Por que o feminismo radical é acusado de ser conivente com a “transfobia”?

Porque, aparentemente, polêmica pouca é bobagem

Não é novidade para ninguém, atualmente, que o feminismo radical é incessantemente acusado de promover ou ser conivente com a transfobia, simplesmente porque esta vertente feminista tem uma visão diferente acerca da definição de gêneros e do peso social que a socialização tem na existência social de alguém.

Como feminista radical, acredito que falo por todo o movimento quando digo que nós jamais vamos apoiar ou incentivar qualquer tipo de desumanização ou violência contra ninguém, incluindo pessoas que se identificam como trans. Somos a favor dos direitos humanos e acreditamos que eles devem ser como na teoria são: universais. Feministas radicais em momento algum vão incentivar a agressão ou a violência contra nenhum tipo de pessoa.

Discordar de alguém, contudo, não é uma forma de violência. Isso é, aliás, um conceito deturpado com o qual nós (infelizmente) entramos em contato logo durante nosso início na militância feminista: a ideia de que a discordância, de que a crítica a posicionamentos e a problematização de atitudes ou formas de pensar é necessariamente um ataque pessoal aos indivíduos que agem dessa forma ou perpetuam essas ideias. Nós não “odiamos pessoas trans”, mas não podemos negar que, entre a política da “identidade de gênero” e o feminismo radical há, sim, uma grande discordância.

Feministas radicais são críticas do gênero em si. Não não temos como projeto a reforma dos gêneros – nós somos abolicionistas de gênero. Vemos o gênero como uma opressão, já que ele divide seres humanos em duas classes distintas, ambas com papéis de gêneros e socializações diferentes. Embora ambas as classes sejam individualmente oprimidas por serem limitadas por esses papéis de gênero e moldadas por suas formas de socialização, o gênero, por estar intimamente ligado com o patriarcado, é também o que separa os indivíduos em classes “masculina” e “feminina” e que, com base em formas de socialização distintas, é essencial para executar a opressão da classe privilegiada e opressora masculina sobre a classe oprimida feminina. Por ser um movimento de cunho revolucionário, o feminismo radical crê que, a ausência dos papéis de gênero socialmente construídos e que formam a base essencial do patriarcado, essencial para qualquer revolução que busque libertar a classe feminina, acabaria com todo tipo de código social que defina o que pessoas do sexo masculino e feminino podem ou devem fazer (ou não fazer), assim tornando-as livres para se vestir, se comportar, e amar umas as outras da forma que desejassem, independentemente de que tipo corporal ou sexo elas tivessem nascido com.

Como já foi dito antes, o patriarcado é o sistema que pega seres humanos que nasceram sendo biologicamente machos ou fêmeas e os transforma nas classes sociais chamadas de “homens” e “mulheres”. O que foge ao entendimento de muitos é que, embora seja um sistema classista, o Patriarcado em mais parece um sistema de castas do que de classes, já que não existe uma verdadeira mobilidade entre as classes privilegiada e oprimida, entre as classes masculina e feminina. Pessoas do sexo masculino são transformadas em homens pela socialização masculina, que é definida por uma psicologia baseada na dormência emocional e na dicotomia entre o eu e e outro. Enquanto isso, a socialização feminina no patriarcado parece ser um processo de psicologicamente constranger e destruir meninas – processo esse também chamado de  “preparação”, preparação esta para criar uma classe de vítimas conformes. A feminilidade é uma série de comportamentos que são, em sua essência, pura submissão ritualizada.

Não conseguimos enxergar nada na criação ou na constituição do conceito de “gênero” que valha a pena ou deva ser celebrado ou aceito. O Patriarcado é um arranjo de poder brutal e corrupto e nosso objetivo é “desmantelá-lo” até que estas categorias de gênero não existam mais, bem como outros critérios de divisão de grupos e classes criados em função de dar privilégios a um grupo enquanto oprime outros grupos, de forma histórica, social, econômica e política (e por isso também que o feminismo radical pode dialogar com outras lutas libertárias de cunho revolucionário, como a luta pela libertação do sistema de classes [sócio-econômicas],  pelo fim da discriminação de raças [fim do racismo], etc).

De acordo com a nossa concepção, a verdadeira liberdade da classe feminina nunca será possível enquanto os gêneros existirem, justamente por estes serem sistemas usados para moldar a masculina de forma a receber privilégios pela opressão que eles nos infligem (já que no patriarcado, é estra classe que detém o poder) e molda a classe feminina para ser submissa diante de sua opressão e, não contente em normalizar nossa opressão e a violência que inflige sobre nós, ainda nos faz acreditar que essa opressão é, de alguma forma, seja esta científica, histórica ou religiosa, natural, necessária ou certa. O patriarcado facilita a exploração de corpos femininos para o benefício dos homens – seja para a satisfação sexual masculina, seja como mão de obra barata ou pela reprodução. Apenas para dar uma rápida exemplificação, existem aldeias inteiras na Índia onde todas as mulheres só tem um rim. Por quê? Porque seus maridos têm o costume de vender o outro. Gênero é muito mais do que um “sentimento” ou uma “identidade” — é uma violação contra direitos humanos de uma classe inteiras de mulheres, ou como diria Andrea Dworkin em “Against the Male Flood: Censorship, Pornography, and Equality”, pessoas chamadas mulheres.

Nós, feministas radicais, não somos “transfóbicas”, mas temos, sem dúvidas, discordâncias com reformistas de gênero sobre o que o gênero realmente é. Reformistas de gênero acham que o gênero é natural, quase um produto da biologia humana. Feministas radicais e pessoas abolicionistas de gênero encaram este [o gênero] como algo social, que produz e é produto da supremacia masculina, logo, é essencial para a manutenção desta. Reformistas de gênero encaram gênero como uma “identidade”, um conjunto interno de sentimentos que as pessoas possam ou não ter. Feministas radicais e abolicionistas de gênero encaram gêneros como o sistema patriarcal de “castas”, conjuntos de condições materiais e sociais nos quais um indivíduo já nasce imerso. Reformistas de gênero o encaram como um binarismo, enquanto feministas radicais e abolicionistas de gênero o encaram com uma hierarquia; hierarquia esta na qual quem está no topo é a classe masculina. Alguns reformistas de gênero afirmam que o gênero é algo “fluido”. Feministas radicais apontam que não há nada de fluido em ter seu rim posto a venda pelo seu marido. Então, sim, nós temos algumas grandes discordâncias ideológicas.

Feministas radicais também acreditam que as mulheres devem ter o direito de definir suas fronteiras e limites e decidir quem deve ser incluído em seus espaços exclusivos (e sim, também acreditamos na necessidade desses espaços exclusivos). Acreditamos que todos os grupos oprimidos têm esse direito. Somos constantemente chamadas de transfóbicas por apoiar a decisão de várias mulheres de não ter homens – pessoas nascidas com o sexo masculino e socializadas na masculinidade – em espaços exclusivamente femininos.

Se o feminismo com o qual você está acostumada não tem como prioridade fundamental a segurança das mulheres, se o seu feminismo não prioriza as causas destas mulheres e se ele não coloca como seu objetivo máximo a libertação da classe feminina do patriarcado e todos os sistemas que as aprisionam [mulheres] (e não a reforma destes sistemas, que seriam ineficientes para promover a real libertação das mulheres), então talvez seja a hora de parar e refletir se esse feminismo está realmente comprometido com a causa feminina.

Maternidade por um viés feminista: porque dialogar com diferentes realidades é essencial

Sobre quando os debates feministas viram “disputa de egos”…

Esse texto é um texto que busca incentivar a reflexão. É um texto radical direcionado às feministas radicais e simpatizantes, em especial as que estão começando. Ele não busca, de forma alguma, “julgar” ou “corrigir” ninguém, mas incentivar que nós, feministas radicais, iniciantes ou não, possamos parar e refletir se estamos agindo de forma correta quando estamos em debates “mistos”, ou seja, debates entre mulheres de vertentes diferentes, com pensamentos diferentes, e que muitas vezes podem se sentir hostilizadas por algumas formas de abordagem. E, se uma mulher se sente hostilizada pela nossa abordagem, isso demonstra que talvez seja necessário repensar isso.

Primeiramente, eu creio que seja algo claro hoje em dia que muitas de nós só se permitiram dialogar com o feminismo radical quando fomos hostilizadas ou vimos mulheres sendo hostilizadas por pessoas trans/transaliados. Embora eu acredite que uma mulher possa e deva ser bem recebida no feminismo radical independentemente do que a motivou a procurá-lo inicialmente, eu acredito que muitas dessas moças venham para o feminismo radical mais por se sentirem acolhidas por esta corrente do que por serem ideologicamente alinhadas ao feminismo radical.

Não me entendam mal: não há nada de errado nisso, não mesmo. Mas eu tenho receio de que muitas dessas moças possam ter ideias equivocadas sobre o que o feminismo radical é, sobre nossas pautas e lutas, e quando elas discutem em grupos “mistos”, elas as vezes podem passar a ideia errada sobre o movimento para outras moças, e isso é sintomático.

Deixe-me ir direto ao ponto: após discussões em grupos majoritariamente liberais, já que são grupos onde grande parte das moças são iniciantes, eu comecei a perceber “comportamentos em comum” por parte de muitas dessas meninas radicais iniciantes, e isso me preocupou. Quero falar um pouco sobre tais comportamentos nesse texto, com o objetivo de incentivar a auto-análise e, novamente, a reflexão.

O primeiro comportamento que notei foi a atitude debochada. Embora eu entenda que em muitas situações que consideramos absurdas, nós costumeiramente acabamos preferindo ser debochadas do que nos irritar com nossas irmãs num debate. Eu realmente entendo a motivação desse comportamento, mas ele é problemático. Entenda, socialmente, mulheres aprendem desde cedo a se silenciarem; aprendemos que o que pensamos não é relevante. Quando uma mulher começa a dar suas opiniões, ela é logo vista como “histérica”, “exagerada”, “irritada”… Quando uma mulher feminista começa a opinar sobre algo, seus discursos são ignorados ou zombados por quem está fora da lógica feminista. Como feministas, faz-se necessário que nós não nos apropriemos dessa prática. Logicamente, mulheres podem produzir discursos preconceituosos, e esses devem ser analisados, problematizados e criticados. Agora, “debochar” do discurso de uma mulher, além de ser falta de educação e de sororidade, é improdutivo. Nenhum diálogo vai poder ser feito se uma das partes vai debochar de tudo que não concordar vindo do outro lado, e como mulheres feministas, nós PRECISAMOS buscar o diálogo com as mulheres. 

“Mas elas começaram a me ofender/zombar de mim primeiro!”, é algo que eu escuto bastante como resposta. Primeiramente: não estamos na primeira série. Você não puxa o cabelo da coleguinha porque ela puxou o seu primeiro; somos pessoas crescidas, somos seres racionais e o diálogo deve ser nossa arma e nosso escudo. Se a “coleguinha” se mostrar não disposta a travar um diálogo que não seja debochado ou passivo-agressivo, a melhor dica que posso lhes dar é: SE AFASTE! Se fica claro que o diálogo entre suas ideias não vai funcionar e que continuar insistindo nisso só vai ferir e desgastar ambas as partes, talvez seja melhor dar tempo ao tempo, se afastar, focar em outras coisas. Até porque muitas vezes o tempo, e só o tempo, permite que algumas pessoas se tornem mais abertas a dialogar e entender o outro lado. 

Outro comportamento que eu vejo e que em muito me incomoda, e que claramente é um traço que muitas meninas ainda carregam de suas épocas como feministas liberais, é o costume problemático de tentar resinificar termos. Não, amiga, você não é “terf”, “femista”, “feminazi”, “extremista”, “bucetista”, “radscum” nem nada assim. Não permita que outras pessoas, especialmente pessoas do sexo masculino, definam sua militância. Não permita que gente que pouco ou nada sabe do feminismo radical tente “definir” sua existência, como feminista radical, utilizando-se de termos depreciativos ou simplesmente absurdos inventados para segregar-nos e ao nosso feminismo. Eu poderia me prender explicando o quão cada termo desses é absurdo, mas acredito que já existam vários textos falando sobre o assunto, então não, não pretendo me demorar nisso. Creio que já deixei claro o que eu queria dizer.

Quando você assume o termo “terf” pra si, diz que é “terf com orgulho” ou algo assim, você acaba “confirmando” na cabeça de mulheres que ainda não têm contato com o feminismo radical a ideia equivocada de que nossas teorias se resumem a “excluir trans” (acusação absurda) ou, pior, “eliminar trans”. Nossas pautas não se resumem a pessoas trans, não demonizam pessoas trans e nem nada parecido. Nossas pautas são sobre pessoas nascidas, socializadas e lidas como mulheres, pessoas que sofrem e são afetas pela misoginia, que são acorrentadas pela opressão de gênero e que sofrem as consequências de ter uma socialização feminina em uma sociedade que odeia mulheres. Sem falar que, além disso, quando você resinifica termos assim, você permite que indivíduos socializados como homens, novamente, definam sua militância. Isso tem de ser problematizado urgentemente.

Outra coisa que vale uma menção, é aceitar ou apoiar a ideia de que feministas radicais “acham que gênero e sexo é a mesma coisa” ou que “são genitalizantes”. Não somos nós, feministas radicais, que somos “genitalizantes”: a nossa sociedade é. Nós não concordamos que pessoas devem ser socializadas para ser “homem” ou “mulher” desde o nascimento, levando em conta os genitais. O que nós não podemos nos dar ao luxo de fazer, contudo, é ignorar que é assim que se as coisas são feitas na sociedade em que vivemos.

É como discutir preconceito de classe, realmente. Eu, como mulher socialista, não concordo que pessoas tenham que vender sua força de trabalho para sobreviver,enquanto existem pessoas lucrando com a força de trabalho deste e de tantos outros indivíduos. Eu não concordo com a concentração de capital, eu não concordo com a meritocracia, eu não concordo com o neo-liberalismo, eu não concordo com todos os sistemas construídos para manter o capitalismo como sistema econômico mundial que, pautado na exploração e na opressão de classe, faz de quem é pobre cada vez mais pobre e de quem é rico, cada vez mais rico. Eu não concordo com nada disso, de verdade. PORÉM, se eu realmente quero propor mudanças reais,s e eu realmente quero propor uma revolução que libertará os seres humanos disso, eu primeiramente tenho de parar de me iludir e aceitar, sim, que é dessa forma que as coisas acontecem no mundo real. Porque, você sabe, não é ignorando que o capitalismo, suas causas e consequências existem que isso vai deixar de existir. 

Da mesma forma, feministas radicais enxergam o gênero como um elemento patriarcal fundamental para a opressão que a classe masculina impõe à classe feminina, de forma histórica, política, econômica e social. Se nós queremos propor uma revolução social que irá libertar mulheres de padrões de gênero que sempre as oprimiram e que as oprime até hoje (revolução essa que, consequentemente, também libertaria homens de suas próprias amarras de gênero, mas que tem como princípio fundamental a libertação do oprimido, ou seja, da classe feminina), precisamos primeiramente aceitar e entender o funcionamento e as bases da opressão de gênero – como ela funciona, o que a mantém funcionando e seu papel na manutenção do patriarcado. Nós não acreditamos que “gênero e sexo são a mesma coisa” ou somos “genitalizantes”; tudo o que fazemos é pautar nossas análises no mundo real e em como as coisas acontecem neste mundo real, ao invés de fazermos análises pautadas em teorias utópicas e equivocada sobre gêneros e seus funcionamentos. 

O que eu indicaria a todas essas meninas, e eu sei que isso vai soar academicista, mas é necessário… É que elas leiam mais teoria radical. Não existe um “limite” de conhecimento sobre a teoria radical, porque esta está em constante fase de crescimento e mudança. Feministas radicais estão sempre teorizando e é importante para TODAS NÓS estaemos em contato constante com textos e obras de cunha radical, lendo-as, digerindo-as e fundamentando cada vez mais nossa militância. Também é importante, mais do que simplesmente discutir com feministas de outras vertentes, deixar claro para essas mulheres que elas têm direito de pensar de forma diferente, e que você acredita que vocês duas possam coexistir e serem amigas mesmo pensando diferente. Afinal, nossos relacionamentos com outras mulheres não devem ser limitados ou pautados por teorias, mas sim pautados, acima de tudo, na sororidade e no respeito.

Não permita que os debates feministas se transformem em “disputa de egos”, onde um lado parece mais disposto a atacar o outro com unhas e dentes do que realmente discutir teorias e buscar soluções, articular lutas e tanto mais. Se o “outro lado” (odeio polarizar o movimento, odeio mesmo, mas como é um texto para explicar algumas coisas, creio que a linguagem mais simplista é essencial) provocar, talvez seja uma boa lembrar dos conselhos de nossas mães e professoras: deixar a coisa toda de lado. “Quando um não quer, dois não briga” pode não se rum ditado que funciona sempre, mas quando estamos falando do funcionamento interno do movimento feminista, talvez seja interessante relembrá-lo. Porque, no fim, não existem “os dois lados” dessa moeda: feministas liberais, interseccionais, transaliadas, radicais… Somos todas mulheres tentando sobreviver, e tudo do que não precisamos é que o movimento que luta pela nossa liberdade se torne uma briguinha de escolha, uma disputa de egos ou um espaço onde não nos sentimos seguras para nos pronunciar ou tirar nossas dúvidas sem sermos atacadas por nossas próprias irmãs.

Paciência é algo essencial quando estamos dialogando e discutindo com mulheres, especialmente mulheres que não pensam do mesmo jeito que a gente. Acredito que seja mais produtivo para quem não tem isso, para quem não tem paciência de dialogar com pessoas que podem, sim, se torar debochadas ou passivo-agressivas, seja por serem iniciantes ou por terem se tornado “fechadas” à novas ideias e formas de pensar, que prefira deixar uma discussão deixando claro para outras mulheres que você sempre estará disposta a ter um diálogo saudável com elas ou que sempre irá apoiá-las, do que deixar-se consumir pelo calor do debate e acabar ferindo você e suas irmãs no caminho.

Vale lembrar que, dificilmente, uma mulher que tiver sofrido alguma forma de “trauma” ou que tenha sido ofendida por alguém de uma vertente feminista vai ser paciente ou estará aberta ao diálogo com essa vertente. Cada mulher tem seus limites e esses têm de ser respeitados. Não é produtivo nem saudável IMPOR suas ideias a essas mulheres, especialmente quando elas deixam claro que não se sentem a vontade com isso. Eu sei que dói, que dói ver irmãs atacando irmãs, que dói ver mulheres atacando o que você pensa sem sequer terem tido a chance de ter contato real com o feminismo radical, mas não é indo nos espaços de feministas dessas vertentes e esbravejando contra o que elas pensam que você vai conseguir que alguma delas te dê ouvido. Muito melhor e mais produtivo que isso, porém, é lentamente tentar tornar essas mulheres mais abertas ao diálogo, conversar com elas, explicar sua forma de pensar aos poucos e dar a elas a chance de digerir isso tudo e de decidir o que elas pensam sobre isso, sobre você e sobre sua forma de ver.

É nisto que eu acredito, e são nesses princípios que eu tento pautar minhas ações e falas quando estou discutindo com outras mulheres. Espero que algumas de vocês, irmãs, possam usar este texto para auto-análise e reflexão e chegar na conclusão de como vocês acreditam ser melhor levar e construir a militância de vocês.

Feminismo “sem onda” ou indígena, ou a luta das “Feministas sem desculpa”.

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Este texto é uma tradução e uma adaptação de um texto chamado “Indigenous Feminism Without Apology”, de autoria de Andrea Smith,  feminista radical indígena, parte da tribo Cherokee, professora de Native American Studies na Universidade do Michigan, Ann Arbor, e co-fundadora do “Incite!” e do “Boarding School Healing Project”.

Nós frequentemente ouvimos o “mantra” nas comunidades indígenas de que mulheres nativo-americanas não são feministas. Supostamente, o feminismo para elas não seria necessário porque elas eram tratadas com respeito antes da colonização. Além disso, qualquer mulher indígena que se declare feminista é frequentemente dita “branca” ou, no mínimo, dita estar querendo “assimilar elementos culturais brancos” ou “se embranquecer”.

De qualquer forma, quando eu comecei a entrevistar mulheres indígenas envolvidas na organização das tribos e comunidades nativo-americanas como parte de meu projeto de pesquisa, eu me surpreendi com a quantidade de ativistas na escala local (dentro das próprias comunidades) se descreviam como “feministas sem desculpa”. Elas argumentavam que o feminismo na verdade era um conceito indígena que fora cooptado por mulheres brancas.

O fato de que as sociedades nativo-americanas e indígenas eram igualitárias 500 anos atrás não está impedindo essas mulheres de serem agredidas e abusadas atualmente. Por exemplo, em meus muitos anos de organização contra a violência, eu ouvi muitas vezes coisas como, “Nós não podemos nos preocupar com a violência doméstica; nós temos que nos preocupar com nossa luta pela sobrevivência primeiro.” Mas, levando em conta que mulheres indígenas são muito mais frequentemente mortas em decorrência da violência doméstica, fica claro que elas não estão sobrevivendo. Então quando falamos da sobrevivência de nossos povos, de quem estamos realmente falando?

Essas feministas nativo-americanas e indígenas não estão apenas desafiando o patriarcado dentro das próprias comunidades indígenas, mas também a supremacia branca e o colonialismo que estão intimamente ligados ao “white feminism” (o feminismo centrado na figura da mulher branca). Isto porque elas estão começando a desafiar a ideia de que são somente as mulheres brancas que devem definir o que o feminismo é.

DESCENTRALIZANDO O “WHITE FEMINISM”

O movimento feminismo é geralmente dividido em suas “ondas”, o Feminismo de Primeira Onda, o Feminismo de Segunda Onda e o Feminismo de Terceira Onda. Nos Estados Unidos, a Primeira Onda é caracterizada pelo Movimento Sufragista; a Segunda Onda é caracterizada pela formação da “National Organization for Women”, as políticas do direito ao aborto e a luta pelas alterações políticas para a conquista dos direitos iguais. De repente, durante a terceira onde, mulheres não-branca aparecem para “transformar o feminismo” em um movimento multicultural. 

Essa divisão da história do feminismo coloca as mulheres brancas de classe média como os agentes centrais da história da luta pelos direitos das mulheres, numa análise que coloca mulheres não-brancas como agentes secundários, somente “aceitos” ou “acoplados” no decorrer da história. Porém, se nós levarmos em conta a operação das mulheres indígenas em na “equação” da história do feminismo, da luta pelos direitos das mulheres, nós talvez devêssemos começar nossa análise histórica já em 1492 quando as mulheres Nativo-americanas coletivamente resistiram à colonização. Isso nos permitiria enxergar que existem diversas histórias do surgimento do feminismo, em diversas comunidades “não-brancas”, nas quais esse [o surgimento] aconteceu de forma e por motivos diferentes, porém, muitas vezes, conectados entre si. Uma análise assim não negaria as contribuições feitas por feministas brancas, mas não centraria nossa historialização e nossas análises somente nelas e no surgimento do feminismo nas sociedades branco-ocidentais. 

O Feminismo Indígena centraliza, assim, a prática anti-colonial dentro de sua organização. Isso é crítico hoje em dia quando você vê alguns grupos feministas apoiando, por exemplo, o bombardeio promovido pelo Exército dos EUA ao Afeganistão, justificando que tal bombardeios “irão libertar as mulheres das garras do Talibã” (aparentemente bombardear mulheres, para elas, de alguma forma as liberta).

DESAFIANDO O ESTADO

Feministas indígenas também estão desafiando a forma como conceituamos a soberania indígena – esta não é um “add-on” para os estado-nações heteronormativos e patriarcais. Pelo contrário, pretende desafiar o próprio sistema de “estado-nação”. Charles Colson, proeminente ativista pelos “Direitos dos Critãos” e fundador da “Prison Fellowship”, explica muito claramente a relação entre a heteronormatividade e o funcionamento de um estado-nação. De acordo com a sua visão, o casamento entre pessoas do mesmo sexo está diretamente relacionado ao terrorismo; o ataque à “ordem moral natural” da família heterossexual “é como entregar armas morais de destruição em massa para aqueles que usam a decadência dos Estados Unidos para recrutar mais mais atiradores e sequestradores e homens-bomba.”

De forma similar, a revista “Christian Right World” deu sua opinião e disse que o feminismo contribuiu para o escândalo de Abu Ghraib, por promover as mulheres no exército americano. De acordo com eles, “mulheres que não se conformam nos papéis de gênero que lhes foram impostos ficam desorientadas e agridem os prisioneiros.

O que está implícito nisto é a a análise de que o heteropatriarcado é essencial para a construção de impérios como o Império Americano. O Patriarcado segue uma lógica que naturaliza hierarquias sociais. Da mesma forma que homens supostamente estão designados naturalmente a dominar mulheres com base na biologia, da mesma forma as elites sociais deveriam “naturalmente” dominar o resto das pessoas através da lógica de governo dos estado-nações, que é construída através de dominação, violência e controle.

Como Ann Burlein argumenta em “Lift High the Cross”, talvez seja um erro afirmar que o objetivo da política pelos “Direitos dos Cristãos” seja criar teocracias. Ao invés disso, essa política parece querer usar a ideia da “família privada” (que é a família branca, patriarcal e de classe média) para criar uma “América Cristã”. Ela aponta que os investimentos na ideia da “família privada” torna mais difícil que sejam feitos investimentos nos outros tipos de conexão social.

Por exemplo, mais investimento na manutenção do estilo de vida da família privada dos subúrbios americanos significa menos investimento para as áreas urbanas, que concentram uma disparidade entre riqueza deslumbrante e pobreza extrema, e para as áreas de reservas indígenas. A decadência social resultante é então interpretada de forma a ser causada pelo desvio dos ideais da “família cristã” ao invés de forças políticas e econômicas. Como o antigo líder da “Christian Coalition”, Ralph Reed, colocava: “A única solução para a criminalidade é restaurar a Família” e “O rompimento da Família causa a pobreza.”

Infelizmente, como a estudiosa feminista Jennifer Denetdale, mulher parte da tribo Navajo, aponta, a resposta Indígena para a heteronormatividade branca da sociedade cristã americana frequentemente tem sido o incentivo a um igualmente heteronormativo nacionalismo indígena. Na crítica dela ao apoio do conselho tribal Navajo à proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo, Denetdale argumenta que as nações indígenas estão se aliando aos interesses dos ativistas pelos “Direitos dos Cristãos” em nome de “tradições indígenas”.

Essa tendência é igualmente aparente nas lutas pela justiça racial em outras comunidades não-brancas. Como Cathy Cohen afirma, a soberania heteronormativa no meio das lutas pela justiça racial irá efeticamente manter ao invés de desafiar o colonialismo e a supremacia branca pois está pautada na política da marginalização secundária. A classe mais privilegiada irá impor suas aspirações nas costas dos mais marginalizados dentro da comunidade.

Graças a esse processo de marginalização secundária, a luta pela justiça racial ou nacional, implícita ou explicitamente, assume um modelo de estado-nação como o ponto final de sua luta – um modelo onde as elites governam o resto com bale na violência, na exclusão e na dominação de quem não faz parte da “nação”.

REVOLUÇÃO

Uma política feminista indígena busca mais do que simplesmente elevar o status das mulheres indígenas – ela busca transformar o mundo de acordo com as formas de governo indígenas que podem ser benéficas para todos.

Em 2005, no “World Liberation Theology Forum” sediado em Porto Alegre, Brasil, populações indígenas da Bolívia afirmaram que eles conheciam outra forma de encarar nosso mundo porque eles conseguiam visualizá-lo dessa forma toda vez que faziam suas cerimônias. As cerimônias indígenas podem ser um espaço onde presente, passado e futuro se tornam co-presentes. Isto é o que a estudiosa nativo-americana do Hawaii, Manu Meyer, chama de “lembrança racial do futuro”. 

Antes da colonização, as comunidades indígenas não eram estruturadas na base da hierarquia, da opressão ou do patriarcado. Nós não temos como recriar essas comunidades da forma como elas existiam antes da colonização. Nosso entendimento de que sociedades não baseadas em opressões estruturas eram possíveis no passado nos diz que nosso sistema político e econômico atual é tudo menos natural e inevitável. Se vivíamos de forma diferente antes, podemos viver de forma diferente no futuro. 

O feminismo indígena não é simplesmente uma “política de identidade” isoladora e exclusiva, como é muitas vezes acusado de ser. Ao invés disso, é estrutura que compreende a luta das mulheres indígenas como parte de um movimento global pela libertação. Como um ativista afirmou: “Você não pode vencer uma revolução sozinha, e não estamos lutando por nada menor do que uma revolução. Qualquer outra coisa é simplesmente não vale nosso tempo.”

A política de identidade de gênero machuca as mulheres.

É sempre complicado e polêmico tentar começar uma discussão sobre identidade de gênero, já que tudo que tem a ver com “individualidade” e “escolhas pessoais” é vangloriado e protegido com unhas e dentes por correntes feministas que concentram suas análises na esfera individual, ao invés de analisarem nossas sociedade patriarcal e os elementos que lhe sustentam ou que são consequentes dela levando em conta as classes de pessoas, os interesses e a posição de poder das mesmas. E, já que estas correntes não exigem que haja problematização de nossos “gostos pessoais” já que indivíduos são “seres individuais fazendo escolhas individuais e sem conexão”, ela consequentemente é muito mais “atrativa” para quem está começando a ter contato com as discussões do feminismo; e seria um estágio saudável, se não fosse pelo fato de muitas mulheres se sentirem tão confortáveis com o movimento que engole tudo e não critica nada que estagnam no estágio que deveria ser intermediário; no Feminismo Liberal.

Então, sim: conversar com mulheres que ainda estão presas na forma de análise e de pensamento do Feminismo Liberal sobre a problematização da política de identidade de gênero é sempre muito delicado, assim como é delicado tocar em qualquer outro assunto que exija não somente senso crítico, com também mente aberta para o diálogo, para a problematização, bem como bastante paciência da parte de quem está iniciando essa discussão. Eu não sou a pessoa mais paciente do mundo; creio que devo ser uma das pessoas mais impacientes que conheço. O que alimenta esse texto não é minha paciência, porém, mas minhas teimosia e a necessidade latente de discussões desse tipo.

Espero do fundo do meu coração que, seja lá quem for você, mulher, que esteja lendo isto agora, esteja fazendo-o por estar realmente disposta a sequer dar uma chance para novas formas de enxergar a militância pela liberdade feminina batizada, muito antes de eu nascer, de “feminismo”. Não pretendo com este texto impor minha visão ou minha forma de pensar, mas somente expor minhas visões sobre este assunto. 

Sem mais delongas, creio que o mais adequado agora seria começar a discussão com a frase usada no título deste texto:

“A política de identidade de gênero machuca as mulheres.”

Gostaria, então, de explicá-la.

A gritante maioria de nós entra em contato com o movimento feminista por meio do Feminismo Liberal, pelos motivos que já citei anteriormente. É muito mais fácil aceitar um movimento que quer te “empoderar” (entenda as aspas aqui) do que o movimento que logo de cara tenta problematizar o que você sempre aprendeu a encarar como certo, como bom, como saudável, como normal. O nome desse feminismo, contudo, não é por acaso: em muitos pontos ele lembra, está conectado ou dialoga com o liberalismo, e isso é problemático. O que há de mais liberal neste feminismo provavelmente é o individualismo.

O feminismo liberal dificilmente falará de projetos reais de derrubada do patriarcado e dos papéis de gênero; ao menos não enquanto ele simplesmente pode nos oferecer “resinificações” das nossas antigas opressões (p.e. o incentivo que essa corrente feminista dá a resinificações de termos ofensivos, como “vadia”, “puta”, “feminazi”, etc, partindo da ideia equivocada de que “um termo só é ofensivo enquanto nós nos ofendemos com ele”, que é claramente falha quando levamos em conta a carga que histórica e socialmente um termo carrega e como esta não pode ser apagada por resinificações superficiais) e identidades de gênero: tantas quanto podemos pensar, e mais algumas.

A ideia que isso [identidades de gênero] envolve é a de que gêneros, ao invés de serem somente “uma caixinha masculina e uma caixinha feminina”, previamente delimitadas e nas quais indivíduos devem se enquadrar, são na verdade várias caixinhas, de formas diversas, com papéis de gênero diversos e nas quais você não precisa se encaixar e pode chegar ao ponto de simplesmente poder “experimentar” o melhor que cada caixinha há de oferecer antes de decidir qual a que gosta mais (ou, melhor ainda: não decidir por nenhuma e criar uma nova, só sua). Ideia bonita, não acham? Bonita, porém utópica.

Utópica porque gêneros, na vida real, não são belas e infinitas caixinhas. Na vida real, que é aonde análises têm (ou ao menos deveriam ter) de ser feitas, gêneros são, sim, apenas duas caixinhas previamente delimitadas: a masculina e a feminina. É assim que acontece, na vida real, e afirmar isso não é concordar com isso: é simplesmente dizer não ser tão ingênua a ponto de ignorar a realidade porque ela não me satisfaz. De qualquer forma, na vida real, gêneros são caixinhas nas quais você é encaixado desde que seus pais têm ciência do que, no patriarcado, é o que é considerado crucial na hora de delimitar quem você será, do que irá gostar e, o mais importante, qual será o nível de liberdade, de poder e de voz que você terá, tanto social, quanto política e economicamente: o seu sexo.

Para tornar o post mais ilustrado e ajudar na compreensão, trouxe imagens [obviamente meramente ilustrativas] das nossas “caixinhas”, dos gêneros nos quais fomos encaixados de acordo com nossos genitais:

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Estas duas caixas são distintas, e ser criado dentro de cada uma delas trará a um indivíduo consequências e experiências diferentes ao longo da vida, simplesmente porque, levando em conta a “caixinha” na qual você foi encaixado (o que não quer dizer que você se encaixe lá), você desde pequeno será criado, ensinado e tratado de forma distinta de indivíduos da “caixinha diferente”.

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Mas o conceito de “gênero” não para simplesmente por ai. Não é somente a delimitação de um indivíduo em uma das “caixinhas” que vai decidir a forma como ele crescerá e se comportará, mas sim a forma como ele será criado para se encaixar na “caixinha” da qual faz parte; e é graças a essa característica fundamental à existência do gênero, a socialização, que podemos entender o que o gênero realmente é: parte inerente da opressão patriarcal da classe masculina sobre a classe feminina.

Meninos e meninas são criados de forma diferente. Desde novos, meninos são criados com uma considerável liberdade para explorarem o mundo do qual fazem parte, para sonhar e para se auto-descobrirem. Enquanto isso, meninas são desde cedo ensinadas a se cobrir, a se calar, a se colocar “em seus devidos lugares”. Elas aprendem a deixar de fazerem o que gostam porque “não é coisa de menina”, a não expor o que pensam porque “vão parecer irritantes”. Elas também aprendem desde muito cedo, embora muitas vezes inconscientemente, sobre o privilégio masculino: meninos podem correr, podem brincar, podem ter o que quiserem, podem se tocar e podem tocá-las a seu bel-prazer — afinal, “boys will be boys”: não são eles que terão de aprender a te respeitar, mas sim você que terá de “se dar ao respeito” e aprender a lidar com isso.

A medida em que estas crianças crescem e chegam à puberdade, a diferença na forma com que são tratadas só aumenta: embora ambos os indivíduos sejam pressionados pela heteronormatividade, a liberdade masculina sobre seu próprio corpo (e, vale lembrar, a implícita liberdade a eles dada sobre os nossos corpos) que é dada ao indivíduo do sexo masculino, bem como o conhecimento de sua anatomia, de seus desejos e a chance bem maior de poder exercer e experimentar com sua sexualidade é negada às jovens mulheres; essas, que desde cedo assimilam a ideia de que tudo que é socialmente associado com elas, com meninas, é “ruim”, “errado”, “fraco”, “bobo”, agora se veem cada vez mais pressionadas por padrões que irão acompanhá-las para o resto de suas vidas, e que, por mais que elas tente ignorá-los e fingir que eles não existem, estarão lá e serão motivo de muitos problemas que elas possam vir a ter com relação à auto-estima: os padrões de beleza.

Meninas cada vez mais novas já se vêem pressionadas a começar a usar maquiagem para “esconder suas imperfeições”, fazer dietas malucas ou se privar de comer o que gosta (e, em casos extremos e que devem ser tratados, pois são distúrbios alimentares, se vêem pressionadas a se privar de comer, em geral). Essas meninas aprendem que “a beleza custa caro”, mas ao mesmo tempo, não enxergam outra alternativa senão se submeter a procedimentos doloridos, incômodos, por vezes caros e que lhes proporcionarão resultados que elas gostaram, muitas vezes, muito mais porque foram ensinadas a gostar deles do que puramente por seus gostos pessoais. E esses ciclos, de sofrimento, de silenciamento e de submissão, são aprendidos, assimilados e farão parte da vida destas mulheres, quer queiram elas, quer não.

Embora tanto a socialização masculina quanto a feminina sejam “forçadas” a esses indivíduos e mesmo que nenhum deles tenha voz para “escolher” coisa alguma, é inegável a forma como os gêneros foram criados e funcionam para a manutenção do sistema de privilégios masculinos e da opressão feminina, já que mulheres são socializadas em um sistema que as diminui, as silencia, as explora, limita seus espaços, as priva de conhecimento, de auto-conhecimento, de direitos e, em geral, de liberdade.

Como eu já disse antes, o conceito de “ser mulher” sempre esteve associado com a minha dor. Minha “identidade” feminina não provem de um “cérebro feminino” pois, assim como qualquer outra mulher, eu não me encaixo e duvido que um dia serei capaz de me encaixar completamente na “caixinha” na qual fui jogada, na “caixinha feminina”. Minha “identidade” feminina, minha mulheridade, está intimamente ligada à minha identificação com as limitações, com os percalços e com a dor que a socialização feminina me infligiu e infligiu à outras mulheres.

Quando vejo alguém que não jamais teve as experiências que somente a socialização feminina nos proporciona dizer que “se identifica como mulher”, a primeira coisa que me vem a cabeça é: “se esta pessoa se identifica como mulher, o que é ser mulher, para ela?”. Porque, para mim e para qualquer outra pessoa socializada como mulher, “ser mulher” é tão mais que se encaixar nos papéis de gênero feminino, do que “usar saia e batom”, do que “gostar de homens”, do que qualquer “isso” ou qualquer “aquilo” que se encontra em alguma lista de algum site falando sobre coisas que toda mulher faz, gosta, quer ou se interessa.

É muito fácil bradar que “a socialização não importa!” quando se é socializado tendo o mundo nas mãos. Mulheres são parte considerável (you don’t say????) da população mundial, e ainda assim, só detêm 1% das propriedades mundiais e fazem apenas 10% da renda mundial. Uma em cada três mulheres será agredida ou estuprada durante sua vida, e a cada dois minutos uma de nós morre em decorrência de gravidez ou durante o parto. 875 milhões de mulheres não sabem como ler ou escrever, e todo o dia 39,000 meninas são obrigadas a se tornarem noivas.

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É simplesmente fácil demais ignorar a influência da socialização nas nossas vidas quando existem meninas sendo abandonadas ou mortas na China porque seus pais queriam um filho homem, ou ignorando que vivemos num mundo onde estima-se que cerca de 86 milhões de meninas estão sujeitas a sofrer mutilação genital até 2030. A ONU inclusive já declarou, baseando-se em seus bandos de dados sobre a violência contra a mulher, que nascer mulher define nossa existência social.

Não ouse olhar na minha cara, na cara de mulher alguma, e bradar que “socialização não importa” quando vivemos num mundo onde ser identificada mulher no nascimento é estar sujeita a violências, onde ser socializada como mulher é não somente estar sujeita a violência como ser emocional e psicologicamente violentada por uma socialização que lhe destrói sua auto-estima e seu amor próprio, desestimula sua criatividade, lhe faz se sujeitar a situações degradantes e destrutivas em nome da beleza, da aceitação social e dos padrões impostos pela feminilidade, que lhe ensina a não se expressar, se anular pelo bem coletivo, se diminuir pelo bem do ego masculino… Uma socialização que lhe ensina a naturalizar a violência que sofre, a se culpabilizar, a “aguentar calada”. Uma socialização que lhe ensina a por todos e seus desejos na frente de você e do que você quer.

A política de identidade de gênero machuca as mulheres por as colocar na posição de opressoras num sistema onde elas não têm voz sequer para se DEFENDER. A política de identidade de gênero as machuca por as tratar como “opressoras” por se “identificarem” como mulheres, sendo que essa “identificação” muitas vezes é o único sentido existente para as agressões e a misoginia que sofremos e, portanto, nos “desfazer” dela seria nos desfazer, também, do entendimento das opressões misóginas que sofremos, do privilégio masculino que outros indivíduos têm e da irmandade feminina, essencial para muitas de nós conseguirmos realmente ter forças para continuar lutando pela liberdade da classe feminina. A política de identidade de gênero machuca pois tenta obrigar as mulheres “opressoras” a colocar outras pautas a frente das suas, uma característica patriarcal que foi adaptada pela esquerda e também por quem defende as pautas de identidade de gênero. A política de identidade de gênero machuca pois continua silenciando pessoas socializadas como mulheres, independentemente destas “se identificarem” como mulheres.

A política de identidade de gênero machuca as mulheres porque qualquer política que pretenda “apaziguar” a situação, que venha propor às mulheres que elas resinifiquem as violências institucionalizadas e sistemáticas que elas sofrem ao invés de propor que elas se unam para lutar pela liberdade total feminina e a abolição do sistema que as oprima não está realmente preocupada com as mulheres.

 

Mulher, a esquerda não liga para você!

Meu primeiro contato com militâncias de qualquer tipo não foi com o feminismo, mas com o socialismo. Era a oitava série, os professores de história e geografia, mesmo numa escola religiosa e conservadora como era a escola que eu então frequentava, mal podiam se conter enquanto bradavam sobre a grande Revolução Russa ou a  Revolução Cubana. Assim como eu, creio que muitos daqueles jovens finalmente conseguiram “conectar” os pontos; todos já tinham ouvido falar de socialismo ou comunismo, mas nós não sabíamos exatamente o que eram, a diferença entre eles e, principalmente, que um dia já existiram tentativas de realmente colocar aquilo tudo em prática. Entrar em contato com o Socialismo/Comunismo ou com o Anarquismo pela primeira vez sempre acende aquela centelha de esperança dentro de nós; pela primeira vez, podemos enxergar uma saída. Contudo, essa animação, para a maioria das pessoas, passa depois de algumas aulas, quando a gente percebe que a coisa não era perfeita e que por vezes se mostrou falha. Para a maioria das pessoas, pelo menos. Eu provavelmente sou uma exceção.

Eu conheci um cara. Tecnicamente, eu já o conhecia, mas o interesse pelo socialismo e a militância de esquerda nos aproximou. Juntos, começamos a nos envolver com o socialismo e com o feminismo. Sim, juntos. Eu era, na época, a maior contradição do mundo: uma mulher socialista e uma feminista liberal. Militávamos juntos e dali para engatarmos um namoro foi rápido. Aquele foi, a nível de curiosidade, meu último namoro heterossexual. 

Eu frequentei os ambientes que ele frequentava. Eu conheci os amigos dele, que tinham ideia como as dele. Eu falei com eles, e por um tempo, acreditei que eles me ouviam, que naquela militância nós tínhamos a mesma voz. “Mulher bonita é a que luta”, eles me diziam, e por hora, a oportunidade de lutar com e por eles e quem sabe assim ser, também, uma bela mulher, me acalentava. Eu continuei frequentando os espaços deles e continuei me iludindo que tinha a mesma voz nesses espaços que eles; dizia pra mim que o fato de existirem mais homens que mulheres ali era “coincidência”, e que o fato das lideranças e qualquer outro posto que envolvesse representação do coletivo para o público ou decisões importantes era ocupado por homens. Enquanto isso, negligenciei minha militância feminista: não lia e nem sequer me aprofundava em discussão alguma. Na minha cabeça, o feminismo era importante, mas só o socialismo, a militância de esquerda me libertaria.

Lenta e dolorosamente, porém, eu aprendi que isso não era e nunca seria verdade. No meio de coletivos socialistas mistos, no meio da vanguarda esquerdista, eu era abusada todo dia. Eu fui agredida por companheiros de luta, tanto física quanto emocionalmente. Me silenciaram sempre que podiam. Minhas causas e demandas eram abafadas pelo bem da luta de classe; aprendi que a mulher burguesa era minha inimiga, e a mulher que cegamente apoiava o sistema capitalista e o liberalismo, sem saber que esses a exploravam, também. E o cara, o garoto que eu amava e que eu achava que me amava também, por meses me manipulou: minha militância, meus gostos, meu ser só poderiam ser como ele quisesse que fossem. Durante nosso relacionamento, eu existi sobre os termos dele. 

Meses depois, ele se foi. Tendo sido isolada das minhas amizades, fazendo parte de um coletivo que só me fazia mal e tendo me anulado, tanto ideológica quanto particularmente, por causa dele, aquela foi uma das situações em minhas menos de duas décadas de vida que me vi deixada a deriva, apenas com destroços do que eu costumava ser e com a missão de me reconstruir. Eu chorei por um mês; não somente por ele, mas porque, por algum motivo, sentia como se tudo que eu aprendi naqueles meses de militância tivesse caído por terra. Só então eu me permiti analisar minha anterior situação e a forma como a qual eu fora tratada por meus “camaradas”, meus companheirOs de luta.

É ingênuo da nossa parte acreditar que qualquer movimento pensado e militado por homens poderá nos libertar. É ingênuo, mas é o que somos coagidas a pensar assim que temos nosso primeiro contato com a esquerda política, então não julgo qualquer mulher que ainda pensa desta forma. Eu digo isso porque, e eu sei que isso é uma verdade dolorida de se admitir, a vanguarda esquerdista não prioriza e jamais irá priorizar a libertação das mulheres.

Embora eles digam se importar com as mulheres e “apoiar” o feminismo, os líderes dos movimentos de esquerda, geralmente homens, irão te silenciar. Eles te insultarão, irão silenciar suas pautas e abafar suas denúncias. Então, eles irão teorizar sua vivência por você, irão debater entre eles seus problemas e decidirão, sozinhos, como você deve resolvê-los. Você, mulher, não tem voz real em meio a vanguarda esquerdista. Eles dizem o quanto você é importante para a luta deles (o que é verdade) porque sabem que, para muitas de nós, qualquer oferta de libertação, por mais remota que esta seja, é como um oasis no meio do deserto das opressões patriarcais. Mas, ao mesmo tempo em que eles dizem reconhecer sua importância, eles não te darão espaço ou voz suficientes para falar sobre quem você é, sobre as situações que passa, as violências às quais é exposta e como você acredita que deveria se dar a sua libertação e a libertação de outras mulheres.

Pare para analisar as pautas do “feminismo” defendido por homens parte da extrema-esquerda. Note o quanto há a glorificação da prostituição como “escolha pessoal” (e não opressão sistemática e institucionalizada), do amor-livre como “libertação” (amor-livre este, aliás, defendido até entre menores de idade) e do esquema “à moda de tumblr” de “criar seu próprio gênero”, onde nenhuma dessas pautas visa a real e completa libertação das mulheres, ou sequer tem algum projeto concreto de oferecer ajuda ou “reconhecimento” à grande maioria das mulheres. Pautas apontadas por mulheres e para a libertação das mulheres, como a abolição do pornô, da prostituição e dos gêneros são, constantemente, deixadas de lado ou totalmente silenciadas pelo feminismo defendido pela Esquerda. Por muito tempo me perguntei o porquê, mas hoje me parece muito óbvio: num movimento fundamentalmente masculino, com teóricos e lideranças tradicionalmente masculinas, onde mulheres não têm voz e onde homens decidem o melhor, para eles e para nós, é óbvio que nossa libertação não é interessante.

A esquerda quer prostitutas. A esquerda quer empregadas. Os partidos de vanguarda esquerdistas, os homens anarquistas… eles NÃO LIGAM para você. Eles não ligam para nós. Porque para eles, no fim, nossa libertação não é assim tão interessante. Quem vai cuidar da casa enquanto o homem estiver fazendo política? Quem vai criar os socialistas de amanhã? Quem vai se submeter, quem estará disposta a aceitar lutar por qualquer demanda que lhe for vendida como “um bem para o povo”? Quem é a classe social que historicamente foi ensinada e que tem tradição de se anular pelo “bem maior” ou o “bem coletivo”? Que classe sempre foi dividida pelos critérios da classe dominante e que até hoje aceita essa divisão e até LUTA em nome desta? Qual a classe que, muito antes do sistema racial ou o sistema de classes estarem em vigor ou serem pensados, já era obrigada a se curvar para seus opressores?

A Esquerda sabe que precisa da mulher em suas fileiras. A esquerda sabe que, sem nós, não há revolução. A Esquerda sabe quem são “os primeiro oprimidos”, ela sabe quem, independentemente de condição social, sempre foi anulado, silenciado, deixado de lado e obrigado a lutar e morrer por outras pessoas e ensinado a jamais viver por si mesmos. Mas ao mesmo tempo que a Esquerda tem consciência de tudo isso, ela que ainda é inerentemente pensada e liderada pela classe masculina, e a classe masculina, seja ela rica ou pobre, não quer perder seus privilégios. Independentemente da raca, etnia, classe social e econômica de um homem, você pode apostar que ele não está disposto a “largar o osso” dos privilégios, e você pode apostar que ele não luta por você e pela sua libertação.

Mas se há outra coisa na qual eu penso desde que me senti “apunhalada pelas costas” pela primeira luta da qual fiz parte, é: se a Esquerda não se importa com as mulheres, e a Direita não se importa com as mulheres… quem se importa? Se estamos acorrentadas, que luta busca quebrar essas correntes e realmente nos libertar?

A conclusão que eu cheguei é dolorida, mas também é a única que me parece plausível: ninguém. Ninguém, além das mulheres, verdadeiramente se importa com as mulheres. Nenhum movimento pensado por homens, liderado por homens, militado por homens realmente busca nos libertar. Eu sei que incomoda ouvir isso, ainda mais quando se é socializada aprendendo a “partilhar”, a encontrar um “denominador comum”, uma “luta em comum”, uma forma de nos libertarmos com “o apoio masculino”, mas nenhum movimento apoiado pela classe masculina PODE nos libertar, simplesmente porque a classe masculina NÃO ESTÁ INTERESSADA EM NOS LIBERTAR. E embora possa parecer linda a ideia de ter um homem do seu lado, apoiando sua luta e até lutando com você pelas suas pautas, eu me arrisco a dizer que é uma ideia utópica. Porque, embora aquele rapaz maravilhoso que eu conheci alguns anos atrás e eu tenhamos continuado amigos e ele se dissesse “pró-feminismo”, no primeiro momento em que eu demonstrei qualquer inclinação por uma militância separatista ele não hesitou em me chamar de “feminazi”, “femista” ou qualquer outro termo criado para invalidar a militância da mulher que ousa lutar somente por mulheres e somente com mulheres. Embora seja bonito imaginar um membro do grupo opressor ‘desconstruíndo os privilégios’ e lutando com você, existem provas demais de que, no momento em que você ousar delimitar um espaço, um momento ou uma luta SOMENTE para e por você e por outras mulheres, estes mesmos indivíduos irão te atacar.

Feminismo é uma luta feminina. É uma luta que ousa se concentrar nas vivências, nas opressões, nos problemas, na exclusão feminina. É uma luta que ousa tentar nos libertar, tentar libertar mulheres. Por isto, hoje, eu não me declaro mais socialista, comunista, anarquista ou nada disto. Embora eu concorde com as ideias do socialismo e com muitas das ideias do anarquismo, hoje eu tenho a consciência da ÚNICA luta que realmente se importa comigo e luta pela minha libertação, como indivíduo, e das mulheres como classe. 

Mulher, a Esquerda não se importa com você! Não gaste sua energia, seu suor, seu sangue e sua segurança em uma luta que não se importa com você. Apoie as causas nas quais acredita, sim, mas tenha consciência de que, enquanto a Esquerda estiver basicamente na mão da classe masculina (como ela historicamente esteve e ainda está), ela jamais vai lutar pela sua libertação. Fuja dos coletivos “mistos”, fuja da luta onde a libertação das mulheres como classe não é prioridade. Forme seus próprios coletivos socialistas, anarquistas. Forme coletivos femininos e construa sua luta e sua militância baseada nestes coletivos, com o apoio e a parceria de outras mulheres. Se junte com elas, aprenda com elas e com elas construa e articule a luta que realmente se preocupa com as pautas e busca a libertação da classe feminina.

Não se deixe enganar pelos homens que dizem lutar por você. Levante-se e lute por si mesma, como você sempre inconscientemente fez; afinal, toda mulher, inconscientemente, luta todos os dias para continuar viva. Permita-se aliar com outras mulheres e tornar essa luta inconsciente uma luta consciente, consistente e focal. Permita-se lutar por VOCÊ, e não permita que tentem tornar sua luta secundária ou desimportante!

Porque consentimento não é o suficiente

A problematização do “empoderamento cego e fantasioso”

Hoje mais cedo, lendo uma discussão feminista, vi um questionamento ser levantado por uma mulher, uma irmã de luta: “Se a problematização faz mulheres se sentirem mal por gostarem de coisas problemáticas, porque não deixamos de problematizar e começamos a empoderar, que é algo que faz com que mulheres se sintam bem e fortes?”

Pensei sobre isso sobre muito tempo. Não me limitei a pensar sobre isso, mas refleti sobre todos os rumos que foram tomados pela minha militância nos últimos anos, todos os posicionamentos que já tive e que hoje não tenho mais. Um desses posicionamentos, recordo-me, era o posicionamento do incondicional apoio ao “empoderamento”. Não que haja algo ruim em fazer com que mulheres acreditem que elas são capazes, das a elas “poder”, empoderá-las. Nociva, e foi o que eu percebi depois, é a ideia que setores liberais do feminismo vendem de um “empoderamento cego e fantasioso”, simplesmente para encorajar meninas e mulheres a terem uma conduta de não-problematização de suas condutas e gostos, e da forma como estes foram e são influenciados pela forma com a qual mulheres, como classe, são tratadas ou pelo que elas desde cedo aprendem que é certo ou errado para elas.

O que esse é esse “empoderamento cegofantasioso”, contudo? Essa pergunta não é difícil de se responder. O empoderamento cego e fantasioso tem a ver com a ideia de gostos, fetiches, comportamentos “intocáveis” e que jamais devem ser problematizados. Este empoderamento tem tudo a ver com a fantasiosa ideia de que “escolhas pessoais” não tem nenhuma ligação com estruturas sociais ou socialização, nem é influenciada por elas. Este empoderamento é cego porque fecha os olhos para opressão sistemática, para como o sistema de privilégio/opressão funciona para oprimir mulheres como uma classe.

Entendendo o que é tal “empoderamento”, não é difícil entender o porquê dele ser tão aclamado, exaltado e exigido pelos setores liberais do feminismo. O Feminismo Liberal sempre teve uma conduta de “não problematização” dos moldes patriarcais ou dos objetos de subjugação, silenciamento e opressão usados pelo patriarcado contra nós, mulheres. O Feminismo Liberal sempre valorizou muito mais gostos pessoais, nos vendendo a fantasiosa ideia de que ‘um termo deixa de ser ofensivo no momento em que decidirmos que assim será”, “espaços são femininos e, pior, feministas só porque os nominamos assim” e “coisas que sempre foram usadas pelo patriarcado para nos limitar e nos oprimir serão resinificadas e se tornarão ’empoderadoras’ num estalar de dedos”. Basicamente, a ideia que este feminismo tenta nos passar é que “a opressão só existe porque permitirmos que ela exista! no momento em que decidirmos que aquilo não é opressivo e que não estamos sendo oprimidas, assim será!”.

Parece ideia de filme de conto de fadas – ou pior, parece discursos advindos de pessoas que dizem coisas como “o racismo só existe porque ainda acreditamos que há diferenças entre negros e brancos” ou “o racismo só existe porque ainda continuamos falando sobre ele”. Qualquer um numa militância de esquerda e feminista deveria no mínimo ter a noção que não é ignorando a opressão que acabamos com ela; mas, mesmo assim, muitas de nós ainda não temos tal noção. Não é ignorando que, por exemplo, a maquiagem é usada como forma de opressão patriarcal, que vamos fazer com que ela deixe de ser opressiva. Mas o Feminismo Liberal não tem nem nunca vai ter essa visão; pouco importa a quantidade de dados concretos e relatos existentes sobre como a indústria pornográfica e de prostituição são opressivas para com as mulheres, ou a quantidade de textos acadêmicos e dados estatísticos que provem o quão opressivos métodos como depilação, maquiagem, dietas “malucas” e tantas outras coisas que desde cedo somos ensinadas a fazer para nos encaixar em arbitrários padrões de beleza (coisas essas que podem e que mudam dependendo da cultura onde somos criadas, vale ressaltar) – não, pouco ou nada disso importa para o Feminismo Liberal, simplesmente porque, por não acreditar na opressão sistemática, tal vertente feminista acha que essas opressões não existem ou são somente propagadas de formas individuais e que podem ser resolvidas simplesmente com o “empoderamento”, com o “maquiagem é opressiva porque eu sou obrigada, mas se eu começar a gostar de maquiagem ela não vai mais me oprimir”. E isso abre outra discussão:

“E se uma mulher gostar de maquiagem? E se ela gostar de BDMS, e se ela gostar de pornô? Ela perderia a carteirinha de feminista?”

Ao invés de bater carteirinhas e decidir quem é mais ou menos feminista, eu gostaria de convidar todas vocês para uma breve reflexão: antes de considerar nosso gosto por ter “uma pele lisinha e sem pelos”, “batom vermelho”, “salto alto”, “pornô indie” ou qualquer outra coisa problemática e que é problematizada pelo feminismo (ou que ao menos deveriam ser) simplesmente como “gostos pessoais e inquestionáveis”, gostaria de lhes perguntar: como definir até aonde o que gostamos é simplesmente um gosto pessoal e a partir de quando ele começa a ser influenciado por socialização, pela mídia, pela igreja, pela sociedade patriarcal em geral? Como podemos traçar essa linha? Como podemos garantir a nós mesmas (estou pedindo para que cada uma faça sua própria análise, que pense com carinho sobre isso, por favor) que nossos gostos não são influenciados pelo que fomos socialmente ensinadas a gostar? Como podemos saber se realmente gostamos de fazer algo ou gostamos de algo porque em algum momento de nossas vidas aquilo nos foi imposto como bom, bonito ou certo, seja de forma consciente ou inconsciente?

“Então, o que eu devo fazer? Simplesmente deixar de fazer o que eu gosto por ser problemático?!”

Não estou aqui para dizer se você deve ou não deixar de fazer algo, até porque acredito que qualquer um procurando ou tendo contato com um texto deste tipo não está mais em idade de receber ordens nem da mãe, quanto mais de uma pirralha na internet. O que eu lhes convido a fazer, contudo, é uma reflexão nos motivos que lhes fazem gostar do que vocês gostam. O que eu lhes convido a fazer é começar a problematizar suas ações, seus gostos, sua forma de pensar e de encarar o mundo, bem como o mundo e a sociedade em que vocês vivem. A problematização, ao contrário do empoderamento, não se cala para as opressões e imposições que nossa vida social envolve. Pelo contrário, a problematização nos convida a começar a notar essas opressões e imposições, nos mostra como elas acontecem e que elementos são usados para impor algo às mulheres ou, em geral, oprimi-las.

Provavelmente por isso a problematização é temida e condenada pelo Feminismo Liberal: se ela não se cala diante de tais agentes patriarcais e suas armas de opressão, logo, ela não os torna “impossíveis de serem criticados”, como o “empoderamento” faz.

Para terminar, gostaria de lembrar-las: antes de um ser humano ser um ser pessoal e individual, ele é um ser social e um ser político. Não podemos nos dar ao luxo de concentrar nossas análises na esfera individual, já que esta é instável e variável demais para que se possa analisar. Temos de analisar, então, como as ações feitas e escolhas tomadas na esfera individual estão ligadas ou são influenciadas pela esfera social e política.

Não podemos nos limitar a acreditar que a opressão some num estalar de dedos ou “quando decidirmos que assim será”, já que qualquer um que ouse prestar atenção nas esferas social e política sabe que a opressão é sistemática e existe, e só a problematização e a organização para a luta pela abolição da opressão e dos sistemas usados para oprimir ou silenciar podem, de fato, nos libertar.

Eu nunca sofri BIFOBIA – a opinião de uma mulher bissexual.

Esse texto foi enviado por uma amiga minha, uma jovem bissexual. Ela pediu que fosse deixado bem claro que ela não tem como objetivo se fazer de token, mas somente expressar sua opinião, como bissexual, sobre os termos “bifobia” e “privilégio monossexual”. Obviamente ninguém tem a obrigação de concordar com ela ou com o que ela diz, mas acho importante expor opiniões que nem sempre têm espaço na maioria das discussões. O nome dela foi propositalmente deixado de fora para preservá-la. Um parênteses interessante de se abrir é que, para nós mulheres, não parece existir privilégios dentro de um relacionamento heterossexual. De qualquer forma, o texto é o seguinte:

“Eu me identifico como bissexual desde os 14 anos. Já me considerei por muito tempo pansexual, mas hoje em dia não uso mais essa nomenclatura. Sempre fiz da minha militância feminista uma militância pela igualdade não somente de gêneros, como pela inclusão igualitária e pelo direito de pessoas com diferentes sexualidades, diferentes “formas” de amar, seja econômica, politica ou socialmente. Ultimamente, porém, com o advento de várias discussões sobre bissexualidade, um termo novo surgiu: bifobia. Queria falar sobre o porquê de eu não concordar com ele.

Primeiramente, quero falar sobre o porquê de eu acreditar jamais ter sofrido bifobia. As pessoas que sempre me oprimiram baseando-se em minha sexualidade foram pessoas heterossexuais. Meus pais desde cedo demonstraram certa repulsa por “esta parte de mim”, meus professores chamaram isso de “fase”, alguns amigos meus acharam isso “nojento”. Todas as pessoas que sempre demonstraram esse tipo de comportamento excludente e as vezes até agressivo foram pessoas heterossexuais, justamente porque heterossexuais são a classe com privilégios suficientes para oprimir pessoas com diferentes sexualidades. Não deveria ser um conceito tão difícil de se entender, mas muita gente parece achar que é.

Algumas pessoas prontamente se levantariam e diriam, “você estava sofrendo/sofre bifobia!”, mas não, não é o caso. Essas pessoas nunca demonstraram ódio, repulsa nem tentaram me excluir por eu ser “bissexual”; essas pessoas sempre me trataram diferente por eu gostar de pessoas do mesmo sexo. Essas pessoas não tem nenhum tipo de sentimento ruim pela “parte de mim” que gosta do sexo oposto; elas têm raiva, nojo, repulsa da minha “parte homossexual”, elas tem nojo por acharem que eu sou “metade lésbica” ou algo assim. Essas pessoas não são “bifóbicas”, essas pessoas são homofóbicas. Elas não vão, jamais, excluir uma pessoas bissexual que está num relacionamento heterossexual da mesma forma que uma pessoa bissexual em um relacionamento homossexual, e isso se deve muito ao fato de que muitas dessas pessoas sequer reconhecem a bissexualidade. Muitas dessas pessoas reconhecem bissexuais como “gente de fase”, gente “indecisa” ou algo assim. E eu entendo que muitos bissexuais digam que é nisso que mora a bifobia, no “não reconhecimento da bissexualidade”, mas não reconhecimento não é a mesma coisa que violência. A VIOLÊNCIA que uma pessoa bissexual sofre não advêm da bifobia, mas da homofobia. Isso se fica claro se compararmos a forma como socialmente são tratadas pessoas bissexuais em relacionamentos heterossexuais e pessoas bissexuais em relacionamentos homossexuais. As pessoas que mantêm relacionamentos heterossexuais, sejam elas hétero ou bi/pansexuais, estão em posição privilegiada de certa forma, pois não estão sujeitas a diversas formas de violências homofóbicas, sejam elas físicas, emocionais ou psicológicas. Ninguém vai lhe agredir por andar de mãos dadas, lhe negar o casamento ou oportunidades de emprego ou moradia se você tiver um parceiro do sexo oposto, seja você hétero ou bi/pansexual.

Outro argumento que é usado para afirmar a necessidade do termo bifobia são os estereótipos. Estereótipos usados para falar de pessoas bissexuais normalmente são: promiscuidade, poligamia, viver trocando de parceiros, ou ser “confuso” ou “ganancioso” ou “pervertido”. Esses estereótipos podem ou não assumir conotações violentas, mas são normalmente associados com a exclusão de pessoas bissexuais. Porém, muitos desses estereótipos, como é o caso da promiscuidade, poligamia, viver trocando de parceiros e a “perversão”, foram e ainda são associados TAMBÉM aos homossexuais, sejam eles do sexo masculino ou feminino. Outros estereótipos, como o de ser uma fase, da pessoa estar somente “confusa” ou “curiosa”, são usados por pessoas homofóbicas para silenciar pessoas homossexuais ou bi/pansexuais, especialmente pessoas mais jovens. O que eu quero dizer com isso é que, embora bissexuais possam sofrer e sofram opressão, ela está conectada com a homofobia.

Atualmente, aliás, algumas pessoas falam de “privilégio monosexual”, e termo mais absurdo para mim não poderia ser criado. Tal termo coloca hétero e homossexuais “no mesmo saco”, ambos como privilegiados e opressores de pessoas que gostam de pessoas bi/pansexuais, bem como outros termos novos que denominam outros tipos de sexualidades ou formas de amar, alguns com mais sentido do que outros. A questão é que, embora bissexuais sejam “excluídos”, tanto socialmente quanto de espaços homossexuais, a exclusão feita por heterossexuais é pautada no privilégio e no preconceito, enquanto a exclusão de bissexuais de espaços exclusivos de homens gays/mulheres lésbicas é muitas vezes pautado na necessidade da manutenção da segurança desses já escassos espaços. Hora, gays e lésbicas são excluídos social, econômica e politicamente, são alvo fácil de violência emocional, psicológica e física. Homossexuais com muita dificuldade criam espaços exclusivos, que em sua maioria são virtuais, para se sentirem seguros para falar sobre suas vivências, sobre a violência que sofrem e para mobilizar sua militância. É muito complicado incluir nesses espaços pessoas que nem sempre dividem vivências parecidas com a desses grupos, já que nem todos os bissexuais já tiveram relacionamentos com pessoas do mesmo sexo e nem precisariam ter. Essas pessoas tem o direito de se sentirem acoadas de dividirem espaços exclusivos, que já são raros, com pessoas que muitas vezes majoritariamente ou somente tem experiências com sexo ou relacionamentos com sexo oposto, e que não necessariamente militam ou tem as mesmas pautas de pessoas homossexuais. A exclusão pode ser dolorosa, especialmente quando se trata de bissexuais que majoritariamente ou somente tem ou tiveram relacionamentos com pessoas do mesmo sexo, como é meu caso, mas eu nunca tive dificuldades de entender os motivos de quem faz essa “separação”.

Quando eu me disse bissexual, minha mãe implorou para que eu não me denominasse. Ela não implorou para eu “voltar a ser hétero”, porque na cabeça dela, eu nunca havia deixado de ser hétero. Eu estava passando apenas por uma fase e em pouco tempo ela teria sua filhinha perfeitinha de volta. Eu tenho certeza que minha mãe me aceitaria bissexual, pansexual ou o que quer que fosse, contanto que eu mantivesse um relacionamento heterossexual. Tenho certeza que meus professores não me achariam estranha ou meus amigos não teriam nojo disso. Eu não continuaria sofrendo “bifobia”, nem sequer homofobia. No momento em que eu tivesse passabilidade heterossexual, eu estaria segura. Eu não teria que me preocupar em sair de mãos dadas com meu parceiro, ou de não poder casar com ele. Eu não teria de ficar nervosa em conseguir um emprego porque talvez meu chefe fosse homofóbico. No entanto, se eu estivesse num relacionamento homossexual, eu teria que me preocupar com tudo isso sim. Não somente com o que engloba a homofobia, como o que engloba o preconceito direcionado às mulheres “gays”, às lésbicas: eu teria de me preocupar com o apagamento no meio LGBT+, com o estupro coletivo… Com a homofobia combinada com a misoginia, que é o que caracteriza a lesbofobia.

Se tem algo que sempre esteve claro para mim, como bissexual, é que a forma como eu seria tratada pelas pessoas a minha volta e pela sociedade em geral, seria determinada pelo gênero da pessoa com quem eu estivesse me relacionando, o que é assustador.

Eu não sofro bifobia. Eu nunca sofri e não acredito que um dia sofrerei. Como uma mulher bissexual em relacionamento há 2 anos com uma mulher lésbica, o que eu sofro é homofobia. E tenho a plena certeza que, se amanhã terminasse com ela e começasse a me relacionar com um homem, a forma com que sou socialmente tratada HOJE seria completamente diferente da forma como seria tratada amanhã.”

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