Não estou “de boa” e não irei me calar!

Ser militante é estar em constante mudança, em constante transformação. Consideramos que vivemos em um mundo e em uma sociedade que estão em constante evolução, em constante mudança, o militante que tem medo de mudar, de repensar suas condutas e crenças… fica pra trás. Ser militante também exige estar sempre pronta pro combate, e não estou falando simplesmente do embate físico com outras pessoas, com outros movimentos ou até com os braços armados do governo.

Toda mulher feminista deveria cultivar o feminismo combativo, deveria cultivar em si a vontade crescente de estar sempre em movimento, de estar sempre lutando. É isso que faz e sempre fez  o movimento feminista, bem como qualquer outro movimento pela liberdade de outras classes oprimidas, continue existindo, continue funcionando. Se ativistas entram no ócio, se ativistas se acomodam, a luta estagna. E, considerando que nenhuma luta estagnada tem força, ela se torna ineficiente ou até inexistente. 

Há de se admitir: participar do ativismo feminista, especialmente no meio virtual, é desgastante. Há dias em que você sente vontade de acabar com tudo, de sumir. Se afastar da militância por um tempo ou até de forma mais permanente é completamente normal; há pessoas que não conseguem ter saúde mental para lidar com esse tipo de coisa, com esse desgaste constante. Eu não julgo essas mulheres, não mesmo.

O que eu critico, porém, é quando alguém acredita que pode usar o nome do feminismo como simples “identidade”. Eu não consigo tolerar que alguém se considere abertamente “feminista” enquanto prega o ócio; eu não consigo tolerar que mulheres que se dizem feministas estejam dizendo para as outras ficarem “de boa” enquanto a classe feminina é continuamente explorada pelo patriarcado.

Embora eu já tenha ouvido que a página foi criada para pregar a “harmonia entre vertentes”, nem isso faz sentido. O movimento feminista, em tese, tem a sororidade como uma de suas maiores pautas. Respeito mulheres feministas de outras vertentes, bem como mulheres em geral. Respeito-as, e respeito suas existências, mas sororidade não me obriga a aceitar ou fingir concordar com qualquer coisa que mulheres falem, sobre o mundo e sobre a militância feminista.

Se encaro o feminismo de uma forma diferente de minha colega de luta, creio que a discussão é essencial; isso não é ir contra a sororidade, mas sim agir como qualquer outro ser racional que encontra divergências entre sua forma de pensar e a do seu próximo: civilizadamente debater sobre tais divergências, tentar expor o que eu acredito, ouvir o que o outro têm a dizer. Quando você mina qualquer possibilidade de discussão e debate com discursos que basicamente dizem “deixe isso de lado, cara, fica de boa!!!!”, você também mina a possibilidade de diálogo entre mulheres, mina a formação de ideia com base nas discussões e nas mediações.

Política é embate, é discussão, é debate, é não aceitar o que o outro te diz se você não concorda com ele. Militar por uma causa significa embater com pessoas que não pensam da mesma forma; militar por um grupo oprimido é ter de sempre estar pronta para embater contra a classe opressora. Minar isso em prol do ócio, em prol de “ficar de boa” é desestimular mulheres a cultivarem o sentimento que foi e é o motor histórico e social das conquistas femininas; se algumas de nós não tivessem, em algum momento, se revoltado com suas situações e com a latente desigualdade; se elas não tivessem cultivado o feminismo combativo, se não tivessem brigado, se não tivessem discutido, inclusive entre si, e se não tivessem ido a luta, nós nunca estaríamos onde estamos hoje. 

Se não fosse por todas as mulheres combativas, que deram a cara a tapa pelos direitos da classe feminina, nós não teríamos nada. Nenhum direito, nenhum espaço, nenhuma voz. Esses ainda são escaços, mas se temos alguma coisa, é por causa delas. 

Considerando isso, é no mínimo uma afronta contra a memória dessas mulheres reduzir o movimento que elas suaram e apanharam para construir a um jogo identitário, onde o ócio e a acomodação são formas de lutar contra a opressão e onde qualquer um, por mais desinformado ou descomprometido com a causa feminina que esteja, é feminista a partir do momento em que assim se diz. 

Propagar esse tipo de ideia, essas ideias cultuadoras da “boa vizinhança” ou do ócio, dentro dos espaços de militância, como uma forma de lutar ou militar, é atentar contra o passado e o presente de lutas feministas, bem como ameaçar o futuro.

E eu entendo que essa provavelmente não era a intenção. A intenção de quem começou com essas ideias era, provavelmente, ter um descanso de tantas brigas e discordâncias internas. O que não muda o aspecto problemático dessas ideias, que parecem promover o descaso e a acomodação dentro de um movimento que só existe por causa do comprometimento de mulheres com uma luta que antes parecia impossível, e porque mulheres em algum momento da história fizeram a opção por não se acomodar em suas posições sociais de opressão, escolheram se incomodar e embater contra o sistema que criou e que mantem sua opressão, e contra a classe opressora.

Eu não vou ficar “de boa”, eu não vou me acomodar. Eu não tenho motivos para fazê-lo. A classe feminina sempre foi explorada, e eu não vou ser quem vai banalizar a luta que minhas irmãs suaram e morreram pra construir e consolidar. O feminismo não ter a ver com bem-estar pessoal ou com identificação, o feminismo é um movimento político de libertação feminina, tem a ver com aplicar as teorias do feminismo na militância virtual e presencial, tem a ver com prática, com formas de agir e de enxergar o mundo, e principalmente, com a luta pela libertação da classe feminina das garras do patriarcal, da violência de gênero e da exploração. 

Enfiar o ócio e o pacifismo dentro do feminismo é não somente banalizar a história da luta feminista, aliás, como também é se enganar achando que simplesmente ignorar os problemas, dentro e fora da militância feminista, vai fazer com que eles sumam. Se você quiser por seu bem-estar acima da luta, faça-o. Faça o que acredita melhor para você. Se acredita que realmente vai poder conquistar algo se valendo do pacifismo ou do que agora é chamado de “deboísmo”, então tente. Só não tente atribuir esse caráter acomodado e anti-revolucionário ao movimento feminista; no mínimo, promover isso é minar o feminismo combativo que, para mulheres vivendo em uma sociedade patriarcal, é a única forma de constituir não somente sua existência, mas também constituir resistência.

E a resistência é a única coisa que pode nos libertar. 

Se sua forma de militar mina o feminismo combativo, a resistência, o espírito revolucionário, ele não está realmente preocupado com a libertação feminista, e de gente minando ou silenciando essa libertação, a principal causa feminista, propositalmente ou não, o feminismo já está cheio.

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Ser mulher não é simplesmente “calçar nossos sapatos”!

 

Adaptado de um texto de autoria de Julia Maria Fernandes, postado no Facebook. Ela me autorizou a adaptá-lo e  disponibilizá-lo aqui. Eu mudei algumas palavras que acreditei que fossem se encaixar melhor, mas procurei manter o sentido do texto original integralmente. Obrigada, Julia! ❤

 

Hoje meu recado vai para você, transativistas, em especial a uma que fez um texto direcionado para nós; mas também vai para todos os outros grupos anti-feministas e anti-espaços exclusivos de mulheres, o que tem se tornado um pleonasmo, ao meu ver.

Nós, mulheres, também passamos uma vida sendo apedrejadas.
No Oriente Médio, as maiores vitimas desse modo de execução são as mulheres, onde sua palavra de nada vale e grande parte parte das vezes seu julgamento não é justo. Sakineh Ashtiani é uma mulher de 43 anos e sua execução é iminente.
Os números são assustadores. Dentre os vários casos de execução, é mencionável o caso de  uma menina de 16 anos que foi enforcada, em 2004. Seu crime? Ela foi estuprada diversas vezes por um homem casado de 51 anos. Ele não foi a julgamento.

Também somos ridicularizadas desde a infância. Se não nos encaixamos nos padrões de beleza que nos são impostos, mesmo quando ainda somos crianças, somos convencidas que a nossa existência não vale. As mulheres estão em segundo lugar onde quer que elas estejam; somos a classe inferior, o “segundo sexo”. Menos no feminismo radical, movimento que você acusa de não reconhecer sua mulheridade — e olha, nós não temos essa obrigação.

Também temos nossos direitos básicos violados constantemente. A classe feminina compõe a maioria dos casos de vitimas de estupro, abuso domestico, violência obstétrica, pedofilia, assassinato marital. Os nossos estupradores são protegidos por uma lei falha e a nossa cultura nos culpa e aprisiona pelos abusos que sofremos.

Quanto ao direito de ter uma família, nos é negado o direito de não tê-la. Vivemos sob a autoridade dos homens da nossa família e, quando viramos adultas, somos obrigadas a constituir uma família graças à maternidade compulsória, que marginaliza mulheres que não querem abdicar de seus planos e sonhos em detrimento de outra(s) pessoa(s) — pois também é sabido que as obrigações de criar uma criança são de nossa responsabilidade e não dos homens (o serviço e as obrigações domésticas não são divididos de forma igual e quase sempre ainda são vistos como obrigação da mulher — o que acarreta a jornada tripla de trabalho feminina). Cabe a nós apagar ou tornar secundários nós mesmas e nossos objetivos em detrimento dos filhos.

Há, inclusive, uma tentativa de fazer vigorar uma lei que nos obriga a manter a gravidez em caso de estupro e ainda reconhecer o estuprador como o pai da criança. Uma mulher tem que constituir família: queira ela ou não.
E há quem diga que maternidade é privilegio — dentro de espaços feministas, inclusive.

Nossos nomes estão, de fato, de acordo com o nosso gênero e  vocês nos acusam de “nos identificarmos” com eles, e isso é degradante. Em uma sociedade cuja a visão e a imposição de gêneros visa beneficiar as pessoas do sexo masculino, como então poderia a binaridade dos gêneros beneficiar a mulher? Se, de acordo com a nossa análise, o gênero é uma arma patriarcal para a dominação e doutrinação das fêmeas, da classe feminina, que nesse contexto servem de auxilio emocional, doméstico, sexual e afetivo para homens?

Como podem dizer que nos identificamos com essa posição [que nos é imposta]? Apenas por nos conformamos com a feminilidade que a nós foi imposta com o intuito de nos fragilizar, vulnerabilizar, enfraquecer, odiar-nos entre nós, incapacitar-nos intelectualmente e nutrir um sentimento maternal e altruísta pelas pessoas do sexo masculino? Não nos identificamos com a feminilidade, tampouco com o que é “ser mulher”. Eu não me identifico com essa construção social que me foi imposta desde antes de eu nascer.

Se a ideia de gênero existente atualmente visa justamente viabilizar toda a violência que me atinge como mulher, por que então meu gênero seria negado? Meu gênero nunca me foi “concedido”. Meu gênero me foi empurrado goela abaixo e nada do que eu faça mudará os efeitos que isso teve na infância, juventude, crescimento e socialização de uma mulher. A trágica construção do ser mulher não pode ser neutralizada simplesmente se eu mudar meu nome e meu comportamento. A socialização feminina ainda estará lá e a socialização das pessoas do sexo masculino é uma vantagem sobre mim.

Quando você fala sobre a imposição dos padrões de beleza, você diz que isso pra ti é uma necessidade para que a sociedade te enxergue como mulher. A forma com que você fala faz parecer que esses mesmos conceitos de beleza e estética não existem e são destinados ESPECIALMENTE para as mulheres; como se não sofrêssemos abusos dessa instituição desde que nascemos. Comecei a usar maquiagem aos 8 anos de idade. Salto alto aos 7. E comecei a odiar meu próprio corpo muito antes disso.

Nosso problema não é simplesmente o fato de vocês performarem a feminilidade ao extremo. Nosso problema é vocês clamarem mulheridade simplesmente porque performam essa feminilidade. A única ideia de mulher que uma pessoa do sexo masculino pode ter é, claramente, observando as mulheres. Logo, a ideia de mulher para vocês parece ter somente a ver com a performance de gênero feminina. E isso, para nós. reforça ainda mais nossas opressões, pois ser mulher não é simplesmente isso. Ser mulher é nascer com uma vagina e ter a sociedade eficientemente construindo a “ideia de mulher” dentro de você.

Vocês não têm vivencias de mulher. Porque ser mulher não é simplesmente “calçar nossas sapatos”.
Vivência de mulher é começar a sofrer violência a partir do momento que você nasce.
PARE de querer fazer parecer que pessoas do sexo masculino podem ser e/ou são mulheres porque acharam a mulheridade atraente. Essas pessoas podem parecer, MAS NÃO SÃO.
Vocês são machos porque é essa a leitura social que ocorre sobre vocês, e leitura social faz toda a diferença. Se é a leitura social que determina a opressão, é por isso acreditam que ser mulher é uma boa ideia. E não é.

Mas pra falar a verdade mesmo, não é nem esse o nosso problema. Não podemos interferir em como vocês querem ser chamados e na individualidade de vocês. O problema é quando o teu ativismo começa a fazer mulheres acreditarem que a posição delas é de privilegio. Que lésbicas devem se relacionar com pênis. Que genital não faz diferença na vida de alguém, que a vagina socialmente e culturalmente não determina a mulheridade — e, consequentemente, a opressão — daquele individuo. Quando a transfobia se torna mais grave do que o ódio às vaginas, o ódio às mulheres que vocês alimentam para beneficiar seu movimento. O problema é vocês colocarem na cabeça de jovens mulheres que as maiores oprimidas são vocês e que nosso dever é militar pelas suas causas.

Meu problema é vocês quererem enfiar vossas presenças nos banheiros femininos, nos espaços exclusivos para mulheres, nas nossas vaginas e bocas. O problema é quando vocês exigem entrada liberada em nossos banheiros, mesmo que isso implique abrir brecha para que homens, que vivem e são lidos como homens, se aproveitarem disso para espionar e estuprar mulheres (e isso tem acontecido, viu?). O problema é vocês acreditarem que a noção de gênero de vocês é a unica e verdadeira e que qualquer outra, mesmo que montada por mulheres e para mulheres, deva ser execrada, mesmo que aquilo seja parte do único legado que nos resta. O problema é vocês combaterem os espaços que lutamos para conquistas para nós mesmas, para interagirmos com aquelas cujas vivencias são semelhantes às nossas. O problema é que socialização masculina envolve MUITA misoginia e eu tenho o direito de me proteger disso.

Eu não me importo se você se chama Marcelo ou Marcela, se usa saia ou vestido. Eu me importo quando o teu movimento me culpabiliza me jogando no “saco cis” e me acusando de me conformar ou me “identificar” com as opressões a mim impostas.

(tradução) De onde vem a sua mordaça? BDSM é a erotização de torturas antigas.

Nosotras, las Brujas

ALERTA: racismo sexualizado + misoginia, escravidão.
Publicado originalmente em: http://gynocraticgrrl.tumblr.com/post/38099240634/where-your-gag-comes-from

Aparentemente, para algumas pessoas (na maioria das vezes brancas, na minha experiência**), é difícil compreender que a cultura do fetiche do BDSM está ligado com o racismo e com a misoginia, particularmente na sexualização das praticas de tortura contra mulheres negras.  Isso se tornou claro para mim durante os meses que fiquei comparando as semelhanças sinistras entre a dinâmica mestre/escravo, da cultura do BDSM, e a dinâmica mestre/escravo que foi muito praticada através de papéis de gênero patriarcais entre homens e mulheres, assim como na escravidão… que muitas pessoas fazem um esforço para traçar paralelos entre as técnicas de tortura que escravos foram submetidos a e os métodos de punição da cultura do BDSM. Desde as chicotadas até as mordaças.

Disseram-me, baseado na confusa recepção desse argumento, que eu precisaria apresentar imagens. Essa postagem contém imagens e ilustrações que podem…

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Pelo Fim da Violência contra as Mulheres Lésbicas, Queremos o Fim do Patriarcado!

Coletiva Feminista Radical Manas Chicas

Nos últimos anos, o Brasil aparentou ter avançado em relação aos direitos das lésbicas, com a criminalização da homofobia no estado de São Paulo, as possibilidades de adoção por casais homossexuais e de declarar imposto de renda de forma conjunta, de colocar a parceira como dependente no plano de saúde e até mesmo com uma maior representação das lésbicas nos meios de comunicação.  No entanto, a ideia de estarmos em um “momento de ascenso” é sedutora e vem sendo propagandeada pela mídia de massas como uma estratégia política com vistas a nos conformarmos com o status quo. Tem-se difundido a convicção de que não é necessário o engajamento político individual e, muito menos, coletivo na transformação da sociedade.

Essa trata-se de uma política assimilacionista que objetiva reformar o sistema capitalista e o patriarcado, cedendo, ainda que pouco, para atender às demandas das pessoas LGB e do movimento de mulheres…

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A misoginia e a lesbofobia na Política e em seus ambientes.

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Afinal, quantas vezes você já ouviu pessoas chamando a Dilma de “vadia” ou usando o termo “sapatão” para tentar ofendê-la, simplesmente por ela ser uma mulher que não se encaixa nos estereótipos atribuídos à mulheres e à “feminilidade”?

Esse texto é algo que eu sinto vontade de escrever faz um tempo e que, com a eleição se aproximando, vem se tornando mais e mais emergencial. Vou ser direta e deixar bem claro a necessidade que este pretende trazer à tona: precisamos urgentemente problematizar e lutar contra as críticas às mulheres na política que são essencialmente baseadas na misoginia e na lesbofobia.

Primeiramente, sinto a necessidade de dizer que todo governante é passível de erros. Isso inclui, sem dúvida, mulheres governantes. Independentemente da esfera na qual governam (federal, estadual ou municipal), essas mulheres, bem como qualquer governante, precisam ser cobradas pela população que representam. Elas também devem ser criticadas se cometerem erros durante seus mandatos, e tais erros devem ser lembrados durante as eleições. São os eleitores que devem decidir que erros são toleráveis e que erros não são; que pessoas eles acham que são competentes para os cargos políticos que estão concorrendo, e quais não. Não há nada de errado em não concordar com uma política só porque ela é mulher; o Governo Dilma, por exemplo, teve, SIM, várias falhas e não há nada de errado se você não conseguir simpatizar com a Presidenta ou não acreditar que ela seja a melhor opção para o nosso país. Eu não quero, com esse texto, isentar ela, ou qualquer outra mulher no meio político nacional ou mundial, de críticas.

Meu objetivo com esse texto é simplesmente apontar como, em uma sociedade patriarcal onde o poder está majoritariamente nas mãos dos homens e onde a classe masculina não se esforça em mostrar seu desgosto por mulheres poderosas , muitas das “críticas” direcionadas às mulheres governantes estão embasadas na misoginia e na lesbofobia, e em como isso é problemático e precisa urgentemente mudar.

Que o meio da política nunca foi muito receptivo às mulheres, todas nós com o mínimo de conhecimento histórico e social do patriarcado e do funcionamento deste já sabemos. Por séculos o poder mundial sempre esteve nas mãos da classe masculina, e somente depois de vários séculos desta hegemonia masculina que nós conseguimos, depois de muita luta, muito desgaste e muito sangue derramado, a chance de poder ter, também, voz sobre a política mundial.

Mas não é só porque mulheres conquistaram o direito ao voto (no Brasil, a nível de curiosidade, a conquista veio na década de 30) que elas automaticamente conseguiram espaço na política. Pelo contrário, a política continuou, por muito tempo, sendo uma “panelinha masculina”, onde mulheres raramente tinham qualquer espaço. E mesmo que eu esteja usando os verbos no passado, a situação hoje em dia ainda não é TÃO diferente de 82 anos atrás. Na verdade, o espaço das mulheres na política mundial, embora seja crescente, ainda é muito pequeno. Isto também ocorre nas esferas municipais e estaduais, e é fácil de notar quando, em um país onde 51% do eleitorado é feminino, menos da metade dos candidatos à Presidência da República são mulheres (temos 2 candidatas esse ano, o que corresponde a aproximadamente 18%). Há estados, como o Pará, onde não há sequer uma mulher candidata ao governo estadual. E, embora o número de candidatas ainda seja consideravelmente inferior ao número de candidatos, a situação poderia ser pior se não tivesse sido implantada uma lei que obriga todo partido e coligação a ter no minimo 30% e no máximo 70% de candidatos de cada gênero. A lei é importantíssima para estimular mulheres a fazerem cada vez mais parte da política, mas é preocupante saber como vários partidos colocaram mulheres como candidatas simplesmente para encher a “cota”.

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Embora sejamos mais da metade da população, a classe feminina ainda não têm o espaço que merece na política brasileira, e isso se deve a muitos fatores. Primeiro: desde cedo, mulheres não recebem incentivos para falar ou participar da política, seja como eleitoras compromissadas ou como candidatas. Socializadas para serem dóceis e amorosas, mulheres que são incisivas e que exigem seu espaço, seja este espaço político, econômico ou social, assustam o patriarcado e a classe masculina acostumada a ser “dona” de tudo, inclusive de tudo que tem a ver com força ou “pulso firme”. O quadro torna-se ainda mais assustador quando essas mulheres têm pulso firme e exigem espaço em um meio como a política, que pode lhes dar poder.

Mulheres poderosas e desteminas, não existe nada que assuste mais o patriarcado; e é justamente por isso, nosso acesso ao meio político sempre esteve limitado, independentemente do sistema político ou da época. Mas também há algo mais que afasta mulheres atualmente da política, e isto é o backlash, a reação exagerada e violenta da classe masculina a essa ascensão ao poder. A Presidenta Dilma Rousseff, por exemplo, sofre atualmente um violento backlash, carregado de misoginia e lesbofobia, como mostram os exemplos abaixo:


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(quando homens sugerem queimar mulheres simplesmente porque as consideram “vadias”, “sapatões”, porque elas não existem para satisfazê-los ou simplesmente porque elas existem, você começa a entender cada vez mais o significado da frase “somos as netas de todas as bruxas que nunca puderam queimar“)

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(nada mais misógino e patriarcal do que fazer piada com violência

doméstica, não acham?)

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(mais um pouco de ódio, misoginia e lesbofobia vinda dos “opositores” de Dilma)

 

Uma vez eu postei em meu perfil do facebook a seguinte frase, pensando em justamente incentivar a discussão acerca dos discursos misóginos usados para criticar mulheres que fazem parte da política:

“Fico me perguntando até que ponto essa raiva da Dilma é divergência política e a partir de que ponto já começa a ser influenciada pela misoginia latente presente na sociedade brasileira.”

O que eu não esperava (mas deveria ter esperado) é o gigantesco backlash que eu mesma sofri por isto, por ousar lembrar as pessoas, em especial a classe masculina, de que muitas das “críticas” que eles fazem são baseadas no ódio à classe feminina e às mulheres lésbicas. E, se eu, acostumada com debates políticos no meio virtual e com a forma agressiva que ele costuma tomar, me senti desprotegida a ponto de ter de fechar o post por semanas para esperar a “poeira baixar”… Não é difícil de imaginar que muitas mulheres desde cedo assimilem a ideia de que o meio político não é receptivo para mulheres, logo, elas não vão ter espaço ou respeito se decidirem fazer parte dele, seja como políticas ou como eleitoras informadas e questionadoras. Elas não estariam erradas: o meio político não é nada receptivo para com a classe feminina; ele tenta as silenciar e, quando não consegue, parte para a agressão clara, como nos prints que postei anteriormente. 

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“Estranho o quão limitado se torna o vocabulário masculino quando são confrontados por mulheres que são melhores que eles.”

Essas agressões pouco ou nada têm a ver com divergências políticas, embora possam, sim, ter a ver com estas. Essas agressões existem porque, como foi dito anteriormente, o patriarcado teme as mulheres poderosas e, especialmente, a forma como essas mulheres poderosas inspiram outras mulheres a também se levantarem por seus direitos, a lutarem pelo que acreditam… E, por que não, essas mulheres  também inspiram outras mulheres a também quererem tentar uma carreira na política. A classe masculina não tem interesse algum em dividir o poder, seja ele social, econômico, ideológico ou político. A classe masculina se sente afrontada quando mulheres avançam, os forçando a recuar. Não é surpresa, então, que a classe masculina seja quem normalmente lidere o backlash contra qualquer mulher que ouse adentrar esse espaço majoritariamente masculino, e esse backlash tem em tudo a ver com duas palavrinhas: vadia sapatão.

Costumo dizer que não existe mulher que nunca tenha sido alguma vez agredida com a palavra vadia ou semelhantes (como “puta”, “vagabunda”, entre outros), seja direta ou indiretamente. Vadia é um xingamento que visa justamente ofender uma mulher com base em sua vida sexual mas, além do que isso, o termo “vadia” é, também, usado frequentemente para ofender qualquer mulher que, em seus comportamentos ou em sua forma de agir, tente se assemelhar ou se assemelhe aos comportamentos esperados da classe masculina. O termo vadia tem um masculino, “vadio”, mas o sentido deste se limita a “um homem desocupado”, logo, o peso desta palavra jamais poderia ser comparado ao peso de sua “versão feminina”. 

Uma sociedade patriarcal é essencialmente falocêntrica, ou seja, é baseada na ideia da superioridade masculina, esta sendo simbolizada pelo falo. O patriarcado é adepto da ideia de que mulheres, seus corpos e mentes são moldados por falos ou homens, moldados por sua vida sexual. Mulheres então são julgadas, independentemente de terem muitas relações sexuais com machos ou não se relacionarem com eles. A mulher que, na política, ousa ser incisiva ou ter pulso forte; a mulher que faz questão de exigir seu espaço num meio como a política, então, sofre tentativas de silenciamento parecidas com as que seus companheiros de luta do sexo masculino sofreriam, mas também sofrem o backlash intimamente ligado com a misoginia, com o ódio e o silenciamento feminino, que tais companheiros parte da classe masculina jamais passariam. Um exemplo disso é como várias pessoas que são contra o PT chamam tanto o Lula quanto a Dilma de “ladrões”, mas incrivelmente, somente Dilma tem sua sexualidade questionada (talvez por não se encaixar totalmente na feminilidade, por ser divorciada ou por ser, novamente, uma liderança com poucos traços do que se espera de uma mulher patriarcal em qualquer espaço; a docilidade, a gentileza e a necessidade de agradar a todos que é esperada das mulheres) ou é duramente chamada de “mulher macho” ou de “masculina”, não por se assemelhar com indivíduos da classe masculina e da forma como eles pensam e agem social e politicamente, mas sim por ousar não se enquadrar no que a feminilidade exige de indivíduos da classe feminina. 

Simone de Beauvoir certa vez disse, “O homem é definido como ser humano e a mulher é definida como fêmea. Quando ela comporta-se como um ser humano ela é acusada de imitar o macho“. Acredito que tal frase resuma muito bem o que falei antes, sobre como toda vez que mulheres, estejam elas dentro ou fora da política, ousam desafiar os papéis que lhe foram impostos… Toda vez que mulheres ousam não se encaixar no que a feminilidade nos impõe, toda vez que elas ousam serem humanas, elas são chamadas de “mulheres macho” e são acusadas de quererem ser como os homens. Você já viu Dilma ser acusada de tal forma, e eu também já vi. É simplesmente comum, e isso ocorre porque ao macho não é somente reservada a masculinidade; a ele também pertence a neutralidade; e, ao dominá-la, a classe masculina também domina o direito de definir quem tem direito à humanidade e quem não têm, e acredite em mim, esse direito nunca nos será concedido sem dor e sem luta, simplesmente porque a classe masculina não está interessada em dividir os privilégios (afinal, se todos puderem acessar tais privilégios, eles privilégios não serão mais e sim direitos, e para a classe dominante, isso jamais é interessante). 

E é lógico que, em uma sociedade onde a mulher é marginalizada e agredida de todas as formas possíveis, bem como silenciadas e impedidas de acessarem as condições necessárias para que tivessem uma real melhora de vida, tanto de forma individual como de forma coletiva, a situação de mulheres que ousam amar outras mulheres e, acima de tudo, que se recusam a servir emocional e sexualmente à classe masculina, é ainda mais delicada e precária. Toda mulher que ousa fugir da lógica da heterossexualidade compulsiva, toda mulher que não existe em função do prazer masculino (e que não faz parte dele voluntariamente também) é marginalizada. Para piorar, existe algo ainda mais cruel que essas mulheres sofrem, e isto é o isolamento, tanto social, quanto emocional e político. Mulheres não-lésbicas são ensinadas a se distanciarem de mulheres lésbicas a todo custo, bem como são ensinadas a se distanciar dos estereótipos atribuídos à lesbianidade (e o fazem, logicamente, jogando para debaixo do ônibus mulheres lésbicas e suas existências). Quando um homem usa o termo sapatão (bem como outros termos que façam referência à lesbianidade de forma ofensiva) para se referir à uma mulher que faz parte da política, independentemente da sexualidade da mesma, ele faz isso com um único objetivo: fazer com que mulheres sintam-se impulsionadas a se distanciar desta mulher ao invés de apoiá-la e de lutar com e por ela.

É uma tática que parece seguir a ideia de “dividir para conquistar”, na verdade. Eles tocam numa ferida que nos foi aberta durante nossa socialização: essa necessidade de nos distanciarmos de toda a ideia da lesbianidade. Aliás, grande parte das mulheres lésbicas por muito tempo tiveram dificuldades de se identificarem em público como lésbicas; muitas delas ainda o tem. Se identificar abertamente como lésbica é dar a cara a tapa para uma sociedade que, além de homofóbica, é misógina. A lesbofobia é violenta, e ela não só promove violência direta como promove esse isolamento; não se pode julgar as mulheres lésbicas que ainda não se sentem prontas para lidar com tudo isso (e nem as que nunca estarão de fato prontas para lidar com tudo isso). E essa necessidade de se afastar de tudo que envolva lesbianidade e das próprias lésbicas, por ser algo que somos socializadas para sentir, exige uma mudança mais profunda na forma em que mulheres são criadas; exige a abolição dos gêneros.

A única chance de mudança real existente para nós, mulheres, e para a conquista do espaço político (e social, econômico e todos os outros espaços que historicamente nos foram negados) para a classe feminina, também se mostra a mais dolorida: para que possamos abrir caminhos para chances reais de mudança (para melhor) das condições da classe feminina, bem como a conquista de nossos merecidos espaços e da articulação da luta que precisa ser travada, da revolução que é necessária para a libertação real e completa da classe feminina como um todo, é necessário que cada vez mais mulheres abram espaço por entre o glass ceiling e tantas outras dificuldades que o Patriarcado nos coloca e que façam suas vozes serem ouvidas; precisamos, urgentemente, de mulheres corajosas para pressionar e se fazerem presentes em meios essencialmente masculinos, a política sendo o espaço mais emergência. Precisamos de mulheres marcando presença em todas as esferas de poder em nosso país; mulheres governando e desafiando a lógica patriarcal da concentração de poder na mão da classe masculina, mulheres que se comprometam em governar por e para a classe feminina e sua libertação. 

Mas, mais do que isso, a necessidade mais urgente é também a que o patriarcado mais teme que coloquemos em primeiro lugar: a união entre mulheres, a ideia de “mulheres ajudando mulheres”, a sororidade. O patriarcado é forte; somente uma grande união entre a classe feminina será forte o suficiente para embater com ele e lutar pela libertação de todas as mulheres. Precisamos nos juntas, articular nossas lutas, deixar as disputas de ego de lado e nos focar em estudar e debater como trazer nossa luta cada vez mais para o plano presencial, como usá-la para ajudar outras mulheres a terem contato com o movimento que quer lutar por e com elas, e assim criar uma unidade forte e determinada a realmente se ajudar para a conquista maior; para o fim do patriarcado e de todos os demais sistemas que oprimem e limitam, direta ou indiretamente, a classe feminina. 

“As mulheres são como águas, crescem quando se encontram.”

Se a existência de uma ou de algumas mulheres no poder já incomoda tanto o patriarcado e a classe privilegiada masculina, vocês conseguem imaginar o quão poderosa seria a existência de várias mulheres fortes e poderosas, governando em conjunto e lutando pela e com a classe feminina? Mulheres, juntas, lutando em conjunto para o bem da classe feminina? Uma visão poderosa, sem dúvida. Poderosa e revolucionária.

Free Palestine is a Feminist Issue

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“I was more than terrified,” [Sena Alissa] says while holding her newborn baby girl in a bed in Gaza City’s struggling al-Shifa hospital, 20 minutes from Nuseirat. “I’m giving birth in war.” (source)

The latest Israeli attack on occupied Palestine in the form of an ongoing military assault on the people living in the Gaza Strip has made an already unbearable situation much more devastating.  Women, children, and elders represent themajority of the hundreds of people who have lost their lives.  The assaults are a form of reproductive violence by creatingconditions that increase miscarriages, pre-term labor, and stillbirths.  Israel is currently targeting sewage systems, worsening an existing water crisis created by the Israel blockade of supplies to Gaza, and depriving hundreds of thousands of Gaza residents of clean water.  Free Palestine is, and always has been, a feminist issue.

People around the world are mobilizing direct…

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