Nossos corpos são parte desta terra: sobre descolonização e o amor próprio radical para mulheres indígenas

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Este texto é uma tradução e uma adaptação de um texto chamado Our bodies are of this land: Decolonization and Indigenous women’s radical self-love, de autoria de Samantha Nock,  feminista indígena, parte da tribo Métis. Ela é graduada pela Universidade de British Columbia e tem bacharelado em “First Nations Studies”.

Eu sempre me senti impressionada com a beleza natural desta terra. Eu cresci admirando os rios e as luzes do norte. Eu estive me senti em êxtase com a elegância tranquila das árvores cobertas de neve. Fui criada em um lugar onde a paisagem deixa pessoas sem fôlego e sem palavras.

E mesmo tendo sido criada em um lugar onde fui incentivada a admirar a beleza da terra, nunca fui incentivada a admirar minha própria beleza. Em vez disso, graças à uma mídia insidiosa e seu apoio esmagador aos padrões de beleza brancos e ocidentais que sempre favoreceram as mulheres brancas e magras, fui criada para tentar seguir padrões impossíveis, formas impossíveis de se atingir esses objetivos. Eu herdei muitas coisas bonitas de minha mãe, sendo uma dessas coisas a impossibilidade de se adequar à essas normas de beleza. Quando se nasce baixinha, robusta e vesga dificulta muito para que você consiga realmente conseguir se ver como uma pessoa bonita. Eu ainda tenho problemas com isso.

Esta luta para que eu conseguisse me aceitar como sou também sempre teve muito a ver com o fato de eu ser Métis. Eu costumava pensar: “se eu pelo menos tivesse dois pais brancos… se eu pelo menos… eu talvez, quem sabe… não seria desse jeito. Não seria assim”.  Lutei comigo mesma intensamente durante toda a minha adolescência. Eu tinha me convencido e fui convencida por outros que minha indianidade era uma maldição, era algo de que eu deveria ter vergonha, foi fator determinante na minha “notável feiura”. Sendo eu mestiça, sempre me senti presa à um paradigma: eu não era indígena o suficiente para ser bonita nem branca o suficiente para ser bonita. Este padrão arbitrário de beleza no qual eu me guiava, que ainda permeia minha mente nos dias em que não me sinto forte o suficiente para combatê-lo, está profundamente enraizado na colonização e age como uma forma de perpetuar uma mentalidade colonial insalubre.

Venho tentando pensar em uma forma de  corrigir este pensamento. Como eu posso tornar o ato de amar a mim mesma uma parte normal da minha práxis decolonizadora? Para mim, a descolonização começa e termina com a terra, tudo está ligado à terra – como tratamos uns aos outros, como nos organizamos politicamente, como nos sustentamos como povos indígenas… tudo isso está ligado à terra. Seguindo o mesmo raciocínio, meu amor próprio, como uma mulher Métis, está ligado à terra também. Minhas curvas são como colinas verdejantes, minhas estrias são desfiladeiros, meus machucados são como as luzes do norte e as minhas veias são rios: eu sou bela como esta terra da qual eu venho e à qual pertenço.

Esta terra é maravilhosa e nós somos também. Se podemos parar para apreciar o pôr do sol e os picos das montanhas, podemos também parar para nos olhar no espelho todas as manhãs e apreciar as curvas de nossos corpos. Precisamos, como mulheres indígenas mas acima de tudo como mulher, praticar o “amor próprio radical”. Precisamos nos amar da mesma maneira que nós amamos esta terra. Nossos corpos são profundamente falhos, imperfeitos e de tirar o fôlego – como esta terra. Nossos corpos são território soberano como nossos Nações, nossos corpos são as casas nas quais temos para viver e com as quais temos que conviver. Muitas vezes nos sentimos deslocadas, descontentes e consternadas com de onde viemos, mas nós amamos isso – profunda e intrinsecamente. Amar a nós mesmas não é algo que pode fazer de forma simples, é um processo trabalhoso. É um trabalho de descolonização e é um trabalho que não podemos fazer sozinhas: precisamos de apoio e precisamos apoiar umas às outras.

Luto todos os dias para me amar. Eu sei que todas nós o fazemos. Mas, quando tudo se torna difícil e vêm dias ou eu mal consigo encarar-me no espelho, eu me lembro que nós existimos por causa do amor de nossos antepassados. Nossos corpos estão comprometidos com histórias mais antigas do que o tempo, o nosso sangue e os nossos ossos são desta terra, parte dela.

Mesmo se existirem dias em que eu não consiga enxergar a beleza em mim mesma, eu ainda irei ter consciência, sendo tão imperfeita como eu sou, eu estou aqui e sou apoiada por aqueles que me amaram para que eu existisse. Dentro desse acúmulo insuperável de amor, pela terra e pelas pessoas, eu encontro o suficiente para eu começar a me amar novamente.

A dor da existência e a existência da dor

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Eu ainda estou sobrevivendo…

Dizem que, quando você encontra um animal abandonado, você não deve dar nome para ele se não quiser se apegar. Nomear as coisas é torná-las mais do que “coisas”; normalmente é dar-lhes identidade, significado.

A dor que atinge uma mulher feminista é, normalmente, a mesma dor que lhe atingia antes de ser feminista. É a mesma violência, é a mesma opressão. Porém, essas mulheres, TODAS NÓS, nascemos e crescemos neste ambiente patriarcal. Nós nos acostumamos, aprendemos a achar normal. Por vezes sequer percebemos. É algo NATURALIZADO.

Quando uma mulher começa a ter contato com o feminismo, é normal o choque inicial. Parece surreal ler sobre objetificação, sobre violência emocional, sobre padrões de beleza, sobre feminilidade, sobre heterossexualidade compulsória, sobre jornada tripla, sobre violência obstétrica, sobre estupro, sobre relacionamentos abusivos, sobre misoginia. Passado o choque inicial, parece que quanto mais se lê e mais se envolve com o feminismo, mais tudo aquilo parece fazer sentido. Porque, para uma mulher feminismo nunca acaba somente em teorias: aquelas teorias são comprovadas pelo que vivenciamos todos os dias. Nós, então, começamos a reconhecer o que lemos e aprendemos nas nuances e em várias, senão todas as situações de nossa vida cotidiana.

Quando você enfim começa a notar essas opressões, quando você as nomeia… Você se permite sair da bolha. Você se permite sentir as dores sem nenhum tipo de anestesia ou névoa lhe cegando (ou ao menos, com menos dessa tal névoa). E o baque é duro, é dolorido. É impossível não começar a se sentir mal quando começamos a conseguir identificar pequenas violências, naturalização de preconceitos, piadas ofensivas, misoginia internalizada, propagação de padrões de beleza, relações abusivas…

De repente, nos tornamos as amigas chatas. Não sabemos mais brincar, não temos mais senso de humor. De repente, somos as exageradas. As grossas. As impacientes. De repente, perdemos amizades. Perdemos contato com pessoas que antes gostávamos. De repente, nos vemos desfazendo velhas amizades pois percebemos naqueles homens a misoginia, o preconceito, a agressividade.

E então, quanto nos sentimos uma ilha é normalmente quando percebemos que somos, que sabe, um arquipélago. Não estamos sozinhas: temos nossas irmãs conosco. E embora existam divergências, existam brigas, desavenças… Embora intrigas não faltem… Eu me orgulho de, ainda assim, ainda acreditar no poder dessa coisa chamada amizade feminina. Nessa coisa chamada sororidade.

Não que eu veja sororidade da mesma forma sem restrições que eu via tempos atrás. Acho que sororidade não é amar todas as mulheres nem passar a mão na cabeça delas. Acho que tem mais a ver com a ideia de criar laços com mulheres de cooperação, de amizade quem sabe… laços que o patriarcado nos ensinou que são fúteis e frágeis. É também articular uma luta de mulheres e pelas mulheres, é essa luta conjunta. E eu vejo como isso é fundamental para manter nossa sanidade quando começamos a enxergar o mundo sem o véu que o patriarcado nos ensina a usar; quando começamos a nomear as opressões e, consequentemente, notá-las.

As vezes, contudo, aquilo se torna simplesmente demais. Sentimo-nos fracas e cansadas, as nossas forças esvaziadas. As amigas estão brigando, o patriarcado atacando e a gente sente falta, mesmo que por apenas um segundo, da “inocência” de quando não éramos feministas.

Viver num mundo patriarcal parece mais fácil quando não temos completa noção de que nele vivemos. O que a gente esquece, contudo, é que por essa “comodidade” que essa inocência nos dá nós pagamos caro porque nós somos obrigadas a nos curvar. Ser pisada não é menos dolorido se não vermos o pé que nos pisa. Sabendo quem nos ataca e como o faz, podemos nos juntar, articular, lutar. Lutar pela liberdade, pela integridade, pela voz, pelos direitos e pela vida das mulheres.

Muitas vezes também, nos revoltamos com mulheres que recusam ter contato com o feminismo; o que esquecemos é o quanto esse primeiro contato é chocante e o quão dolorido é nosso processo de “imersão” no meio feminista, de todos os altos e baixos, toda a dor de repente clara, todo o choro e a bagunça na forma que vemos o mundo. Não podemos julgar as mulheres que não sentem vontade de imergirem num meio assim, mesmo que ele lute, também, por ela.

A maioria de nós, contudo, não pode se dar ao luxo de viver longe de tudo isso. Para a mulher numa posição socialmente “confortável”, é mais fácil. Mas a mulher negra, periférica, indígena, lésbica… Essas mulheres estão na linha de frente, elas são socialmente alvos fáceis.

Essas mulheres não podem se isolar dessa realidade tão facilmente como a mulher branca heterossexual de classe média. Quando dizemos que o movimento feminista precisa ser, especialmente, focado nas vivências dessas mulheres, é porque este precisa ser um movimento que foque em empoderar e apoiar todas as mulheres, especialmente as mulheres em situações mais delicadas e que estão socialmente mais expostas.

A vida da mulher não é mais fácil simplesmente por ela não enxergar sua opressão; no máximo é mais tolerável, fácil de engolir. Notar cada detalhe da forma como a opressão funciona é por várias vezes dolorido, mas isso também é o que nos faz entender como nossa luta deve caminhar.

Claro que a mulher mais engajada nessa luta tem uma maior tendência a sentir-se só e exposta; ela está, querendo ou não, desafiando o patriarcado e a classe masculina. Se for negra, também está desafiando a supremacia branca. Se é indígena, desafia o colonialismo. Se é lésbica, desafia o falo e o heterocentrismo. Desafios, desafios.

Para algumas de nós, todos os dias têm desafios. Para outras, viver em si é um desafio. No fim, não há escapatória. A classe feminina é, querendo ou não, forte simplesmente por existir. Qualquer mulher que ouse cruzar a linha, que ouse se rebelar contra a opressão, que ouse não apenas existir por existir mas dedicar sua existência à luta contra essa opressão e todo o sistema que a sustenta, é de uma força descomunal. É guerreira, subversiva.

Conheça ela essa força que carrega ou não.

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