A problematização do “empoderamento cego e fantasioso”

Hoje mais cedo, lendo uma discussão feminista, vi um questionamento ser levantado por uma mulher, uma irmã de luta: “Se a problematização faz mulheres se sentirem mal por gostarem de coisas problemáticas, porque não deixamos de problematizar e começamos a empoderar, que é algo que faz com que mulheres se sintam bem e fortes?”

Pensei sobre isso sobre muito tempo. Não me limitei a pensar sobre isso, mas refleti sobre todos os rumos que foram tomados pela minha militância nos últimos anos, todos os posicionamentos que já tive e que hoje não tenho mais. Um desses posicionamentos, recordo-me, era o posicionamento do incondicional apoio ao “empoderamento”. Não que haja algo ruim em fazer com que mulheres acreditem que elas são capazes, das a elas “poder”, empoderá-las. Nociva, e foi o que eu percebi depois, é a ideia que setores liberais do feminismo vendem de um “empoderamento cego e fantasioso”, simplesmente para encorajar meninas e mulheres a terem uma conduta de não-problematização de suas condutas e gostos, e da forma como estes foram e são influenciados pela forma com a qual mulheres, como classe, são tratadas ou pelo que elas desde cedo aprendem que é certo ou errado para elas.

O que esse é esse “empoderamento cegofantasioso”, contudo? Essa pergunta não é difícil de se responder. O empoderamento cego e fantasioso tem a ver com a ideia de gostos, fetiches, comportamentos “intocáveis” e que jamais devem ser problematizados. Este empoderamento tem tudo a ver com a fantasiosa ideia de que “escolhas pessoais” não tem nenhuma ligação com estruturas sociais ou socialização, nem é influenciada por elas. Este empoderamento é cego porque fecha os olhos para opressão sistemática, para como o sistema de privilégio/opressão funciona para oprimir mulheres como uma classe.

Entendendo o que é tal “empoderamento”, não é difícil entender o porquê dele ser tão aclamado, exaltado e exigido pelos setores liberais do feminismo. O Feminismo Liberal sempre teve uma conduta de “não problematização” dos moldes patriarcais ou dos objetos de subjugação, silenciamento e opressão usados pelo patriarcado contra nós, mulheres. O Feminismo Liberal sempre valorizou muito mais gostos pessoais, nos vendendo a fantasiosa ideia de que ‘um termo deixa de ser ofensivo no momento em que decidirmos que assim será”, “espaços são femininos e, pior, feministas só porque os nominamos assim” e “coisas que sempre foram usadas pelo patriarcado para nos limitar e nos oprimir serão resinificadas e se tornarão ’empoderadoras’ num estalar de dedos”. Basicamente, a ideia que este feminismo tenta nos passar é que “a opressão só existe porque permitirmos que ela exista! no momento em que decidirmos que aquilo não é opressivo e que não estamos sendo oprimidas, assim será!”.

Parece ideia de filme de conto de fadas – ou pior, parece discursos advindos de pessoas que dizem coisas como “o racismo só existe porque ainda acreditamos que há diferenças entre negros e brancos” ou “o racismo só existe porque ainda continuamos falando sobre ele”. Qualquer um numa militância de esquerda e feminista deveria no mínimo ter a noção que não é ignorando a opressão que acabamos com ela; mas, mesmo assim, muitas de nós ainda não temos tal noção. Não é ignorando que, por exemplo, a maquiagem é usada como forma de opressão patriarcal, que vamos fazer com que ela deixe de ser opressiva. Mas o Feminismo Liberal não tem nem nunca vai ter essa visão; pouco importa a quantidade de dados concretos e relatos existentes sobre como a indústria pornográfica e de prostituição são opressivas para com as mulheres, ou a quantidade de textos acadêmicos e dados estatísticos que provem o quão opressivos métodos como depilação, maquiagem, dietas “malucas” e tantas outras coisas que desde cedo somos ensinadas a fazer para nos encaixar em arbitrários padrões de beleza (coisas essas que podem e que mudam dependendo da cultura onde somos criadas, vale ressaltar) – não, pouco ou nada disso importa para o Feminismo Liberal, simplesmente porque, por não acreditar na opressão sistemática, tal vertente feminista acha que essas opressões não existem ou são somente propagadas de formas individuais e que podem ser resolvidas simplesmente com o “empoderamento”, com o “maquiagem é opressiva porque eu sou obrigada, mas se eu começar a gostar de maquiagem ela não vai mais me oprimir”. E isso abre outra discussão:

“E se uma mulher gostar de maquiagem? E se ela gostar de BDMS, e se ela gostar de pornô? Ela perderia a carteirinha de feminista?”

Ao invés de bater carteirinhas e decidir quem é mais ou menos feminista, eu gostaria de convidar todas vocês para uma breve reflexão: antes de considerar nosso gosto por ter “uma pele lisinha e sem pelos”, “batom vermelho”, “salto alto”, “pornô indie” ou qualquer outra coisa problemática e que é problematizada pelo feminismo (ou que ao menos deveriam ser) simplesmente como “gostos pessoais e inquestionáveis”, gostaria de lhes perguntar: como definir até aonde o que gostamos é simplesmente um gosto pessoal e a partir de quando ele começa a ser influenciado por socialização, pela mídia, pela igreja, pela sociedade patriarcal em geral? Como podemos traçar essa linha? Como podemos garantir a nós mesmas (estou pedindo para que cada uma faça sua própria análise, que pense com carinho sobre isso, por favor) que nossos gostos não são influenciados pelo que fomos socialmente ensinadas a gostar? Como podemos saber se realmente gostamos de fazer algo ou gostamos de algo porque em algum momento de nossas vidas aquilo nos foi imposto como bom, bonito ou certo, seja de forma consciente ou inconsciente?

“Então, o que eu devo fazer? Simplesmente deixar de fazer o que eu gosto por ser problemático?!”

Não estou aqui para dizer se você deve ou não deixar de fazer algo, até porque acredito que qualquer um procurando ou tendo contato com um texto deste tipo não está mais em idade de receber ordens nem da mãe, quanto mais de uma pirralha na internet. O que eu lhes convido a fazer, contudo, é uma reflexão nos motivos que lhes fazem gostar do que vocês gostam. O que eu lhes convido a fazer é começar a problematizar suas ações, seus gostos, sua forma de pensar e de encarar o mundo, bem como o mundo e a sociedade em que vocês vivem. A problematização, ao contrário do empoderamento, não se cala para as opressões e imposições que nossa vida social envolve. Pelo contrário, a problematização nos convida a começar a notar essas opressões e imposições, nos mostra como elas acontecem e que elementos são usados para impor algo às mulheres ou, em geral, oprimi-las.

Provavelmente por isso a problematização é temida e condenada pelo Feminismo Liberal: se ela não se cala diante de tais agentes patriarcais e suas armas de opressão, logo, ela não os torna “impossíveis de serem criticados”, como o “empoderamento” faz.

Para terminar, gostaria de lembrar-las: antes de um ser humano ser um ser pessoal e individual, ele é um ser social e um ser político. Não podemos nos dar ao luxo de concentrar nossas análises na esfera individual, já que esta é instável e variável demais para que se possa analisar. Temos de analisar, então, como as ações feitas e escolhas tomadas na esfera individual estão ligadas ou são influenciadas pela esfera social e política.

Não podemos nos limitar a acreditar que a opressão some num estalar de dedos ou “quando decidirmos que assim será”, já que qualquer um que ouse prestar atenção nas esferas social e política sabe que a opressão é sistemática e existe, e só a problematização e a organização para a luta pela abolição da opressão e dos sistemas usados para oprimir ou silenciar podem, de fato, nos libertar.

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