Feminismo “sem onda” ou indígena, ou a luta das “Feministas sem desculpa”.

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Este texto é uma tradução e uma adaptação de um texto chamado “Indigenous Feminism Without Apology”, de autoria de Andrea Smith,  feminista radical indígena, parte da tribo Cherokee, professora de Native American Studies na Universidade do Michigan, Ann Arbor, e co-fundadora do “Incite!” e do “Boarding School Healing Project”.

Nós frequentemente ouvimos o “mantra” nas comunidades indígenas de que mulheres nativo-americanas não são feministas. Supostamente, o feminismo para elas não seria necessário porque elas eram tratadas com respeito antes da colonização. Além disso, qualquer mulher indígena que se declare feminista é frequentemente dita “branca” ou, no mínimo, dita estar querendo “assimilar elementos culturais brancos” ou “se embranquecer”.

De qualquer forma, quando eu comecei a entrevistar mulheres indígenas envolvidas na organização das tribos e comunidades nativo-americanas como parte de meu projeto de pesquisa, eu me surpreendi com a quantidade de ativistas na escala local (dentro das próprias comunidades) se descreviam como “feministas sem desculpa”. Elas argumentavam que o feminismo na verdade era um conceito indígena que fora cooptado por mulheres brancas.

O fato de que as sociedades nativo-americanas e indígenas eram igualitárias 500 anos atrás não está impedindo essas mulheres de serem agredidas e abusadas atualmente. Por exemplo, em meus muitos anos de organização contra a violência, eu ouvi muitas vezes coisas como, “Nós não podemos nos preocupar com a violência doméstica; nós temos que nos preocupar com nossa luta pela sobrevivência primeiro.” Mas, levando em conta que mulheres indígenas são muito mais frequentemente mortas em decorrência da violência doméstica, fica claro que elas não estão sobrevivendo. Então quando falamos da sobrevivência de nossos povos, de quem estamos realmente falando?

Essas feministas nativo-americanas e indígenas não estão apenas desafiando o patriarcado dentro das próprias comunidades indígenas, mas também a supremacia branca e o colonialismo que estão intimamente ligados ao “white feminism” (o feminismo centrado na figura da mulher branca). Isto porque elas estão começando a desafiar a ideia de que são somente as mulheres brancas que devem definir o que o feminismo é.

DESCENTRALIZANDO O “WHITE FEMINISM”

O movimento feminismo é geralmente dividido em suas “ondas”, o Feminismo de Primeira Onda, o Feminismo de Segunda Onda e o Feminismo de Terceira Onda. Nos Estados Unidos, a Primeira Onda é caracterizada pelo Movimento Sufragista; a Segunda Onda é caracterizada pela formação da “National Organization for Women”, as políticas do direito ao aborto e a luta pelas alterações políticas para a conquista dos direitos iguais. De repente, durante a terceira onde, mulheres não-branca aparecem para “transformar o feminismo” em um movimento multicultural. 

Essa divisão da história do feminismo coloca as mulheres brancas de classe média como os agentes centrais da história da luta pelos direitos das mulheres, numa análise que coloca mulheres não-brancas como agentes secundários, somente “aceitos” ou “acoplados” no decorrer da história. Porém, se nós levarmos em conta a operação das mulheres indígenas em na “equação” da história do feminismo, da luta pelos direitos das mulheres, nós talvez devêssemos começar nossa análise histórica já em 1492 quando as mulheres Nativo-americanas coletivamente resistiram à colonização. Isso nos permitiria enxergar que existem diversas histórias do surgimento do feminismo, em diversas comunidades “não-brancas”, nas quais esse [o surgimento] aconteceu de forma e por motivos diferentes, porém, muitas vezes, conectados entre si. Uma análise assim não negaria as contribuições feitas por feministas brancas, mas não centraria nossa historialização e nossas análises somente nelas e no surgimento do feminismo nas sociedades branco-ocidentais. 

O Feminismo Indígena centraliza, assim, a prática anti-colonial dentro de sua organização. Isso é crítico hoje em dia quando você vê alguns grupos feministas apoiando, por exemplo, o bombardeio promovido pelo Exército dos EUA ao Afeganistão, justificando que tal bombardeios “irão libertar as mulheres das garras do Talibã” (aparentemente bombardear mulheres, para elas, de alguma forma as liberta).

DESAFIANDO O ESTADO

Feministas indígenas também estão desafiando a forma como conceituamos a soberania indígena – esta não é um “add-on” para os estado-nações heteronormativos e patriarcais. Pelo contrário, pretende desafiar o próprio sistema de “estado-nação”. Charles Colson, proeminente ativista pelos “Direitos dos Critãos” e fundador da “Prison Fellowship”, explica muito claramente a relação entre a heteronormatividade e o funcionamento de um estado-nação. De acordo com a sua visão, o casamento entre pessoas do mesmo sexo está diretamente relacionado ao terrorismo; o ataque à “ordem moral natural” da família heterossexual “é como entregar armas morais de destruição em massa para aqueles que usam a decadência dos Estados Unidos para recrutar mais mais atiradores e sequestradores e homens-bomba.”

De forma similar, a revista “Christian Right World” deu sua opinião e disse que o feminismo contribuiu para o escândalo de Abu Ghraib, por promover as mulheres no exército americano. De acordo com eles, “mulheres que não se conformam nos papéis de gênero que lhes foram impostos ficam desorientadas e agridem os prisioneiros.

O que está implícito nisto é a a análise de que o heteropatriarcado é essencial para a construção de impérios como o Império Americano. O Patriarcado segue uma lógica que naturaliza hierarquias sociais. Da mesma forma que homens supostamente estão designados naturalmente a dominar mulheres com base na biologia, da mesma forma as elites sociais deveriam “naturalmente” dominar o resto das pessoas através da lógica de governo dos estado-nações, que é construída através de dominação, violência e controle.

Como Ann Burlein argumenta em “Lift High the Cross”, talvez seja um erro afirmar que o objetivo da política pelos “Direitos dos Cristãos” seja criar teocracias. Ao invés disso, essa política parece querer usar a ideia da “família privada” (que é a família branca, patriarcal e de classe média) para criar uma “América Cristã”. Ela aponta que os investimentos na ideia da “família privada” torna mais difícil que sejam feitos investimentos nos outros tipos de conexão social.

Por exemplo, mais investimento na manutenção do estilo de vida da família privada dos subúrbios americanos significa menos investimento para as áreas urbanas, que concentram uma disparidade entre riqueza deslumbrante e pobreza extrema, e para as áreas de reservas indígenas. A decadência social resultante é então interpretada de forma a ser causada pelo desvio dos ideais da “família cristã” ao invés de forças políticas e econômicas. Como o antigo líder da “Christian Coalition”, Ralph Reed, colocava: “A única solução para a criminalidade é restaurar a Família” e “O rompimento da Família causa a pobreza.”

Infelizmente, como a estudiosa feminista Jennifer Denetdale, mulher parte da tribo Navajo, aponta, a resposta Indígena para a heteronormatividade branca da sociedade cristã americana frequentemente tem sido o incentivo a um igualmente heteronormativo nacionalismo indígena. Na crítica dela ao apoio do conselho tribal Navajo à proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo, Denetdale argumenta que as nações indígenas estão se aliando aos interesses dos ativistas pelos “Direitos dos Cristãos” em nome de “tradições indígenas”.

Essa tendência é igualmente aparente nas lutas pela justiça racial em outras comunidades não-brancas. Como Cathy Cohen afirma, a soberania heteronormativa no meio das lutas pela justiça racial irá efeticamente manter ao invés de desafiar o colonialismo e a supremacia branca pois está pautada na política da marginalização secundária. A classe mais privilegiada irá impor suas aspirações nas costas dos mais marginalizados dentro da comunidade.

Graças a esse processo de marginalização secundária, a luta pela justiça racial ou nacional, implícita ou explicitamente, assume um modelo de estado-nação como o ponto final de sua luta – um modelo onde as elites governam o resto com bale na violência, na exclusão e na dominação de quem não faz parte da “nação”.

REVOLUÇÃO

Uma política feminista indígena busca mais do que simplesmente elevar o status das mulheres indígenas – ela busca transformar o mundo de acordo com as formas de governo indígenas que podem ser benéficas para todos.

Em 2005, no “World Liberation Theology Forum” sediado em Porto Alegre, Brasil, populações indígenas da Bolívia afirmaram que eles conheciam outra forma de encarar nosso mundo porque eles conseguiam visualizá-lo dessa forma toda vez que faziam suas cerimônias. As cerimônias indígenas podem ser um espaço onde presente, passado e futuro se tornam co-presentes. Isto é o que a estudiosa nativo-americana do Hawaii, Manu Meyer, chama de “lembrança racial do futuro”. 

Antes da colonização, as comunidades indígenas não eram estruturadas na base da hierarquia, da opressão ou do patriarcado. Nós não temos como recriar essas comunidades da forma como elas existiam antes da colonização. Nosso entendimento de que sociedades não baseadas em opressões estruturas eram possíveis no passado nos diz que nosso sistema político e econômico atual é tudo menos natural e inevitável. Se vivíamos de forma diferente antes, podemos viver de forma diferente no futuro. 

O feminismo indígena não é simplesmente uma “política de identidade” isoladora e exclusiva, como é muitas vezes acusado de ser. Ao invés disso, é estrutura que compreende a luta das mulheres indígenas como parte de um movimento global pela libertação. Como um ativista afirmou: “Você não pode vencer uma revolução sozinha, e não estamos lutando por nada menor do que uma revolução. Qualquer outra coisa é simplesmente não vale nosso tempo.”

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