Sobre quando os debates feministas viram “disputa de egos”…

Esse texto é um texto que busca incentivar a reflexão. É um texto radical direcionado às feministas radicais e simpatizantes, em especial as que estão começando. Ele não busca, de forma alguma, “julgar” ou “corrigir” ninguém, mas incentivar que nós, feministas radicais, iniciantes ou não, possamos parar e refletir se estamos agindo de forma correta quando estamos em debates “mistos”, ou seja, debates entre mulheres de vertentes diferentes, com pensamentos diferentes, e que muitas vezes podem se sentir hostilizadas por algumas formas de abordagem. E, se uma mulher se sente hostilizada pela nossa abordagem, isso demonstra que talvez seja necessário repensar isso.

Primeiramente, eu creio que seja algo claro hoje em dia que muitas de nós só se permitiram dialogar com o feminismo radical quando fomos hostilizadas ou vimos mulheres sendo hostilizadas por pessoas trans/transaliados. Embora eu acredite que uma mulher possa e deva ser bem recebida no feminismo radical independentemente do que a motivou a procurá-lo inicialmente, eu acredito que muitas dessas moças venham para o feminismo radical mais por se sentirem acolhidas por esta corrente do que por serem ideologicamente alinhadas ao feminismo radical.

Não me entendam mal: não há nada de errado nisso, não mesmo. Mas eu tenho receio de que muitas dessas moças possam ter ideias equivocadas sobre o que o feminismo radical é, sobre nossas pautas e lutas, e quando elas discutem em grupos “mistos”, elas as vezes podem passar a ideia errada sobre o movimento para outras moças, e isso é sintomático.

Deixe-me ir direto ao ponto: após discussões em grupos majoritariamente liberais, já que são grupos onde grande parte das moças são iniciantes, eu comecei a perceber “comportamentos em comum” por parte de muitas dessas meninas radicais iniciantes, e isso me preocupou. Quero falar um pouco sobre tais comportamentos nesse texto, com o objetivo de incentivar a auto-análise e, novamente, a reflexão.

O primeiro comportamento que notei foi a atitude debochada. Embora eu entenda que em muitas situações que consideramos absurdas, nós costumeiramente acabamos preferindo ser debochadas do que nos irritar com nossas irmãs num debate. Eu realmente entendo a motivação desse comportamento, mas ele é problemático. Entenda, socialmente, mulheres aprendem desde cedo a se silenciarem; aprendemos que o que pensamos não é relevante. Quando uma mulher começa a dar suas opiniões, ela é logo vista como “histérica”, “exagerada”, “irritada”… Quando uma mulher feminista começa a opinar sobre algo, seus discursos são ignorados ou zombados por quem está fora da lógica feminista. Como feministas, faz-se necessário que nós não nos apropriemos dessa prática. Logicamente, mulheres podem produzir discursos preconceituosos, e esses devem ser analisados, problematizados e criticados. Agora, “debochar” do discurso de uma mulher, além de ser falta de educação e de sororidade, é improdutivo. Nenhum diálogo vai poder ser feito se uma das partes vai debochar de tudo que não concordar vindo do outro lado, e como mulheres feministas, nós PRECISAMOS buscar o diálogo com as mulheres. 

“Mas elas começaram a me ofender/zombar de mim primeiro!”, é algo que eu escuto bastante como resposta. Primeiramente: não estamos na primeira série. Você não puxa o cabelo da coleguinha porque ela puxou o seu primeiro; somos pessoas crescidas, somos seres racionais e o diálogo deve ser nossa arma e nosso escudo. Se a “coleguinha” se mostrar não disposta a travar um diálogo que não seja debochado ou passivo-agressivo, a melhor dica que posso lhes dar é: SE AFASTE! Se fica claro que o diálogo entre suas ideias não vai funcionar e que continuar insistindo nisso só vai ferir e desgastar ambas as partes, talvez seja melhor dar tempo ao tempo, se afastar, focar em outras coisas. Até porque muitas vezes o tempo, e só o tempo, permite que algumas pessoas se tornem mais abertas a dialogar e entender o outro lado. 

Outro comportamento que eu vejo e que em muito me incomoda, e que claramente é um traço que muitas meninas ainda carregam de suas épocas como feministas liberais, é o costume problemático de tentar resinificar termos. Não, amiga, você não é “terf”, “femista”, “feminazi”, “extremista”, “bucetista”, “radscum” nem nada assim. Não permita que outras pessoas, especialmente pessoas do sexo masculino, definam sua militância. Não permita que gente que pouco ou nada sabe do feminismo radical tente “definir” sua existência, como feminista radical, utilizando-se de termos depreciativos ou simplesmente absurdos inventados para segregar-nos e ao nosso feminismo. Eu poderia me prender explicando o quão cada termo desses é absurdo, mas acredito que já existam vários textos falando sobre o assunto, então não, não pretendo me demorar nisso. Creio que já deixei claro o que eu queria dizer.

Quando você assume o termo “terf” pra si, diz que é “terf com orgulho” ou algo assim, você acaba “confirmando” na cabeça de mulheres que ainda não têm contato com o feminismo radical a ideia equivocada de que nossas teorias se resumem a “excluir trans” (acusação absurda) ou, pior, “eliminar trans”. Nossas pautas não se resumem a pessoas trans, não demonizam pessoas trans e nem nada parecido. Nossas pautas são sobre pessoas nascidas, socializadas e lidas como mulheres, pessoas que sofrem e são afetas pela misoginia, que são acorrentadas pela opressão de gênero e que sofrem as consequências de ter uma socialização feminina em uma sociedade que odeia mulheres. Sem falar que, além disso, quando você resinifica termos assim, você permite que indivíduos socializados como homens, novamente, definam sua militância. Isso tem de ser problematizado urgentemente.

Outra coisa que vale uma menção, é aceitar ou apoiar a ideia de que feministas radicais “acham que gênero e sexo é a mesma coisa” ou que “são genitalizantes”. Não somos nós, feministas radicais, que somos “genitalizantes”: a nossa sociedade é. Nós não concordamos que pessoas devem ser socializadas para ser “homem” ou “mulher” desde o nascimento, levando em conta os genitais. O que nós não podemos nos dar ao luxo de fazer, contudo, é ignorar que é assim que se as coisas são feitas na sociedade em que vivemos.

É como discutir preconceito de classe, realmente. Eu, como mulher socialista, não concordo que pessoas tenham que vender sua força de trabalho para sobreviver,enquanto existem pessoas lucrando com a força de trabalho deste e de tantos outros indivíduos. Eu não concordo com a concentração de capital, eu não concordo com a meritocracia, eu não concordo com o neo-liberalismo, eu não concordo com todos os sistemas construídos para manter o capitalismo como sistema econômico mundial que, pautado na exploração e na opressão de classe, faz de quem é pobre cada vez mais pobre e de quem é rico, cada vez mais rico. Eu não concordo com nada disso, de verdade. PORÉM, se eu realmente quero propor mudanças reais,s e eu realmente quero propor uma revolução que libertará os seres humanos disso, eu primeiramente tenho de parar de me iludir e aceitar, sim, que é dessa forma que as coisas acontecem no mundo real. Porque, você sabe, não é ignorando que o capitalismo, suas causas e consequências existem que isso vai deixar de existir. 

Da mesma forma, feministas radicais enxergam o gênero como um elemento patriarcal fundamental para a opressão que a classe masculina impõe à classe feminina, de forma histórica, política, econômica e social. Se nós queremos propor uma revolução social que irá libertar mulheres de padrões de gênero que sempre as oprimiram e que as oprime até hoje (revolução essa que, consequentemente, também libertaria homens de suas próprias amarras de gênero, mas que tem como princípio fundamental a libertação do oprimido, ou seja, da classe feminina), precisamos primeiramente aceitar e entender o funcionamento e as bases da opressão de gênero – como ela funciona, o que a mantém funcionando e seu papel na manutenção do patriarcado. Nós não acreditamos que “gênero e sexo são a mesma coisa” ou somos “genitalizantes”; tudo o que fazemos é pautar nossas análises no mundo real e em como as coisas acontecem neste mundo real, ao invés de fazermos análises pautadas em teorias utópicas e equivocada sobre gêneros e seus funcionamentos. 

O que eu indicaria a todas essas meninas, e eu sei que isso vai soar academicista, mas é necessário… É que elas leiam mais teoria radical. Não existe um “limite” de conhecimento sobre a teoria radical, porque esta está em constante fase de crescimento e mudança. Feministas radicais estão sempre teorizando e é importante para TODAS NÓS estaemos em contato constante com textos e obras de cunha radical, lendo-as, digerindo-as e fundamentando cada vez mais nossa militância. Também é importante, mais do que simplesmente discutir com feministas de outras vertentes, deixar claro para essas mulheres que elas têm direito de pensar de forma diferente, e que você acredita que vocês duas possam coexistir e serem amigas mesmo pensando diferente. Afinal, nossos relacionamentos com outras mulheres não devem ser limitados ou pautados por teorias, mas sim pautados, acima de tudo, na sororidade e no respeito.

Não permita que os debates feministas se transformem em “disputa de egos”, onde um lado parece mais disposto a atacar o outro com unhas e dentes do que realmente discutir teorias e buscar soluções, articular lutas e tanto mais. Se o “outro lado” (odeio polarizar o movimento, odeio mesmo, mas como é um texto para explicar algumas coisas, creio que a linguagem mais simplista é essencial) provocar, talvez seja uma boa lembrar dos conselhos de nossas mães e professoras: deixar a coisa toda de lado. “Quando um não quer, dois não briga” pode não se rum ditado que funciona sempre, mas quando estamos falando do funcionamento interno do movimento feminista, talvez seja interessante relembrá-lo. Porque, no fim, não existem “os dois lados” dessa moeda: feministas liberais, interseccionais, transaliadas, radicais… Somos todas mulheres tentando sobreviver, e tudo do que não precisamos é que o movimento que luta pela nossa liberdade se torne uma briguinha de escolha, uma disputa de egos ou um espaço onde não nos sentimos seguras para nos pronunciar ou tirar nossas dúvidas sem sermos atacadas por nossas próprias irmãs.

Paciência é algo essencial quando estamos dialogando e discutindo com mulheres, especialmente mulheres que não pensam do mesmo jeito que a gente. Acredito que seja mais produtivo para quem não tem isso, para quem não tem paciência de dialogar com pessoas que podem, sim, se torar debochadas ou passivo-agressivas, seja por serem iniciantes ou por terem se tornado “fechadas” à novas ideias e formas de pensar, que prefira deixar uma discussão deixando claro para outras mulheres que você sempre estará disposta a ter um diálogo saudável com elas ou que sempre irá apoiá-las, do que deixar-se consumir pelo calor do debate e acabar ferindo você e suas irmãs no caminho.

Vale lembrar que, dificilmente, uma mulher que tiver sofrido alguma forma de “trauma” ou que tenha sido ofendida por alguém de uma vertente feminista vai ser paciente ou estará aberta ao diálogo com essa vertente. Cada mulher tem seus limites e esses têm de ser respeitados. Não é produtivo nem saudável IMPOR suas ideias a essas mulheres, especialmente quando elas deixam claro que não se sentem a vontade com isso. Eu sei que dói, que dói ver irmãs atacando irmãs, que dói ver mulheres atacando o que você pensa sem sequer terem tido a chance de ter contato real com o feminismo radical, mas não é indo nos espaços de feministas dessas vertentes e esbravejando contra o que elas pensam que você vai conseguir que alguma delas te dê ouvido. Muito melhor e mais produtivo que isso, porém, é lentamente tentar tornar essas mulheres mais abertas ao diálogo, conversar com elas, explicar sua forma de pensar aos poucos e dar a elas a chance de digerir isso tudo e de decidir o que elas pensam sobre isso, sobre você e sobre sua forma de ver.

É nisto que eu acredito, e são nesses princípios que eu tento pautar minhas ações e falas quando estou discutindo com outras mulheres. Espero que algumas de vocês, irmãs, possam usar este texto para auto-análise e reflexão e chegar na conclusão de como vocês acreditam ser melhor levar e construir a militância de vocês.

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