Eu nunca sofri BIFOBIA – a opinião de uma mulher bissexual.

Esse texto foi enviado por uma amiga minha, uma jovem bissexual. Ela pediu que fosse deixado bem claro que ela não tem como objetivo se fazer de token, mas somente expressar sua opinião, como bissexual, sobre os termos “bifobia” e “privilégio monossexual”. Obviamente ninguém tem a obrigação de concordar com ela ou com o que ela diz, mas acho importante expor opiniões que nem sempre têm espaço na maioria das discussões. O nome dela foi propositalmente deixado de fora para preservá-la. Um parênteses interessante de se abrir é que, para nós mulheres, não parece existir privilégios dentro de um relacionamento heterossexual. De qualquer forma, o texto é o seguinte:

“Eu me identifico como bissexual desde os 14 anos. Já me considerei por muito tempo pansexual, mas hoje em dia não uso mais essa nomenclatura. Sempre fiz da minha militância feminista uma militância pela igualdade não somente de gêneros, como pela inclusão igualitária e pelo direito de pessoas com diferentes sexualidades, diferentes “formas” de amar, seja econômica, politica ou socialmente. Ultimamente, porém, com o advento de várias discussões sobre bissexualidade, um termo novo surgiu: bifobia. Queria falar sobre o porquê de eu não concordar com ele.

Primeiramente, quero falar sobre o porquê de eu acreditar jamais ter sofrido bifobia. As pessoas que sempre me oprimiram baseando-se em minha sexualidade foram pessoas heterossexuais. Meus pais desde cedo demonstraram certa repulsa por “esta parte de mim”, meus professores chamaram isso de “fase”, alguns amigos meus acharam isso “nojento”. Todas as pessoas que sempre demonstraram esse tipo de comportamento excludente e as vezes até agressivo foram pessoas heterossexuais, justamente porque heterossexuais são a classe com privilégios suficientes para oprimir pessoas com diferentes sexualidades. Não deveria ser um conceito tão difícil de se entender, mas muita gente parece achar que é.

Algumas pessoas prontamente se levantariam e diriam, “você estava sofrendo/sofre bifobia!”, mas não, não é o caso. Essas pessoas nunca demonstraram ódio, repulsa nem tentaram me excluir por eu ser “bissexual”; essas pessoas sempre me trataram diferente por eu gostar de pessoas do mesmo sexo. Essas pessoas não tem nenhum tipo de sentimento ruim pela “parte de mim” que gosta do sexo oposto; elas têm raiva, nojo, repulsa da minha “parte homossexual”, elas tem nojo por acharem que eu sou “metade lésbica” ou algo assim. Essas pessoas não são “bifóbicas”, essas pessoas são homofóbicas. Elas não vão, jamais, excluir uma pessoas bissexual que está num relacionamento heterossexual da mesma forma que uma pessoa bissexual em um relacionamento homossexual, e isso se deve muito ao fato de que muitas dessas pessoas sequer reconhecem a bissexualidade. Muitas dessas pessoas reconhecem bissexuais como “gente de fase”, gente “indecisa” ou algo assim. E eu entendo que muitos bissexuais digam que é nisso que mora a bifobia, no “não reconhecimento da bissexualidade”, mas não reconhecimento não é a mesma coisa que violência. A VIOLÊNCIA que uma pessoa bissexual sofre não advêm da bifobia, mas da homofobia. Isso se fica claro se compararmos a forma como socialmente são tratadas pessoas bissexuais em relacionamentos heterossexuais e pessoas bissexuais em relacionamentos homossexuais. As pessoas que mantêm relacionamentos heterossexuais, sejam elas hétero ou bi/pansexuais, estão em posição privilegiada de certa forma, pois não estão sujeitas a diversas formas de violências homofóbicas, sejam elas físicas, emocionais ou psicológicas. Ninguém vai lhe agredir por andar de mãos dadas, lhe negar o casamento ou oportunidades de emprego ou moradia se você tiver um parceiro do sexo oposto, seja você hétero ou bi/pansexual.

Outro argumento que é usado para afirmar a necessidade do termo bifobia são os estereótipos. Estereótipos usados para falar de pessoas bissexuais normalmente são: promiscuidade, poligamia, viver trocando de parceiros, ou ser “confuso” ou “ganancioso” ou “pervertido”. Esses estereótipos podem ou não assumir conotações violentas, mas são normalmente associados com a exclusão de pessoas bissexuais. Porém, muitos desses estereótipos, como é o caso da promiscuidade, poligamia, viver trocando de parceiros e a “perversão”, foram e ainda são associados TAMBÉM aos homossexuais, sejam eles do sexo masculino ou feminino. Outros estereótipos, como o de ser uma fase, da pessoa estar somente “confusa” ou “curiosa”, são usados por pessoas homofóbicas para silenciar pessoas homossexuais ou bi/pansexuais, especialmente pessoas mais jovens. O que eu quero dizer com isso é que, embora bissexuais possam sofrer e sofram opressão, ela está conectada com a homofobia.

Atualmente, aliás, algumas pessoas falam de “privilégio monosexual”, e termo mais absurdo para mim não poderia ser criado. Tal termo coloca hétero e homossexuais “no mesmo saco”, ambos como privilegiados e opressores de pessoas que gostam de pessoas bi/pansexuais, bem como outros termos novos que denominam outros tipos de sexualidades ou formas de amar, alguns com mais sentido do que outros. A questão é que, embora bissexuais sejam “excluídos”, tanto socialmente quanto de espaços homossexuais, a exclusão feita por heterossexuais é pautada no privilégio e no preconceito, enquanto a exclusão de bissexuais de espaços exclusivos de homens gays/mulheres lésbicas é muitas vezes pautado na necessidade da manutenção da segurança desses já escassos espaços. Hora, gays e lésbicas são excluídos social, econômica e politicamente, são alvo fácil de violência emocional, psicológica e física. Homossexuais com muita dificuldade criam espaços exclusivos, que em sua maioria são virtuais, para se sentirem seguros para falar sobre suas vivências, sobre a violência que sofrem e para mobilizar sua militância. É muito complicado incluir nesses espaços pessoas que nem sempre dividem vivências parecidas com a desses grupos, já que nem todos os bissexuais já tiveram relacionamentos com pessoas do mesmo sexo e nem precisariam ter. Essas pessoas tem o direito de se sentirem acoadas de dividirem espaços exclusivos, que já são raros, com pessoas que muitas vezes majoritariamente ou somente tem experiências com sexo ou relacionamentos com sexo oposto, e que não necessariamente militam ou tem as mesmas pautas de pessoas homossexuais. A exclusão pode ser dolorosa, especialmente quando se trata de bissexuais que majoritariamente ou somente tem ou tiveram relacionamentos com pessoas do mesmo sexo, como é meu caso, mas eu nunca tive dificuldades de entender os motivos de quem faz essa “separação”.

Quando eu me disse bissexual, minha mãe implorou para que eu não me denominasse. Ela não implorou para eu “voltar a ser hétero”, porque na cabeça dela, eu nunca havia deixado de ser hétero. Eu estava passando apenas por uma fase e em pouco tempo ela teria sua filhinha perfeitinha de volta. Eu tenho certeza que minha mãe me aceitaria bissexual, pansexual ou o que quer que fosse, contanto que eu mantivesse um relacionamento heterossexual. Tenho certeza que meus professores não me achariam estranha ou meus amigos não teriam nojo disso. Eu não continuaria sofrendo “bifobia”, nem sequer homofobia. No momento em que eu tivesse passabilidade heterossexual, eu estaria segura. Eu não teria que me preocupar em sair de mãos dadas com meu parceiro, ou de não poder casar com ele. Eu não teria de ficar nervosa em conseguir um emprego porque talvez meu chefe fosse homofóbico. No entanto, se eu estivesse num relacionamento homossexual, eu teria que me preocupar com tudo isso sim. Não somente com o que engloba a homofobia, como o que engloba o preconceito direcionado às mulheres “gays”, às lésbicas: eu teria de me preocupar com o apagamento no meio LGBT+, com o estupro coletivo… Com a homofobia combinada com a misoginia, que é o que caracteriza a lesbofobia.

Se tem algo que sempre esteve claro para mim, como bissexual, é que a forma como eu seria tratada pelas pessoas a minha volta e pela sociedade em geral, seria determinada pelo gênero da pessoa com quem eu estivesse me relacionando, o que é assustador.

Eu não sofro bifobia. Eu nunca sofri e não acredito que um dia sofrerei. Como uma mulher bissexual em relacionamento há 2 anos com uma mulher lésbica, o que eu sofro é homofobia. E tenho a plena certeza que, se amanhã terminasse com ela e começasse a me relacionar com um homem, a forma com que sou socialmente tratada HOJE seria completamente diferente da forma como seria tratada amanhã.”

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