A dor da existência e a existência da dor

tumblr_mv3c76ZSR11rcdt08o1_500

Eu ainda estou sobrevivendo…

Dizem que, quando você encontra um animal abandonado, você não deve dar nome para ele se não quiser se apegar. Nomear as coisas é torná-las mais do que “coisas”; normalmente é dar-lhes identidade, significado.

A dor que atinge uma mulher feminista é, normalmente, a mesma dor que lhe atingia antes de ser feminista. É a mesma violência, é a mesma opressão. Porém, essas mulheres, TODAS NÓS, nascemos e crescemos neste ambiente patriarcal. Nós nos acostumamos, aprendemos a achar normal. Por vezes sequer percebemos. É algo NATURALIZADO.

Quando uma mulher começa a ter contato com o feminismo, é normal o choque inicial. Parece surreal ler sobre objetificação, sobre violência emocional, sobre padrões de beleza, sobre feminilidade, sobre heterossexualidade compulsória, sobre jornada tripla, sobre violência obstétrica, sobre estupro, sobre relacionamentos abusivos, sobre misoginia. Passado o choque inicial, parece que quanto mais se lê e mais se envolve com o feminismo, mais tudo aquilo parece fazer sentido. Porque, para uma mulher feminismo nunca acaba somente em teorias: aquelas teorias são comprovadas pelo que vivenciamos todos os dias. Nós, então, começamos a reconhecer o que lemos e aprendemos nas nuances e em várias, senão todas as situações de nossa vida cotidiana.

Quando você enfim começa a notar essas opressões, quando você as nomeia… Você se permite sair da bolha. Você se permite sentir as dores sem nenhum tipo de anestesia ou névoa lhe cegando (ou ao menos, com menos dessa tal névoa). E o baque é duro, é dolorido. É impossível não começar a se sentir mal quando começamos a conseguir identificar pequenas violências, naturalização de preconceitos, piadas ofensivas, misoginia internalizada, propagação de padrões de beleza, relações abusivas…

De repente, nos tornamos as amigas chatas. Não sabemos mais brincar, não temos mais senso de humor. De repente, somos as exageradas. As grossas. As impacientes. De repente, perdemos amizades. Perdemos contato com pessoas que antes gostávamos. De repente, nos vemos desfazendo velhas amizades pois percebemos naqueles homens a misoginia, o preconceito, a agressividade.

E então, quanto nos sentimos uma ilha é normalmente quando percebemos que somos, que sabe, um arquipélago. Não estamos sozinhas: temos nossas irmãs conosco. E embora existam divergências, existam brigas, desavenças… Embora intrigas não faltem… Eu me orgulho de, ainda assim, ainda acreditar no poder dessa coisa chamada amizade feminina. Nessa coisa chamada sororidade.

Não que eu veja sororidade da mesma forma sem restrições que eu via tempos atrás. Acho que sororidade não é amar todas as mulheres nem passar a mão na cabeça delas. Acho que tem mais a ver com a ideia de criar laços com mulheres de cooperação, de amizade quem sabe… laços que o patriarcado nos ensinou que são fúteis e frágeis. É também articular uma luta de mulheres e pelas mulheres, é essa luta conjunta. E eu vejo como isso é fundamental para manter nossa sanidade quando começamos a enxergar o mundo sem o véu que o patriarcado nos ensina a usar; quando começamos a nomear as opressões e, consequentemente, notá-las.

As vezes, contudo, aquilo se torna simplesmente demais. Sentimo-nos fracas e cansadas, as nossas forças esvaziadas. As amigas estão brigando, o patriarcado atacando e a gente sente falta, mesmo que por apenas um segundo, da “inocência” de quando não éramos feministas.

Viver num mundo patriarcal parece mais fácil quando não temos completa noção de que nele vivemos. O que a gente esquece, contudo, é que por essa “comodidade” que essa inocência nos dá nós pagamos caro porque nós somos obrigadas a nos curvar. Ser pisada não é menos dolorido se não vermos o pé que nos pisa. Sabendo quem nos ataca e como o faz, podemos nos juntar, articular, lutar. Lutar pela liberdade, pela integridade, pela voz, pelos direitos e pela vida das mulheres.

Muitas vezes também, nos revoltamos com mulheres que recusam ter contato com o feminismo; o que esquecemos é o quanto esse primeiro contato é chocante e o quão dolorido é nosso processo de “imersão” no meio feminista, de todos os altos e baixos, toda a dor de repente clara, todo o choro e a bagunça na forma que vemos o mundo. Não podemos julgar as mulheres que não sentem vontade de imergirem num meio assim, mesmo que ele lute, também, por ela.

A maioria de nós, contudo, não pode se dar ao luxo de viver longe de tudo isso. Para a mulher numa posição socialmente “confortável”, é mais fácil. Mas a mulher negra, periférica, indígena, lésbica… Essas mulheres estão na linha de frente, elas são socialmente alvos fáceis.

Essas mulheres não podem se isolar dessa realidade tão facilmente como a mulher branca heterossexual de classe média. Quando dizemos que o movimento feminista precisa ser, especialmente, focado nas vivências dessas mulheres, é porque este precisa ser um movimento que foque em empoderar e apoiar todas as mulheres, especialmente as mulheres em situações mais delicadas e que estão socialmente mais expostas.

A vida da mulher não é mais fácil simplesmente por ela não enxergar sua opressão; no máximo é mais tolerável, fácil de engolir. Notar cada detalhe da forma como a opressão funciona é por várias vezes dolorido, mas isso também é o que nos faz entender como nossa luta deve caminhar.

Claro que a mulher mais engajada nessa luta tem uma maior tendência a sentir-se só e exposta; ela está, querendo ou não, desafiando o patriarcado e a classe masculina. Se for negra, também está desafiando a supremacia branca. Se é indígena, desafia o colonialismo. Se é lésbica, desafia o falo e o heterocentrismo. Desafios, desafios.

Para algumas de nós, todos os dias têm desafios. Para outras, viver em si é um desafio. No fim, não há escapatória. A classe feminina é, querendo ou não, forte simplesmente por existir. Qualquer mulher que ouse cruzar a linha, que ouse se rebelar contra a opressão, que ouse não apenas existir por existir mas dedicar sua existência à luta contra essa opressão e todo o sistema que a sustenta, é de uma força descomunal. É guerreira, subversiva.

Conheça ela essa força que carrega ou não.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: