nos encaixamos nos padrões de beleza que nos são impostos, mesmo quando ainda somos crianças, somos convencidas que a nossa existência não vale. As mulheres estão em segundo lugar onde quer que elas estejam; somos a classe inferior, o “segundo sexo”. Menos no feminismo radical, movimento que você acusa de não reconhecer sua mulheridade — e olha, nós não temos essa obrigação.

Também temos nossos direitos básicos violados constantemente. A classe feminina compõe a maioria dos casos de vitimas de estupro, abuso domestico, violência obstétrica, pedofilia, assassinato marital. Os nossos estupradores são protegidos por uma lei falha e a nossa cultura nos culpa e aprisiona pelos abusos que sofremos.

Quanto ao direito de ter uma família, nos é negado o direito de não tê-la. Vivemos sob a autoridade dos homens da nossa família e, quando viramos adultas, somos obrigadas a constituir uma família graças à maternidade compulsória, que marginaliza mulheres que não querem abdicar de seus planos e sonhos em detrimento de outra(s) pessoa(s) — pois também é sabido que as obrigações de criar uma criança são de nossa responsabilidade e não dos homens (o serviço e as obrigações domésticas não são divididos de forma igual e quase sempre ainda são vistos como obrigação da mulher — o que acarreta a jornada tripla de trabalho feminina). Cabe a nós apagar ou tornar secundários nós mesmas e nossos objetivos em detrimento dos filhos.

Há, inclusive, uma tentativa de fazer vigorar uma lei que nos obriga a manter a gravidez em caso de estupro e ainda reconhecer o estuprador como o pai da criança. Uma mulher tem que constituir família: queira ela ou não.
E há quem diga que maternidade é privilegio — dentro de espaços feministas, inclusive.

Nossos nomes estão, de fato, de acordo com o nosso gênero e  vocês nos acusam de “nos identificarmos” com eles, e isso é degradante. Em uma sociedade cuja a visão e a imposição de gêneros visa beneficiar as pessoas do sexo masculino, como então poderia a binaridade dos gêneros beneficiar a mulher? Se, de acordo com a nossa análise, o gênero é uma arma patriarcal para a dominação e doutrinação das fêmeas, da classe feminina, que nesse contexto servem de auxilio emocional, doméstico, sexual e afetivo para homens?

Como podem dizer que nos identificamos com essa posição [que nos é imposta]? Apenas por nos conformamos com a feminilidade que a nós foi imposta com o intuito de nos fragilizar, vulnerabilizar, enfraquecer, odiar-nos entre nós, incapacitar-nos intelectualmente e nutrir um sentimento maternal e altruísta pelas pessoas do sexo masculino? Não nos identificamos com a feminilidade, tampouco com o que é “ser mulher”. Eu não me identifico com essa construção social que me foi imposta desde antes de eu nascer.

Se a ideia de gênero existente atualmente visa justamente viabilizar toda a violência que me atinge como mulher, por que então meu gênero seria negado? Meu gênero nunca me foi “concedido”. Meu gênero me foi empurrado goela abaixo e nada do que eu faça mudará os efeitos que isso teve na infância, juventude, crescimento e socialização de uma mulher. A trágica construção do ser mulher não pode ser neutralizada simplesmente se eu mudar meu nome e meu comportamento. A socialização feminina ainda estará lá e a socialização das pessoas do sexo masculino é uma vantagem sobre mim.

Quando você fala sobre a imposição dos padrões de beleza, você diz que isso pra ti é uma necessidade para que a sociedade te enxergue como mulher. A forma com que você fala faz parecer que esses mesmos conceitos de beleza e estética não existem e são destinados ESPECIALMENTE para as mulheres; como se não sofrêssemos abusos dessa instituição desde que nascemos. Comecei a usar maquiagem aos 8 anos de idade. Salto alto aos 7. E comecei a odiar meu próprio corpo muito antes disso.

Nosso problema não é simplesmente o fato de vocês performarem a feminilidade ao extremo. Nosso problema é vocês clamarem mulheridade simplesmente porque performam essa feminilidade. A única ideia de mulher que uma pessoa do sexo masculino pode ter é, claramente, observando as mulheres. Logo, a ideia de mulher para vocês parece ter somente a ver com a performance de gênero feminina. E isso, para nós. reforça ainda mais nossas opressões, pois ser mulher não é simplesmente isso. Ser mulher é nascer com uma vagina e ter a sociedade eficientemente construindo a “ideia de mulher” dentro de você.

Vocês não têm vivencias de mulher. Porque ser mulher não é simplesmente “calçar nossas sapatos”.
Vivência de mulher é começar a sofrer violência a partir do momento que você nasce.
PARE de querer fazer parecer que pessoas do sexo masculino podem ser e/ou são mulheres porque acharam a mulheridade atraente. Essas pessoas podem parecer, MAS NÃO SÃO.
Vocês são machos porque é essa a leitura social que ocorre sobre vocês, e leitura social faz toda a diferença. Se é a leitura social que determina a opressão, é por isso acreditam que ser mulher é uma boa ideia. E não é.

Mas pra falar a verdade mesmo, não é nem esse o nosso problema. Não podemos interferir em como vocês querem ser chamados e na individualidade de vocês. O problema é quando o teu ativismo começa a fazer mulheres acreditarem que a posição delas é de privilegio. Que lésbicas devem se relacionar com pênis. Que genital não faz diferença na vida de alguém, que a vagina socialmente e culturalmente não determina a mulheridade — e, consequentemente, a opressão — daquele individuo. Quando a transfobia se torna mais grave do que o ódio às vaginas, o ódio às mulheres que vocês alimentam para beneficiar seu movimento. O problema é vocês colocarem na cabeça de jovens mulheres que as maiores oprimidas são vocês e que nosso dever é militar pelas suas causas.

Meu problema é vocês quererem enfiar vossas presenças nos banheiros femininos, nos espaços exclusivos para mulheres, nas nossas vaginas e bocas. O problema é quando vocês exigem entrada liberada em nossos banheiros, mesmo que isso implique abrir brecha para que homens, que vivem e são lidos como homens, se aproveitarem disso para espionar e estuprar mulheres (e isso tem acontecido, viu?). O problema é vocês acreditarem que a noção de gênero de vocês é a unica e verdadeira e que qualquer outra, mesmo que montada por mulheres e para mulheres, deva ser execrada, mesmo que aquilo seja parte do único legado que nos resta. O problema é vocês combaterem os espaços que lutamos para conquistas para nós mesmas, para interagirmos com aquelas cujas vivencias são semelhantes às nossas. O problema é que socialização masculina envolve MUITA misoginia e eu tenho o direito de me proteger disso.

Eu não me importo se você se chama Marcelo ou Marcela, se usa saia ou vestido. Eu me importo quando o teu movimento me culpabiliza me jogando no “saco cis” e me acusando de me conformar ou me “identificar” com as opressões a mim impostas.

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