A política de identidade de gênero machuca as mulheres.

É sempre complicado e polêmico tentar começar uma discussão sobre identidade de gênero, já que tudo que tem a ver com “individualidade” e “escolhas pessoais” é vangloriado e protegido com unhas e dentes por correntes feministas que concentram suas análises na esfera individual, ao invés de analisarem nossas sociedade patriarcal e os elementos que lhe sustentam ou que são consequentes dela levando em conta as classes de pessoas, os interesses e a posição de poder das mesmas. E, já que estas correntes não exigem que haja problematização de nossos “gostos pessoais” já que indivíduos são “seres individuais fazendo escolhas individuais e sem conexão”, ela consequentemente é muito mais “atrativa” para quem está começando a ter contato com as discussões do feminismo; e seria um estágio saudável, se não fosse pelo fato de muitas mulheres se sentirem tão confortáveis com o movimento que engole tudo e não critica nada que estagnam no estágio que deveria ser intermediário; no Feminismo Liberal.

Então, sim: conversar com mulheres que ainda estão presas na forma de análise e de pensamento do Feminismo Liberal sobre a problematização da política de identidade de gênero é sempre muito delicado, assim como é delicado tocar em qualquer outro assunto que exija não somente senso crítico, com também mente aberta para o diálogo, para a problematização, bem como bastante paciência da parte de quem está iniciando essa discussão. Eu não sou a pessoa mais paciente do mundo; creio que devo ser uma das pessoas mais impacientes que conheço. O que alimenta esse texto não é minha paciência, porém, mas minhas teimosia e a necessidade latente de discussões desse tipo.

Espero do fundo do meu coração que, seja lá quem for você, mulher, que esteja lendo isto agora, esteja fazendo-o por estar realmente disposta a sequer dar uma chance para novas formas de enxergar a militância pela liberdade feminina batizada, muito antes de eu nascer, de “feminismo”. Não pretendo com este texto impor minha visão ou minha forma de pensar, mas somente expor minhas visões sobre este assunto. 

Sem mais delongas, creio que o mais adequado agora seria começar a discussão com a frase usada no título deste texto:

“A política de identidade de gênero machuca as mulheres.”

Gostaria, então, de explicá-la.

A gritante maioria de nós entra em contato com o movimento feminista por meio do Feminismo Liberal, pelos motivos que já citei anteriormente. É muito mais fácil aceitar um movimento que quer te “empoderar” (entenda as aspas aqui) do que o movimento que logo de cara tenta problematizar o que você sempre aprendeu a encarar como certo, como bom, como saudável, como normal. O nome desse feminismo, contudo, não é por acaso: em muitos pontos ele lembra, está conectado ou dialoga com o liberalismo, e isso é problemático. O que há de mais liberal neste feminismo provavelmente é o individualismo.

O feminismo liberal dificilmente falará de projetos reais de derrubada do patriarcado e dos papéis de gênero; ao menos não enquanto ele simplesmente pode nos oferecer “resinificações” das nossas antigas opressões (p.e. o incentivo que essa corrente feminista dá a resinificações de termos ofensivos, como “vadia”, “puta”, “feminazi”, etc, partindo da ideia equivocada de que “um termo só é ofensivo enquanto nós nos ofendemos com ele”, que é claramente falha quando levamos em conta a carga que histórica e socialmente um termo carrega e como esta não pode ser apagada por resinificações superficiais) e identidades de gênero: tantas quanto podemos pensar, e mais algumas.

A ideia que isso [identidades de gênero] envolve é a de que gêneros, ao invés de serem somente “uma caixinha masculina e uma caixinha feminina”, previamente delimitadas e nas quais indivíduos devem se enquadrar, são na verdade várias caixinhas, de formas diversas, com papéis de gênero diversos e nas quais você não precisa se encaixar e pode chegar ao ponto de simplesmente poder “experimentar” o melhor que cada caixinha há de oferecer antes de decidir qual a que gosta mais (ou, melhor ainda: não decidir por nenhuma e criar uma nova, só sua). Ideia bonita, não acham? Bonita, porém utópica.

Utópica porque gêneros, na vida real, não são belas e infinitas caixinhas. Na vida real, que é aonde análises têm (ou ao menos deveriam ter) de ser feitas, gêneros são, sim, apenas duas caixinhas previamente delimitadas: a masculina e a feminina. É assim que acontece, na vida real, e afirmar isso não é concordar com isso: é simplesmente dizer não ser tão ingênua a ponto de ignorar a realidade porque ela não me satisfaz. De qualquer forma, na vida real, gêneros são caixinhas nas quais você é encaixado desde que seus pais têm ciência do que, no patriarcado, é o que é considerado crucial na hora de delimitar quem você será, do que irá gostar e, o mais importante, qual será o nível de liberdade, de poder e de voz que você terá, tanto social, quanto política e economicamente: o seu sexo.

Para tornar o post mais ilustrado e ajudar na compreensão, trouxe imagens [obviamente meramente ilustrativas] das nossas “caixinhas”, dos gêneros nos quais fomos encaixados de acordo com nossos genitais:

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Estas duas caixas são distintas, e ser criado dentro de cada uma delas trará a um indivíduo consequências e experiências diferentes ao longo da vida, simplesmente porque, levando em conta a “caixinha” na qual você foi encaixado (o que não quer dizer que você se encaixe lá), você desde pequeno será criado, ensinado e tratado de forma distinta de indivíduos da “caixinha diferente”.

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Mas o conceito de “gênero” não para simplesmente por ai. Não é somente a delimitação de um indivíduo em uma das “caixinhas” que vai decidir a forma como ele crescerá e se comportará, mas sim a forma como ele será criado para se encaixar na “caixinha” da qual faz parte; e é graças a essa característica fundamental à existência do gênero, a socialização, que podemos entender o que o gênero realmente é: parte inerente da opressão patriarcal da classe masculina sobre a classe feminina.

Meninos e meninas são criados de forma diferente. Desde novos, meninos são criados com uma considerável liberdade para explorarem o mundo do qual fazem parte, para sonhar e para se auto-descobrirem. Enquanto isso, meninas são desde cedo ensinadas a se cobrir, a se calar, a se colocar “em seus devidos lugares”. Elas aprendem a deixar de fazerem o que gostam porque “não é coisa de menina”, a não expor o que pensam porque “vão parecer irritantes”. Elas também aprendem desde muito cedo, embora muitas vezes inconscientemente, sobre o privilégio masculino: meninos podem correr, podem brincar, podem ter o que quiserem, podem se tocar e podem tocá-las a seu bel-prazer — afinal, “boys will be boys”: não são eles que terão de aprender a te respeitar, mas sim você que terá de “se dar ao respeito” e aprender a lidar com isso.

A medida em que estas crianças crescem e chegam à puberdade, a diferença na forma com que são tratadas só aumenta: embora ambos os indivíduos sejam pressionados pela heteronormatividade, a liberdade masculina sobre seu próprio corpo (e, vale lembrar, a implícita liberdade a eles dada sobre os nossos corpos) que é dada ao indivíduo do sexo masculino, bem como o conhecimento de sua anatomia, de seus desejos e a chance bem maior de poder exercer e experimentar com sua sexualidade é negada às jovens mulheres; essas, que desde cedo assimilam a ideia de que tudo que é socialmente associado com elas, com meninas, é “ruim”, “errado”, “fraco”, “bobo”, agora se veem cada vez mais pressionadas por padrões que irão acompanhá-las para o resto de suas vidas, e que, por mais que elas tente ignorá-los e fingir que eles não existem, estarão lá e serão motivo de muitos problemas que elas possam vir a ter com relação à auto-estima: os padrões de beleza.

Meninas cada vez mais novas já se vêem pressionadas a começar a usar maquiagem para “esconder suas imperfeições”, fazer dietas malucas ou se privar de comer o que gosta (e, em casos extremos e que devem ser tratados, pois são distúrbios alimentares, se vêem pressionadas a se privar de comer, em geral). Essas meninas aprendem que “a beleza custa caro”, mas ao mesmo tempo, não enxergam outra alternativa senão se submeter a procedimentos doloridos, incômodos, por vezes caros e que lhes proporcionarão resultados que elas gostaram, muitas vezes, muito mais porque foram ensinadas a gostar deles do que puramente por seus gostos pessoais. E esses ciclos, de sofrimento, de silenciamento e de submissão, são aprendidos, assimilados e farão parte da vida destas mulheres, quer queiram elas, quer não.

Embora tanto a socialização masculina quanto a feminina sejam “forçadas” a esses indivíduos e mesmo que nenhum deles tenha voz para “escolher” coisa alguma, é inegável a forma como os gêneros foram criados e funcionam para a manutenção do sistema de privilégios masculinos e da opressão feminina, já que mulheres são socializadas em um sistema que as diminui, as silencia, as explora, limita seus espaços, as priva de conhecimento, de auto-conhecimento, de direitos e, em geral, de liberdade.

Como eu já disse antes, o conceito de “ser mulher” sempre esteve associado com a minha dor. Minha “identidade” feminina não provem de um “cérebro feminino” pois, assim como qualquer outra mulher, eu não me encaixo e duvido que um dia serei capaz de me encaixar completamente na “caixinha” na qual fui jogada, na “caixinha feminina”. Minha “identidade” feminina, minha mulheridade, está intimamente ligada à minha identificação com as limitações, com os percalços e com a dor que a socialização feminina me infligiu e infligiu à outras mulheres.

Quando vejo alguém que não jamais teve as experiências que somente a socialização feminina nos proporciona dizer que “se identifica como mulher”, a primeira coisa que me vem a cabeça é: “se esta pessoa se identifica como mulher, o que é ser mulher, para ela?”. Porque, para mim e para qualquer outra pessoa socializada como mulher, “ser mulher” é tão mais que se encaixar nos papéis de gênero feminino, do que “usar saia e batom”, do que “gostar de homens”, do que qualquer “isso” ou qualquer “aquilo” que se encontra em alguma lista de algum site falando sobre coisas que toda mulher faz, gosta, quer ou se interessa.

É muito fácil bradar que “a socialização não importa!” quando se é socializado tendo o mundo nas mãos. Mulheres são parte considerável (you don’t say????) da população mundial, e ainda assim, só detêm 1% das propriedades mundiais e fazem apenas 10% da renda mundial. Uma em cada três mulheres será agredida ou estuprada durante sua vida, e a cada dois minutos uma de nós morre em decorrência de gravidez ou durante o parto. 875 milhões de mulheres não sabem como ler ou escrever, e todo o dia 39,000 meninas são obrigadas a se tornarem noivas.

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É simplesmente fácil demais ignorar a influência da socialização nas nossas vidas quando existem meninas sendo abandonadas ou mortas na China porque seus pais queriam um filho homem, ou ignorando que vivemos num mundo onde estima-se que cerca de 86 milhões de meninas estão sujeitas a sofrer mutilação genital até 2030. A ONU inclusive já declarou, baseando-se em seus bandos de dados sobre a violência contra a mulher, que nascer mulher define nossa existência social.

Não ouse olhar na minha cara, na cara de mulher alguma, e bradar que “socialização não importa” quando vivemos num mundo onde ser identificada mulher no nascimento é estar sujeita a violências, onde ser socializada como mulher é não somente estar sujeita a violência como ser emocional e psicologicamente violentada por uma socialização que lhe destrói sua auto-estima e seu amor próprio, desestimula sua criatividade, lhe faz se sujeitar a situações degradantes e destrutivas em nome da beleza, da aceitação social e dos padrões impostos pela feminilidade, que lhe ensina a não se expressar, se anular pelo bem coletivo, se diminuir pelo bem do ego masculino… Uma socialização que lhe ensina a naturalizar a violência que sofre, a se culpabilizar, a “aguentar calada”. Uma socialização que lhe ensina a por todos e seus desejos na frente de você e do que você quer.

A política de identidade de gênero machuca as mulheres por as colocar na posição de opressoras num sistema onde elas não têm voz sequer para se DEFENDER. A política de identidade de gênero as machuca por as tratar como “opressoras” por se “identificarem” como mulheres, sendo que essa “identificação” muitas vezes é o único sentido existente para as agressões e a misoginia que sofremos e, portanto, nos “desfazer” dela seria nos desfazer, também, do entendimento das opressões misóginas que sofremos, do privilégio masculino que outros indivíduos têm e da irmandade feminina, essencial para muitas de nós conseguirmos realmente ter forças para continuar lutando pela liberdade da classe feminina. A política de identidade de gênero machuca pois tenta obrigar as mulheres “opressoras” a colocar outras pautas a frente das suas, uma característica patriarcal que foi adaptada pela esquerda e também por quem defende as pautas de identidade de gênero. A política de identidade de gênero machuca pois continua silenciando pessoas socializadas como mulheres, independentemente destas “se identificarem” como mulheres.

A política de identidade de gênero machuca as mulheres porque qualquer política que pretenda “apaziguar” a situação, que venha propor às mulheres que elas resinifiquem as violências institucionalizadas e sistemáticas que elas sofrem ao invés de propor que elas se unam para lutar pela liberdade total feminina e a abolição do sistema que as oprima não está realmente preocupada com as mulheres.

 

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