(tradução) De onde vem a sua mordaça? BDSM é a erotização de torturas antigas.

Nosotras, las Brujas

ALERTA: racismo sexualizado + misoginia, escravidão.
Publicado originalmente em: http://gynocraticgrrl.tumblr.com/post/38099240634/where-your-gag-comes-from

Aparentemente, para algumas pessoas (na maioria das vezes brancas, na minha experiência**), é difícil compreender que a cultura do fetiche do BDSM está ligado com o racismo e com a misoginia, particularmente na sexualização das praticas de tortura contra mulheres negras.  Isso se tornou claro para mim durante os meses que fiquei comparando as semelhanças sinistras entre a dinâmica mestre/escravo, da cultura do BDSM, e a dinâmica mestre/escravo que foi muito praticada através de papéis de gênero patriarcais entre homens e mulheres, assim como na escravidão… que muitas pessoas fazem um esforço para traçar paralelos entre as técnicas de tortura que escravos foram submetidos a e os métodos de punição da cultura do BDSM. Desde as chicotadas até as mordaças.

Disseram-me, baseado na confusa recepção desse argumento, que eu precisaria apresentar imagens. Essa postagem contém imagens e ilustrações que podem…

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Pelo Fim da Violência contra as Mulheres Lésbicas, Queremos o Fim do Patriarcado!

Coletiva Feminista Radical Manas Chicas

Nos últimos anos, o Brasil aparentou ter avançado em relação aos direitos das lésbicas, com a criminalização da homofobia no estado de São Paulo, as possibilidades de adoção por casais homossexuais e de declarar imposto de renda de forma conjunta, de colocar a parceira como dependente no plano de saúde e até mesmo com uma maior representação das lésbicas nos meios de comunicação.  No entanto, a ideia de estarmos em um “momento de ascenso” é sedutora e vem sendo propagandeada pela mídia de massas como uma estratégia política com vistas a nos conformarmos com o status quo. Tem-se difundido a convicção de que não é necessário o engajamento político individual e, muito menos, coletivo na transformação da sociedade.

Essa trata-se de uma política assimilacionista que objetiva reformar o sistema capitalista e o patriarcado, cedendo, ainda que pouco, para atender às demandas das pessoas LGB e do movimento de mulheres…

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A misoginia e a lesbofobia na Política e em seus ambientes.

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Afinal, quantas vezes você já ouviu pessoas chamando a Dilma de “vadia” ou usando o termo “sapatão” para tentar ofendê-la, simplesmente por ela ser uma mulher que não se encaixa nos estereótipos atribuídos à mulheres e à “feminilidade”?

Esse texto é algo que eu sinto vontade de escrever faz um tempo e que, com a eleição se aproximando, vem se tornando mais e mais emergencial. Vou ser direta e deixar bem claro a necessidade que este pretende trazer à tona: precisamos urgentemente problematizar e lutar contra as críticas às mulheres na política que são essencialmente baseadas na misoginia e na lesbofobia.

Primeiramente, sinto a necessidade de dizer que todo governante é passível de erros. Isso inclui, sem dúvida, mulheres governantes. Independentemente da esfera na qual governam (federal, estadual ou municipal), essas mulheres, bem como qualquer governante, precisam ser cobradas pela população que representam. Elas também devem ser criticadas se cometerem erros durante seus mandatos, e tais erros devem ser lembrados durante as eleições. São os eleitores que devem decidir que erros são toleráveis e que erros não são; que pessoas eles acham que são competentes para os cargos políticos que estão concorrendo, e quais não. Não há nada de errado em não concordar com uma política só porque ela é mulher; o Governo Dilma, por exemplo, teve, SIM, várias falhas e não há nada de errado se você não conseguir simpatizar com a Presidenta ou não acreditar que ela seja a melhor opção para o nosso país. Eu não quero, com esse texto, isentar ela, ou qualquer outra mulher no meio político nacional ou mundial, de críticas.

Meu objetivo com esse texto é simplesmente apontar como, em uma sociedade patriarcal onde o poder está majoritariamente nas mãos dos homens e onde a classe masculina não se esforça em mostrar seu desgosto por mulheres poderosas , muitas das “críticas” direcionadas às mulheres governantes estão embasadas na misoginia e na lesbofobia, e em como isso é problemático e precisa urgentemente mudar.

Que o meio da política nunca foi muito receptivo às mulheres, todas nós com o mínimo de conhecimento histórico e social do patriarcado e do funcionamento deste já sabemos. Por séculos o poder mundial sempre esteve nas mãos da classe masculina, e somente depois de vários séculos desta hegemonia masculina que nós conseguimos, depois de muita luta, muito desgaste e muito sangue derramado, a chance de poder ter, também, voz sobre a política mundial.

Mas não é só porque mulheres conquistaram o direito ao voto (no Brasil, a nível de curiosidade, a conquista veio na década de 30) que elas automaticamente conseguiram espaço na política. Pelo contrário, a política continuou, por muito tempo, sendo uma “panelinha masculina”, onde mulheres raramente tinham qualquer espaço. E mesmo que eu esteja usando os verbos no passado, a situação hoje em dia ainda não é TÃO diferente de 82 anos atrás. Na verdade, o espaço das mulheres na política mundial, embora seja crescente, ainda é muito pequeno. Isto também ocorre nas esferas municipais e estaduais, e é fácil de notar quando, em um país onde 51% do eleitorado é feminino, menos da metade dos candidatos à Presidência da República são mulheres (temos 2 candidatas esse ano, o que corresponde a aproximadamente 18%). Há estados, como o Pará, onde não há sequer uma mulher candidata ao governo estadual. E, embora o número de candidatas ainda seja consideravelmente inferior ao número de candidatos, a situação poderia ser pior se não tivesse sido implantada uma lei que obriga todo partido e coligação a ter no minimo 30% e no máximo 70% de candidatos de cada gênero. A lei é importantíssima para estimular mulheres a fazerem cada vez mais parte da política, mas é preocupante saber como vários partidos colocaram mulheres como candidatas simplesmente para encher a “cota”.

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Embora sejamos mais da metade da população, a classe feminina ainda não têm o espaço que merece na política brasileira, e isso se deve a muitos fatores. Primeiro: desde cedo, mulheres não recebem incentivos para falar ou participar da política, seja como eleitoras compromissadas ou como candidatas. Socializadas para serem dóceis e amorosas, mulheres que são incisivas e que exigem seu espaço, seja este espaço político, econômico ou social, assustam o patriarcado e a classe masculina acostumada a ser “dona” de tudo, inclusive de tudo que tem a ver com força ou “pulso firme”. O quadro torna-se ainda mais assustador quando essas mulheres têm pulso firme e exigem espaço em um meio como a política, que pode lhes dar poder.

Mulheres poderosas e desteminas, não existe nada que assuste mais o patriarcado; e é justamente por isso, nosso acesso ao meio político sempre esteve limitado, independentemente do sistema político ou da época. Mas também há algo mais que afasta mulheres atualmente da política, e isto é o backlash, a reação exagerada e violenta da classe masculina a essa ascensão ao poder. A Presidenta Dilma Rousseff, por exemplo, sofre atualmente um violento backlash, carregado de misoginia e lesbofobia, como mostram os exemplos abaixo:


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(quando homens sugerem queimar mulheres simplesmente porque as consideram “vadias”, “sapatões”, porque elas não existem para satisfazê-los ou simplesmente porque elas existem, você começa a entender cada vez mais o significado da frase “somos as netas de todas as bruxas que nunca puderam queimar“)

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(nada mais misógino e patriarcal do que fazer piada com violência

doméstica, não acham?)

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(mais um pouco de ódio, misoginia e lesbofobia vinda dos “opositores” de Dilma)

 

Uma vez eu postei em meu perfil do facebook a seguinte frase, pensando em justamente incentivar a discussão acerca dos discursos misóginos usados para criticar mulheres que fazem parte da política:

“Fico me perguntando até que ponto essa raiva da Dilma é divergência política e a partir de que ponto já começa a ser influenciada pela misoginia latente presente na sociedade brasileira.”

O que eu não esperava (mas deveria ter esperado) é o gigantesco backlash que eu mesma sofri por isto, por ousar lembrar as pessoas, em especial a classe masculina, de que muitas das “críticas” que eles fazem são baseadas no ódio à classe feminina e às mulheres lésbicas. E, se eu, acostumada com debates políticos no meio virtual e com a forma agressiva que ele costuma tomar, me senti desprotegida a ponto de ter de fechar o post por semanas para esperar a “poeira baixar”… Não é difícil de imaginar que muitas mulheres desde cedo assimilem a ideia de que o meio político não é receptivo para mulheres, logo, elas não vão ter espaço ou respeito se decidirem fazer parte dele, seja como políticas ou como eleitoras informadas e questionadoras. Elas não estariam erradas: o meio político não é nada receptivo para com a classe feminina; ele tenta as silenciar e, quando não consegue, parte para a agressão clara, como nos prints que postei anteriormente. 

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“Estranho o quão limitado se torna o vocabulário masculino quando são confrontados por mulheres que são melhores que eles.”

Essas agressões pouco ou nada têm a ver com divergências políticas, embora possam, sim, ter a ver com estas. Essas agressões existem porque, como foi dito anteriormente, o patriarcado teme as mulheres poderosas e, especialmente, a forma como essas mulheres poderosas inspiram outras mulheres a também se levantarem por seus direitos, a lutarem pelo que acreditam… E, por que não, essas mulheres  também inspiram outras mulheres a também quererem tentar uma carreira na política. A classe masculina não tem interesse algum em dividir o poder, seja ele social, econômico, ideológico ou político. A classe masculina se sente afrontada quando mulheres avançam, os forçando a recuar. Não é surpresa, então, que a classe masculina seja quem normalmente lidere o backlash contra qualquer mulher que ouse adentrar esse espaço majoritariamente masculino, e esse backlash tem em tudo a ver com duas palavrinhas: vadia sapatão.

Costumo dizer que não existe mulher que nunca tenha sido alguma vez agredida com a palavra vadia ou semelhantes (como “puta”, “vagabunda”, entre outros), seja direta ou indiretamente. Vadia é um xingamento que visa justamente ofender uma mulher com base em sua vida sexual mas, além do que isso, o termo “vadia” é, também, usado frequentemente para ofender qualquer mulher que, em seus comportamentos ou em sua forma de agir, tente se assemelhar ou se assemelhe aos comportamentos esperados da classe masculina. O termo vadia tem um masculino, “vadio”, mas o sentido deste se limita a “um homem desocupado”, logo, o peso desta palavra jamais poderia ser comparado ao peso de sua “versão feminina”. 

Uma sociedade patriarcal é essencialmente falocêntrica, ou seja, é baseada na ideia da superioridade masculina, esta sendo simbolizada pelo falo. O patriarcado é adepto da ideia de que mulheres, seus corpos e mentes são moldados por falos ou homens, moldados por sua vida sexual. Mulheres então são julgadas, independentemente de terem muitas relações sexuais com machos ou não se relacionarem com eles. A mulher que, na política, ousa ser incisiva ou ter pulso forte; a mulher que faz questão de exigir seu espaço num meio como a política, então, sofre tentativas de silenciamento parecidas com as que seus companheiros de luta do sexo masculino sofreriam, mas também sofrem o backlash intimamente ligado com a misoginia, com o ódio e o silenciamento feminino, que tais companheiros parte da classe masculina jamais passariam. Um exemplo disso é como várias pessoas que são contra o PT chamam tanto o Lula quanto a Dilma de “ladrões”, mas incrivelmente, somente Dilma tem sua sexualidade questionada (talvez por não se encaixar totalmente na feminilidade, por ser divorciada ou por ser, novamente, uma liderança com poucos traços do que se espera de uma mulher patriarcal em qualquer espaço; a docilidade, a gentileza e a necessidade de agradar a todos que é esperada das mulheres) ou é duramente chamada de “mulher macho” ou de “masculina”, não por se assemelhar com indivíduos da classe masculina e da forma como eles pensam e agem social e politicamente, mas sim por ousar não se enquadrar no que a feminilidade exige de indivíduos da classe feminina. 

Simone de Beauvoir certa vez disse, “O homem é definido como ser humano e a mulher é definida como fêmea. Quando ela comporta-se como um ser humano ela é acusada de imitar o macho“. Acredito que tal frase resuma muito bem o que falei antes, sobre como toda vez que mulheres, estejam elas dentro ou fora da política, ousam desafiar os papéis que lhe foram impostos… Toda vez que mulheres ousam não se encaixar no que a feminilidade nos impõe, toda vez que elas ousam serem humanas, elas são chamadas de “mulheres macho” e são acusadas de quererem ser como os homens. Você já viu Dilma ser acusada de tal forma, e eu também já vi. É simplesmente comum, e isso ocorre porque ao macho não é somente reservada a masculinidade; a ele também pertence a neutralidade; e, ao dominá-la, a classe masculina também domina o direito de definir quem tem direito à humanidade e quem não têm, e acredite em mim, esse direito nunca nos será concedido sem dor e sem luta, simplesmente porque a classe masculina não está interessada em dividir os privilégios (afinal, se todos puderem acessar tais privilégios, eles privilégios não serão mais e sim direitos, e para a classe dominante, isso jamais é interessante). 

E é lógico que, em uma sociedade onde a mulher é marginalizada e agredida de todas as formas possíveis, bem como silenciadas e impedidas de acessarem as condições necessárias para que tivessem uma real melhora de vida, tanto de forma individual como de forma coletiva, a situação de mulheres que ousam amar outras mulheres e, acima de tudo, que se recusam a servir emocional e sexualmente à classe masculina, é ainda mais delicada e precária. Toda mulher que ousa fugir da lógica da heterossexualidade compulsiva, toda mulher que não existe em função do prazer masculino (e que não faz parte dele voluntariamente também) é marginalizada. Para piorar, existe algo ainda mais cruel que essas mulheres sofrem, e isto é o isolamento, tanto social, quanto emocional e político. Mulheres não-lésbicas são ensinadas a se distanciarem de mulheres lésbicas a todo custo, bem como são ensinadas a se distanciar dos estereótipos atribuídos à lesbianidade (e o fazem, logicamente, jogando para debaixo do ônibus mulheres lésbicas e suas existências). Quando um homem usa o termo sapatão (bem como outros termos que façam referência à lesbianidade de forma ofensiva) para se referir à uma mulher que faz parte da política, independentemente da sexualidade da mesma, ele faz isso com um único objetivo: fazer com que mulheres sintam-se impulsionadas a se distanciar desta mulher ao invés de apoiá-la e de lutar com e por ela.

É uma tática que parece seguir a ideia de “dividir para conquistar”, na verdade. Eles tocam numa ferida que nos foi aberta durante nossa socialização: essa necessidade de nos distanciarmos de toda a ideia da lesbianidade. Aliás, grande parte das mulheres lésbicas por muito tempo tiveram dificuldades de se identificarem em público como lésbicas; muitas delas ainda o tem. Se identificar abertamente como lésbica é dar a cara a tapa para uma sociedade que, além de homofóbica, é misógina. A lesbofobia é violenta, e ela não só promove violência direta como promove esse isolamento; não se pode julgar as mulheres lésbicas que ainda não se sentem prontas para lidar com tudo isso (e nem as que nunca estarão de fato prontas para lidar com tudo isso). E essa necessidade de se afastar de tudo que envolva lesbianidade e das próprias lésbicas, por ser algo que somos socializadas para sentir, exige uma mudança mais profunda na forma em que mulheres são criadas; exige a abolição dos gêneros.

A única chance de mudança real existente para nós, mulheres, e para a conquista do espaço político (e social, econômico e todos os outros espaços que historicamente nos foram negados) para a classe feminina, também se mostra a mais dolorida: para que possamos abrir caminhos para chances reais de mudança (para melhor) das condições da classe feminina, bem como a conquista de nossos merecidos espaços e da articulação da luta que precisa ser travada, da revolução que é necessária para a libertação real e completa da classe feminina como um todo, é necessário que cada vez mais mulheres abram espaço por entre o glass ceiling e tantas outras dificuldades que o Patriarcado nos coloca e que façam suas vozes serem ouvidas; precisamos, urgentemente, de mulheres corajosas para pressionar e se fazerem presentes em meios essencialmente masculinos, a política sendo o espaço mais emergência. Precisamos de mulheres marcando presença em todas as esferas de poder em nosso país; mulheres governando e desafiando a lógica patriarcal da concentração de poder na mão da classe masculina, mulheres que se comprometam em governar por e para a classe feminina e sua libertação. 

Mas, mais do que isso, a necessidade mais urgente é também a que o patriarcado mais teme que coloquemos em primeiro lugar: a união entre mulheres, a ideia de “mulheres ajudando mulheres”, a sororidade. O patriarcado é forte; somente uma grande união entre a classe feminina será forte o suficiente para embater com ele e lutar pela libertação de todas as mulheres. Precisamos nos juntas, articular nossas lutas, deixar as disputas de ego de lado e nos focar em estudar e debater como trazer nossa luta cada vez mais para o plano presencial, como usá-la para ajudar outras mulheres a terem contato com o movimento que quer lutar por e com elas, e assim criar uma unidade forte e determinada a realmente se ajudar para a conquista maior; para o fim do patriarcado e de todos os demais sistemas que oprimem e limitam, direta ou indiretamente, a classe feminina. 

“As mulheres são como águas, crescem quando se encontram.”

Se a existência de uma ou de algumas mulheres no poder já incomoda tanto o patriarcado e a classe privilegiada masculina, vocês conseguem imaginar o quão poderosa seria a existência de várias mulheres fortes e poderosas, governando em conjunto e lutando pela e com a classe feminina? Mulheres, juntas, lutando em conjunto para o bem da classe feminina? Uma visão poderosa, sem dúvida. Poderosa e revolucionária.

Free Palestine is a Feminist Issue

INCITE! Blog

“I was more than terrified,” [Sena Alissa] says while holding her newborn baby girl in a bed in Gaza City’s struggling al-Shifa hospital, 20 minutes from Nuseirat. “I’m giving birth in war.” (source)

The latest Israeli attack on occupied Palestine in the form of an ongoing military assault on the people living in the Gaza Strip has made an already unbearable situation much more devastating.  Women, children, and elders represent themajority of the hundreds of people who have lost their lives.  The assaults are a form of reproductive violence by creatingconditions that increase miscarriages, pre-term labor, and stillbirths.  Israel is currently targeting sewage systems, worsening an existing water crisis created by the Israel blockade of supplies to Gaza, and depriving hundreds of thousands of Gaza residents of clean water.  Free Palestine is, and always has been, a feminist issue.

People around the world are mobilizing direct…

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Por que o feminismo radical é acusado de ser conivente com a “transfobia”?

Porque, aparentemente, polêmica pouca é bobagem

Não é novidade para ninguém, atualmente, que o feminismo radical é incessantemente acusado de promover ou ser conivente com a transfobia, simplesmente porque esta vertente feminista tem uma visão diferente acerca da definição de gêneros e do peso social que a socialização tem na existência social de alguém.

Como feminista radical, acredito que falo por todo o movimento quando digo que nós jamais vamos apoiar ou incentivar qualquer tipo de desumanização ou violência contra ninguém, incluindo pessoas que se identificam como trans. Somos a favor dos direitos humanos e acreditamos que eles devem ser como na teoria são: universais. Feministas radicais em momento algum vão incentivar a agressão ou a violência contra nenhum tipo de pessoa.

Discordar de alguém, contudo, não é uma forma de violência. Isso é, aliás, um conceito deturpado com o qual nós (infelizmente) entramos em contato logo durante nosso início na militância feminista: a ideia de que a discordância, de que a crítica a posicionamentos e a problematização de atitudes ou formas de pensar é necessariamente um ataque pessoal aos indivíduos que agem dessa forma ou perpetuam essas ideias. Nós não “odiamos pessoas trans”, mas não podemos negar que, entre a política da “identidade de gênero” e o feminismo radical há, sim, uma grande discordância.

Feministas radicais são críticas do gênero em si. Não não temos como projeto a reforma dos gêneros – nós somos abolicionistas de gênero. Vemos o gênero como uma opressão, já que ele divide seres humanos em duas classes distintas, ambas com papéis de gêneros e socializações diferentes. Embora ambas as classes sejam individualmente oprimidas por serem limitadas por esses papéis de gênero e moldadas por suas formas de socialização, o gênero, por estar intimamente ligado com o patriarcado, é também o que separa os indivíduos em classes “masculina” e “feminina” e que, com base em formas de socialização distintas, é essencial para executar a opressão da classe privilegiada e opressora masculina sobre a classe oprimida feminina. Por ser um movimento de cunho revolucionário, o feminismo radical crê que, a ausência dos papéis de gênero socialmente construídos e que formam a base essencial do patriarcado, essencial para qualquer revolução que busque libertar a classe feminina, acabaria com todo tipo de código social que defina o que pessoas do sexo masculino e feminino podem ou devem fazer (ou não fazer), assim tornando-as livres para se vestir, se comportar, e amar umas as outras da forma que desejassem, independentemente de que tipo corporal ou sexo elas tivessem nascido com.

Como já foi dito antes, o patriarcado é o sistema que pega seres humanos que nasceram sendo biologicamente machos ou fêmeas e os transforma nas classes sociais chamadas de “homens” e “mulheres”. O que foge ao entendimento de muitos é que, embora seja um sistema classista, o Patriarcado em mais parece um sistema de castas do que de classes, já que não existe uma verdadeira mobilidade entre as classes privilegiada e oprimida, entre as classes masculina e feminina. Pessoas do sexo masculino são transformadas em homens pela socialização masculina, que é definida por uma psicologia baseada na dormência emocional e na dicotomia entre o eu e e outro. Enquanto isso, a socialização feminina no patriarcado parece ser um processo de psicologicamente constranger e destruir meninas – processo esse também chamado de  “preparação”, preparação esta para criar uma classe de vítimas conformes. A feminilidade é uma série de comportamentos que são, em sua essência, pura submissão ritualizada.

Não conseguimos enxergar nada na criação ou na constituição do conceito de “gênero” que valha a pena ou deva ser celebrado ou aceito. O Patriarcado é um arranjo de poder brutal e corrupto e nosso objetivo é “desmantelá-lo” até que estas categorias de gênero não existam mais, bem como outros critérios de divisão de grupos e classes criados em função de dar privilégios a um grupo enquanto oprime outros grupos, de forma histórica, social, econômica e política (e por isso também que o feminismo radical pode dialogar com outras lutas libertárias de cunho revolucionário, como a luta pela libertação do sistema de classes [sócio-econômicas],  pelo fim da discriminação de raças [fim do racismo], etc).

De acordo com a nossa concepção, a verdadeira liberdade da classe feminina nunca será possível enquanto os gêneros existirem, justamente por estes serem sistemas usados para moldar a masculina de forma a receber privilégios pela opressão que eles nos infligem (já que no patriarcado, é estra classe que detém o poder) e molda a classe feminina para ser submissa diante de sua opressão e, não contente em normalizar nossa opressão e a violência que inflige sobre nós, ainda nos faz acreditar que essa opressão é, de alguma forma, seja esta científica, histórica ou religiosa, natural, necessária ou certa. O patriarcado facilita a exploração de corpos femininos para o benefício dos homens – seja para a satisfação sexual masculina, seja como mão de obra barata ou pela reprodução. Apenas para dar uma rápida exemplificação, existem aldeias inteiras na Índia onde todas as mulheres só tem um rim. Por quê? Porque seus maridos têm o costume de vender o outro. Gênero é muito mais do que um “sentimento” ou uma “identidade” — é uma violação contra direitos humanos de uma classe inteiras de mulheres, ou como diria Andrea Dworkin em “Against the Male Flood: Censorship, Pornography, and Equality”, pessoas chamadas mulheres.

Nós, feministas radicais, não somos “transfóbicas”, mas temos, sem dúvidas, discordâncias com reformistas de gênero sobre o que o gênero realmente é. Reformistas de gênero acham que o gênero é natural, quase um produto da biologia humana. Feministas radicais e pessoas abolicionistas de gênero encaram este [o gênero] como algo social, que produz e é produto da supremacia masculina, logo, é essencial para a manutenção desta. Reformistas de gênero encaram gênero como uma “identidade”, um conjunto interno de sentimentos que as pessoas possam ou não ter. Feministas radicais e abolicionistas de gênero encaram gêneros como o sistema patriarcal de “castas”, conjuntos de condições materiais e sociais nos quais um indivíduo já nasce imerso. Reformistas de gênero o encaram como um binarismo, enquanto feministas radicais e abolicionistas de gênero o encaram com uma hierarquia; hierarquia esta na qual quem está no topo é a classe masculina. Alguns reformistas de gênero afirmam que o gênero é algo “fluido”. Feministas radicais apontam que não há nada de fluido em ter seu rim posto a venda pelo seu marido. Então, sim, nós temos algumas grandes discordâncias ideológicas.

Feministas radicais também acreditam que as mulheres devem ter o direito de definir suas fronteiras e limites e decidir quem deve ser incluído em seus espaços exclusivos (e sim, também acreditamos na necessidade desses espaços exclusivos). Acreditamos que todos os grupos oprimidos têm esse direito. Somos constantemente chamadas de transfóbicas por apoiar a decisão de várias mulheres de não ter homens – pessoas nascidas com o sexo masculino e socializadas na masculinidade – em espaços exclusivamente femininos.

Se o feminismo com o qual você está acostumada não tem como prioridade fundamental a segurança das mulheres, se o seu feminismo não prioriza as causas destas mulheres e se ele não coloca como seu objetivo máximo a libertação da classe feminina do patriarcado e todos os sistemas que as aprisionam [mulheres] (e não a reforma destes sistemas, que seriam ineficientes para promover a real libertação das mulheres), então talvez seja a hora de parar e refletir se esse feminismo está realmente comprometido com a causa feminina.

Maternidade por um viés feminista: porque dialogar com diferentes realidades é essencial

Sobre quando os debates feministas viram “disputa de egos”…

Esse texto é um texto que busca incentivar a reflexão. É um texto radical direcionado às feministas radicais e simpatizantes, em especial as que estão começando. Ele não busca, de forma alguma, “julgar” ou “corrigir” ninguém, mas incentivar que nós, feministas radicais, iniciantes ou não, possamos parar e refletir se estamos agindo de forma correta quando estamos em debates “mistos”, ou seja, debates entre mulheres de vertentes diferentes, com pensamentos diferentes, e que muitas vezes podem se sentir hostilizadas por algumas formas de abordagem. E, se uma mulher se sente hostilizada pela nossa abordagem, isso demonstra que talvez seja necessário repensar isso.

Primeiramente, eu creio que seja algo claro hoje em dia que muitas de nós só se permitiram dialogar com o feminismo radical quando fomos hostilizadas ou vimos mulheres sendo hostilizadas por pessoas trans/transaliados. Embora eu acredite que uma mulher possa e deva ser bem recebida no feminismo radical independentemente do que a motivou a procurá-lo inicialmente, eu acredito que muitas dessas moças venham para o feminismo radical mais por se sentirem acolhidas por esta corrente do que por serem ideologicamente alinhadas ao feminismo radical.

Não me entendam mal: não há nada de errado nisso, não mesmo. Mas eu tenho receio de que muitas dessas moças possam ter ideias equivocadas sobre o que o feminismo radical é, sobre nossas pautas e lutas, e quando elas discutem em grupos “mistos”, elas as vezes podem passar a ideia errada sobre o movimento para outras moças, e isso é sintomático.

Deixe-me ir direto ao ponto: após discussões em grupos majoritariamente liberais, já que são grupos onde grande parte das moças são iniciantes, eu comecei a perceber “comportamentos em comum” por parte de muitas dessas meninas radicais iniciantes, e isso me preocupou. Quero falar um pouco sobre tais comportamentos nesse texto, com o objetivo de incentivar a auto-análise e, novamente, a reflexão.

O primeiro comportamento que notei foi a atitude debochada. Embora eu entenda que em muitas situações que consideramos absurdas, nós costumeiramente acabamos preferindo ser debochadas do que nos irritar com nossas irmãs num debate. Eu realmente entendo a motivação desse comportamento, mas ele é problemático. Entenda, socialmente, mulheres aprendem desde cedo a se silenciarem; aprendemos que o que pensamos não é relevante. Quando uma mulher começa a dar suas opiniões, ela é logo vista como “histérica”, “exagerada”, “irritada”… Quando uma mulher feminista começa a opinar sobre algo, seus discursos são ignorados ou zombados por quem está fora da lógica feminista. Como feministas, faz-se necessário que nós não nos apropriemos dessa prática. Logicamente, mulheres podem produzir discursos preconceituosos, e esses devem ser analisados, problematizados e criticados. Agora, “debochar” do discurso de uma mulher, além de ser falta de educação e de sororidade, é improdutivo. Nenhum diálogo vai poder ser feito se uma das partes vai debochar de tudo que não concordar vindo do outro lado, e como mulheres feministas, nós PRECISAMOS buscar o diálogo com as mulheres. 

“Mas elas começaram a me ofender/zombar de mim primeiro!”, é algo que eu escuto bastante como resposta. Primeiramente: não estamos na primeira série. Você não puxa o cabelo da coleguinha porque ela puxou o seu primeiro; somos pessoas crescidas, somos seres racionais e o diálogo deve ser nossa arma e nosso escudo. Se a “coleguinha” se mostrar não disposta a travar um diálogo que não seja debochado ou passivo-agressivo, a melhor dica que posso lhes dar é: SE AFASTE! Se fica claro que o diálogo entre suas ideias não vai funcionar e que continuar insistindo nisso só vai ferir e desgastar ambas as partes, talvez seja melhor dar tempo ao tempo, se afastar, focar em outras coisas. Até porque muitas vezes o tempo, e só o tempo, permite que algumas pessoas se tornem mais abertas a dialogar e entender o outro lado. 

Outro comportamento que eu vejo e que em muito me incomoda, e que claramente é um traço que muitas meninas ainda carregam de suas épocas como feministas liberais, é o costume problemático de tentar resinificar termos. Não, amiga, você não é “terf”, “femista”, “feminazi”, “extremista”, “bucetista”, “radscum” nem nada assim. Não permita que outras pessoas, especialmente pessoas do sexo masculino, definam sua militância. Não permita que gente que pouco ou nada sabe do feminismo radical tente “definir” sua existência, como feminista radical, utilizando-se de termos depreciativos ou simplesmente absurdos inventados para segregar-nos e ao nosso feminismo. Eu poderia me prender explicando o quão cada termo desses é absurdo, mas acredito que já existam vários textos falando sobre o assunto, então não, não pretendo me demorar nisso. Creio que já deixei claro o que eu queria dizer.

Quando você assume o termo “terf” pra si, diz que é “terf com orgulho” ou algo assim, você acaba “confirmando” na cabeça de mulheres que ainda não têm contato com o feminismo radical a ideia equivocada de que nossas teorias se resumem a “excluir trans” (acusação absurda) ou, pior, “eliminar trans”. Nossas pautas não se resumem a pessoas trans, não demonizam pessoas trans e nem nada parecido. Nossas pautas são sobre pessoas nascidas, socializadas e lidas como mulheres, pessoas que sofrem e são afetas pela misoginia, que são acorrentadas pela opressão de gênero e que sofrem as consequências de ter uma socialização feminina em uma sociedade que odeia mulheres. Sem falar que, além disso, quando você resinifica termos assim, você permite que indivíduos socializados como homens, novamente, definam sua militância. Isso tem de ser problematizado urgentemente.

Outra coisa que vale uma menção, é aceitar ou apoiar a ideia de que feministas radicais “acham que gênero e sexo é a mesma coisa” ou que “são genitalizantes”. Não somos nós, feministas radicais, que somos “genitalizantes”: a nossa sociedade é. Nós não concordamos que pessoas devem ser socializadas para ser “homem” ou “mulher” desde o nascimento, levando em conta os genitais. O que nós não podemos nos dar ao luxo de fazer, contudo, é ignorar que é assim que se as coisas são feitas na sociedade em que vivemos.

É como discutir preconceito de classe, realmente. Eu, como mulher socialista, não concordo que pessoas tenham que vender sua força de trabalho para sobreviver,enquanto existem pessoas lucrando com a força de trabalho deste e de tantos outros indivíduos. Eu não concordo com a concentração de capital, eu não concordo com a meritocracia, eu não concordo com o neo-liberalismo, eu não concordo com todos os sistemas construídos para manter o capitalismo como sistema econômico mundial que, pautado na exploração e na opressão de classe, faz de quem é pobre cada vez mais pobre e de quem é rico, cada vez mais rico. Eu não concordo com nada disso, de verdade. PORÉM, se eu realmente quero propor mudanças reais,s e eu realmente quero propor uma revolução que libertará os seres humanos disso, eu primeiramente tenho de parar de me iludir e aceitar, sim, que é dessa forma que as coisas acontecem no mundo real. Porque, você sabe, não é ignorando que o capitalismo, suas causas e consequências existem que isso vai deixar de existir. 

Da mesma forma, feministas radicais enxergam o gênero como um elemento patriarcal fundamental para a opressão que a classe masculina impõe à classe feminina, de forma histórica, política, econômica e social. Se nós queremos propor uma revolução social que irá libertar mulheres de padrões de gênero que sempre as oprimiram e que as oprime até hoje (revolução essa que, consequentemente, também libertaria homens de suas próprias amarras de gênero, mas que tem como princípio fundamental a libertação do oprimido, ou seja, da classe feminina), precisamos primeiramente aceitar e entender o funcionamento e as bases da opressão de gênero – como ela funciona, o que a mantém funcionando e seu papel na manutenção do patriarcado. Nós não acreditamos que “gênero e sexo são a mesma coisa” ou somos “genitalizantes”; tudo o que fazemos é pautar nossas análises no mundo real e em como as coisas acontecem neste mundo real, ao invés de fazermos análises pautadas em teorias utópicas e equivocada sobre gêneros e seus funcionamentos. 

O que eu indicaria a todas essas meninas, e eu sei que isso vai soar academicista, mas é necessário… É que elas leiam mais teoria radical. Não existe um “limite” de conhecimento sobre a teoria radical, porque esta está em constante fase de crescimento e mudança. Feministas radicais estão sempre teorizando e é importante para TODAS NÓS estaemos em contato constante com textos e obras de cunha radical, lendo-as, digerindo-as e fundamentando cada vez mais nossa militância. Também é importante, mais do que simplesmente discutir com feministas de outras vertentes, deixar claro para essas mulheres que elas têm direito de pensar de forma diferente, e que você acredita que vocês duas possam coexistir e serem amigas mesmo pensando diferente. Afinal, nossos relacionamentos com outras mulheres não devem ser limitados ou pautados por teorias, mas sim pautados, acima de tudo, na sororidade e no respeito.

Não permita que os debates feministas se transformem em “disputa de egos”, onde um lado parece mais disposto a atacar o outro com unhas e dentes do que realmente discutir teorias e buscar soluções, articular lutas e tanto mais. Se o “outro lado” (odeio polarizar o movimento, odeio mesmo, mas como é um texto para explicar algumas coisas, creio que a linguagem mais simplista é essencial) provocar, talvez seja uma boa lembrar dos conselhos de nossas mães e professoras: deixar a coisa toda de lado. “Quando um não quer, dois não briga” pode não se rum ditado que funciona sempre, mas quando estamos falando do funcionamento interno do movimento feminista, talvez seja interessante relembrá-lo. Porque, no fim, não existem “os dois lados” dessa moeda: feministas liberais, interseccionais, transaliadas, radicais… Somos todas mulheres tentando sobreviver, e tudo do que não precisamos é que o movimento que luta pela nossa liberdade se torne uma briguinha de escolha, uma disputa de egos ou um espaço onde não nos sentimos seguras para nos pronunciar ou tirar nossas dúvidas sem sermos atacadas por nossas próprias irmãs.

Paciência é algo essencial quando estamos dialogando e discutindo com mulheres, especialmente mulheres que não pensam do mesmo jeito que a gente. Acredito que seja mais produtivo para quem não tem isso, para quem não tem paciência de dialogar com pessoas que podem, sim, se torar debochadas ou passivo-agressivas, seja por serem iniciantes ou por terem se tornado “fechadas” à novas ideias e formas de pensar, que prefira deixar uma discussão deixando claro para outras mulheres que você sempre estará disposta a ter um diálogo saudável com elas ou que sempre irá apoiá-las, do que deixar-se consumir pelo calor do debate e acabar ferindo você e suas irmãs no caminho.

Vale lembrar que, dificilmente, uma mulher que tiver sofrido alguma forma de “trauma” ou que tenha sido ofendida por alguém de uma vertente feminista vai ser paciente ou estará aberta ao diálogo com essa vertente. Cada mulher tem seus limites e esses têm de ser respeitados. Não é produtivo nem saudável IMPOR suas ideias a essas mulheres, especialmente quando elas deixam claro que não se sentem a vontade com isso. Eu sei que dói, que dói ver irmãs atacando irmãs, que dói ver mulheres atacando o que você pensa sem sequer terem tido a chance de ter contato real com o feminismo radical, mas não é indo nos espaços de feministas dessas vertentes e esbravejando contra o que elas pensam que você vai conseguir que alguma delas te dê ouvido. Muito melhor e mais produtivo que isso, porém, é lentamente tentar tornar essas mulheres mais abertas ao diálogo, conversar com elas, explicar sua forma de pensar aos poucos e dar a elas a chance de digerir isso tudo e de decidir o que elas pensam sobre isso, sobre você e sobre sua forma de ver.

É nisto que eu acredito, e são nesses princípios que eu tento pautar minhas ações e falas quando estou discutindo com outras mulheres. Espero que algumas de vocês, irmãs, possam usar este texto para auto-análise e reflexão e chegar na conclusão de como vocês acreditam ser melhor levar e construir a militância de vocês.

Feminismo “sem onda” ou indígena, ou a luta das “Feministas sem desculpa”.

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Este texto é uma tradução e uma adaptação de um texto chamado “Indigenous Feminism Without Apology”, de autoria de Andrea Smith,  feminista radical indígena, parte da tribo Cherokee, professora de Native American Studies na Universidade do Michigan, Ann Arbor, e co-fundadora do “Incite!” e do “Boarding School Healing Project”.

Nós frequentemente ouvimos o “mantra” nas comunidades indígenas de que mulheres nativo-americanas não são feministas. Supostamente, o feminismo para elas não seria necessário porque elas eram tratadas com respeito antes da colonização. Além disso, qualquer mulher indígena que se declare feminista é frequentemente dita “branca” ou, no mínimo, dita estar querendo “assimilar elementos culturais brancos” ou “se embranquecer”.

De qualquer forma, quando eu comecei a entrevistar mulheres indígenas envolvidas na organização das tribos e comunidades nativo-americanas como parte de meu projeto de pesquisa, eu me surpreendi com a quantidade de ativistas na escala local (dentro das próprias comunidades) se descreviam como “feministas sem desculpa”. Elas argumentavam que o feminismo na verdade era um conceito indígena que fora cooptado por mulheres brancas.

O fato de que as sociedades nativo-americanas e indígenas eram igualitárias 500 anos atrás não está impedindo essas mulheres de serem agredidas e abusadas atualmente. Por exemplo, em meus muitos anos de organização contra a violência, eu ouvi muitas vezes coisas como, “Nós não podemos nos preocupar com a violência doméstica; nós temos que nos preocupar com nossa luta pela sobrevivência primeiro.” Mas, levando em conta que mulheres indígenas são muito mais frequentemente mortas em decorrência da violência doméstica, fica claro que elas não estão sobrevivendo. Então quando falamos da sobrevivência de nossos povos, de quem estamos realmente falando?

Essas feministas nativo-americanas e indígenas não estão apenas desafiando o patriarcado dentro das próprias comunidades indígenas, mas também a supremacia branca e o colonialismo que estão intimamente ligados ao “white feminism” (o feminismo centrado na figura da mulher branca). Isto porque elas estão começando a desafiar a ideia de que são somente as mulheres brancas que devem definir o que o feminismo é.

DESCENTRALIZANDO O “WHITE FEMINISM”

O movimento feminismo é geralmente dividido em suas “ondas”, o Feminismo de Primeira Onda, o Feminismo de Segunda Onda e o Feminismo de Terceira Onda. Nos Estados Unidos, a Primeira Onda é caracterizada pelo Movimento Sufragista; a Segunda Onda é caracterizada pela formação da “National Organization for Women”, as políticas do direito ao aborto e a luta pelas alterações políticas para a conquista dos direitos iguais. De repente, durante a terceira onde, mulheres não-branca aparecem para “transformar o feminismo” em um movimento multicultural. 

Essa divisão da história do feminismo coloca as mulheres brancas de classe média como os agentes centrais da história da luta pelos direitos das mulheres, numa análise que coloca mulheres não-brancas como agentes secundários, somente “aceitos” ou “acoplados” no decorrer da história. Porém, se nós levarmos em conta a operação das mulheres indígenas em na “equação” da história do feminismo, da luta pelos direitos das mulheres, nós talvez devêssemos começar nossa análise histórica já em 1492 quando as mulheres Nativo-americanas coletivamente resistiram à colonização. Isso nos permitiria enxergar que existem diversas histórias do surgimento do feminismo, em diversas comunidades “não-brancas”, nas quais esse [o surgimento] aconteceu de forma e por motivos diferentes, porém, muitas vezes, conectados entre si. Uma análise assim não negaria as contribuições feitas por feministas brancas, mas não centraria nossa historialização e nossas análises somente nelas e no surgimento do feminismo nas sociedades branco-ocidentais. 

O Feminismo Indígena centraliza, assim, a prática anti-colonial dentro de sua organização. Isso é crítico hoje em dia quando você vê alguns grupos feministas apoiando, por exemplo, o bombardeio promovido pelo Exército dos EUA ao Afeganistão, justificando que tal bombardeios “irão libertar as mulheres das garras do Talibã” (aparentemente bombardear mulheres, para elas, de alguma forma as liberta).

DESAFIANDO O ESTADO

Feministas indígenas também estão desafiando a forma como conceituamos a soberania indígena – esta não é um “add-on” para os estado-nações heteronormativos e patriarcais. Pelo contrário, pretende desafiar o próprio sistema de “estado-nação”. Charles Colson, proeminente ativista pelos “Direitos dos Critãos” e fundador da “Prison Fellowship”, explica muito claramente a relação entre a heteronormatividade e o funcionamento de um estado-nação. De acordo com a sua visão, o casamento entre pessoas do mesmo sexo está diretamente relacionado ao terrorismo; o ataque à “ordem moral natural” da família heterossexual “é como entregar armas morais de destruição em massa para aqueles que usam a decadência dos Estados Unidos para recrutar mais mais atiradores e sequestradores e homens-bomba.”

De forma similar, a revista “Christian Right World” deu sua opinião e disse que o feminismo contribuiu para o escândalo de Abu Ghraib, por promover as mulheres no exército americano. De acordo com eles, “mulheres que não se conformam nos papéis de gênero que lhes foram impostos ficam desorientadas e agridem os prisioneiros.

O que está implícito nisto é a a análise de que o heteropatriarcado é essencial para a construção de impérios como o Império Americano. O Patriarcado segue uma lógica que naturaliza hierarquias sociais. Da mesma forma que homens supostamente estão designados naturalmente a dominar mulheres com base na biologia, da mesma forma as elites sociais deveriam “naturalmente” dominar o resto das pessoas através da lógica de governo dos estado-nações, que é construída através de dominação, violência e controle.

Como Ann Burlein argumenta em “Lift High the Cross”, talvez seja um erro afirmar que o objetivo da política pelos “Direitos dos Cristãos” seja criar teocracias. Ao invés disso, essa política parece querer usar a ideia da “família privada” (que é a família branca, patriarcal e de classe média) para criar uma “América Cristã”. Ela aponta que os investimentos na ideia da “família privada” torna mais difícil que sejam feitos investimentos nos outros tipos de conexão social.

Por exemplo, mais investimento na manutenção do estilo de vida da família privada dos subúrbios americanos significa menos investimento para as áreas urbanas, que concentram uma disparidade entre riqueza deslumbrante e pobreza extrema, e para as áreas de reservas indígenas. A decadência social resultante é então interpretada de forma a ser causada pelo desvio dos ideais da “família cristã” ao invés de forças políticas e econômicas. Como o antigo líder da “Christian Coalition”, Ralph Reed, colocava: “A única solução para a criminalidade é restaurar a Família” e “O rompimento da Família causa a pobreza.”

Infelizmente, como a estudiosa feminista Jennifer Denetdale, mulher parte da tribo Navajo, aponta, a resposta Indígena para a heteronormatividade branca da sociedade cristã americana frequentemente tem sido o incentivo a um igualmente heteronormativo nacionalismo indígena. Na crítica dela ao apoio do conselho tribal Navajo à proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo, Denetdale argumenta que as nações indígenas estão se aliando aos interesses dos ativistas pelos “Direitos dos Cristãos” em nome de “tradições indígenas”.

Essa tendência é igualmente aparente nas lutas pela justiça racial em outras comunidades não-brancas. Como Cathy Cohen afirma, a soberania heteronormativa no meio das lutas pela justiça racial irá efeticamente manter ao invés de desafiar o colonialismo e a supremacia branca pois está pautada na política da marginalização secundária. A classe mais privilegiada irá impor suas aspirações nas costas dos mais marginalizados dentro da comunidade.

Graças a esse processo de marginalização secundária, a luta pela justiça racial ou nacional, implícita ou explicitamente, assume um modelo de estado-nação como o ponto final de sua luta – um modelo onde as elites governam o resto com bale na violência, na exclusão e na dominação de quem não faz parte da “nação”.

REVOLUÇÃO

Uma política feminista indígena busca mais do que simplesmente elevar o status das mulheres indígenas – ela busca transformar o mundo de acordo com as formas de governo indígenas que podem ser benéficas para todos.

Em 2005, no “World Liberation Theology Forum” sediado em Porto Alegre, Brasil, populações indígenas da Bolívia afirmaram que eles conheciam outra forma de encarar nosso mundo porque eles conseguiam visualizá-lo dessa forma toda vez que faziam suas cerimônias. As cerimônias indígenas podem ser um espaço onde presente, passado e futuro se tornam co-presentes. Isto é o que a estudiosa nativo-americana do Hawaii, Manu Meyer, chama de “lembrança racial do futuro”. 

Antes da colonização, as comunidades indígenas não eram estruturadas na base da hierarquia, da opressão ou do patriarcado. Nós não temos como recriar essas comunidades da forma como elas existiam antes da colonização. Nosso entendimento de que sociedades não baseadas em opressões estruturas eram possíveis no passado nos diz que nosso sistema político e econômico atual é tudo menos natural e inevitável. Se vivíamos de forma diferente antes, podemos viver de forma diferente no futuro. 

O feminismo indígena não é simplesmente uma “política de identidade” isoladora e exclusiva, como é muitas vezes acusado de ser. Ao invés disso, é estrutura que compreende a luta das mulheres indígenas como parte de um movimento global pela libertação. Como um ativista afirmou: “Você não pode vencer uma revolução sozinha, e não estamos lutando por nada menor do que uma revolução. Qualquer outra coisa é simplesmente não vale nosso tempo.”

A política de identidade de gênero machuca as mulheres.

É sempre complicado e polêmico tentar começar uma discussão sobre identidade de gênero, já que tudo que tem a ver com “individualidade” e “escolhas pessoais” é vangloriado e protegido com unhas e dentes por correntes feministas que concentram suas análises na esfera individual, ao invés de analisarem nossas sociedade patriarcal e os elementos que lhe sustentam ou que são consequentes dela levando em conta as classes de pessoas, os interesses e a posição de poder das mesmas. E, já que estas correntes não exigem que haja problematização de nossos “gostos pessoais” já que indivíduos são “seres individuais fazendo escolhas individuais e sem conexão”, ela consequentemente é muito mais “atrativa” para quem está começando a ter contato com as discussões do feminismo; e seria um estágio saudável, se não fosse pelo fato de muitas mulheres se sentirem tão confortáveis com o movimento que engole tudo e não critica nada que estagnam no estágio que deveria ser intermediário; no Feminismo Liberal.

Então, sim: conversar com mulheres que ainda estão presas na forma de análise e de pensamento do Feminismo Liberal sobre a problematização da política de identidade de gênero é sempre muito delicado, assim como é delicado tocar em qualquer outro assunto que exija não somente senso crítico, com também mente aberta para o diálogo, para a problematização, bem como bastante paciência da parte de quem está iniciando essa discussão. Eu não sou a pessoa mais paciente do mundo; creio que devo ser uma das pessoas mais impacientes que conheço. O que alimenta esse texto não é minha paciência, porém, mas minhas teimosia e a necessidade latente de discussões desse tipo.

Espero do fundo do meu coração que, seja lá quem for você, mulher, que esteja lendo isto agora, esteja fazendo-o por estar realmente disposta a sequer dar uma chance para novas formas de enxergar a militância pela liberdade feminina batizada, muito antes de eu nascer, de “feminismo”. Não pretendo com este texto impor minha visão ou minha forma de pensar, mas somente expor minhas visões sobre este assunto. 

Sem mais delongas, creio que o mais adequado agora seria começar a discussão com a frase usada no título deste texto:

“A política de identidade de gênero machuca as mulheres.”

Gostaria, então, de explicá-la.

A gritante maioria de nós entra em contato com o movimento feminista por meio do Feminismo Liberal, pelos motivos que já citei anteriormente. É muito mais fácil aceitar um movimento que quer te “empoderar” (entenda as aspas aqui) do que o movimento que logo de cara tenta problematizar o que você sempre aprendeu a encarar como certo, como bom, como saudável, como normal. O nome desse feminismo, contudo, não é por acaso: em muitos pontos ele lembra, está conectado ou dialoga com o liberalismo, e isso é problemático. O que há de mais liberal neste feminismo provavelmente é o individualismo.

O feminismo liberal dificilmente falará de projetos reais de derrubada do patriarcado e dos papéis de gênero; ao menos não enquanto ele simplesmente pode nos oferecer “resinificações” das nossas antigas opressões (p.e. o incentivo que essa corrente feminista dá a resinificações de termos ofensivos, como “vadia”, “puta”, “feminazi”, etc, partindo da ideia equivocada de que “um termo só é ofensivo enquanto nós nos ofendemos com ele”, que é claramente falha quando levamos em conta a carga que histórica e socialmente um termo carrega e como esta não pode ser apagada por resinificações superficiais) e identidades de gênero: tantas quanto podemos pensar, e mais algumas.

A ideia que isso [identidades de gênero] envolve é a de que gêneros, ao invés de serem somente “uma caixinha masculina e uma caixinha feminina”, previamente delimitadas e nas quais indivíduos devem se enquadrar, são na verdade várias caixinhas, de formas diversas, com papéis de gênero diversos e nas quais você não precisa se encaixar e pode chegar ao ponto de simplesmente poder “experimentar” o melhor que cada caixinha há de oferecer antes de decidir qual a que gosta mais (ou, melhor ainda: não decidir por nenhuma e criar uma nova, só sua). Ideia bonita, não acham? Bonita, porém utópica.

Utópica porque gêneros, na vida real, não são belas e infinitas caixinhas. Na vida real, que é aonde análises têm (ou ao menos deveriam ter) de ser feitas, gêneros são, sim, apenas duas caixinhas previamente delimitadas: a masculina e a feminina. É assim que acontece, na vida real, e afirmar isso não é concordar com isso: é simplesmente dizer não ser tão ingênua a ponto de ignorar a realidade porque ela não me satisfaz. De qualquer forma, na vida real, gêneros são caixinhas nas quais você é encaixado desde que seus pais têm ciência do que, no patriarcado, é o que é considerado crucial na hora de delimitar quem você será, do que irá gostar e, o mais importante, qual será o nível de liberdade, de poder e de voz que você terá, tanto social, quanto política e economicamente: o seu sexo.

Para tornar o post mais ilustrado e ajudar na compreensão, trouxe imagens [obviamente meramente ilustrativas] das nossas “caixinhas”, dos gêneros nos quais fomos encaixados de acordo com nossos genitais:

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Estas duas caixas são distintas, e ser criado dentro de cada uma delas trará a um indivíduo consequências e experiências diferentes ao longo da vida, simplesmente porque, levando em conta a “caixinha” na qual você foi encaixado (o que não quer dizer que você se encaixe lá), você desde pequeno será criado, ensinado e tratado de forma distinta de indivíduos da “caixinha diferente”.

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Mas o conceito de “gênero” não para simplesmente por ai. Não é somente a delimitação de um indivíduo em uma das “caixinhas” que vai decidir a forma como ele crescerá e se comportará, mas sim a forma como ele será criado para se encaixar na “caixinha” da qual faz parte; e é graças a essa característica fundamental à existência do gênero, a socialização, que podemos entender o que o gênero realmente é: parte inerente da opressão patriarcal da classe masculina sobre a classe feminina.

Meninos e meninas são criados de forma diferente. Desde novos, meninos são criados com uma considerável liberdade para explorarem o mundo do qual fazem parte, para sonhar e para se auto-descobrirem. Enquanto isso, meninas são desde cedo ensinadas a se cobrir, a se calar, a se colocar “em seus devidos lugares”. Elas aprendem a deixar de fazerem o que gostam porque “não é coisa de menina”, a não expor o que pensam porque “vão parecer irritantes”. Elas também aprendem desde muito cedo, embora muitas vezes inconscientemente, sobre o privilégio masculino: meninos podem correr, podem brincar, podem ter o que quiserem, podem se tocar e podem tocá-las a seu bel-prazer — afinal, “boys will be boys”: não são eles que terão de aprender a te respeitar, mas sim você que terá de “se dar ao respeito” e aprender a lidar com isso.

A medida em que estas crianças crescem e chegam à puberdade, a diferença na forma com que são tratadas só aumenta: embora ambos os indivíduos sejam pressionados pela heteronormatividade, a liberdade masculina sobre seu próprio corpo (e, vale lembrar, a implícita liberdade a eles dada sobre os nossos corpos) que é dada ao indivíduo do sexo masculino, bem como o conhecimento de sua anatomia, de seus desejos e a chance bem maior de poder exercer e experimentar com sua sexualidade é negada às jovens mulheres; essas, que desde cedo assimilam a ideia de que tudo que é socialmente associado com elas, com meninas, é “ruim”, “errado”, “fraco”, “bobo”, agora se veem cada vez mais pressionadas por padrões que irão acompanhá-las para o resto de suas vidas, e que, por mais que elas tente ignorá-los e fingir que eles não existem, estarão lá e serão motivo de muitos problemas que elas possam vir a ter com relação à auto-estima: os padrões de beleza.

Meninas cada vez mais novas já se vêem pressionadas a começar a usar maquiagem para “esconder suas imperfeições”, fazer dietas malucas ou se privar de comer o que gosta (e, em casos extremos e que devem ser tratados, pois são distúrbios alimentares, se vêem pressionadas a se privar de comer, em geral). Essas meninas aprendem que “a beleza custa caro”, mas ao mesmo tempo, não enxergam outra alternativa senão se submeter a procedimentos doloridos, incômodos, por vezes caros e que lhes proporcionarão resultados que elas gostaram, muitas vezes, muito mais porque foram ensinadas a gostar deles do que puramente por seus gostos pessoais. E esses ciclos, de sofrimento, de silenciamento e de submissão, são aprendidos, assimilados e farão parte da vida destas mulheres, quer queiram elas, quer não.

Embora tanto a socialização masculina quanto a feminina sejam “forçadas” a esses indivíduos e mesmo que nenhum deles tenha voz para “escolher” coisa alguma, é inegável a forma como os gêneros foram criados e funcionam para a manutenção do sistema de privilégios masculinos e da opressão feminina, já que mulheres são socializadas em um sistema que as diminui, as silencia, as explora, limita seus espaços, as priva de conhecimento, de auto-conhecimento, de direitos e, em geral, de liberdade.

Como eu já disse antes, o conceito de “ser mulher” sempre esteve associado com a minha dor. Minha “identidade” feminina não provem de um “cérebro feminino” pois, assim como qualquer outra mulher, eu não me encaixo e duvido que um dia serei capaz de me encaixar completamente na “caixinha” na qual fui jogada, na “caixinha feminina”. Minha “identidade” feminina, minha mulheridade, está intimamente ligada à minha identificação com as limitações, com os percalços e com a dor que a socialização feminina me infligiu e infligiu à outras mulheres.

Quando vejo alguém que não jamais teve as experiências que somente a socialização feminina nos proporciona dizer que “se identifica como mulher”, a primeira coisa que me vem a cabeça é: “se esta pessoa se identifica como mulher, o que é ser mulher, para ela?”. Porque, para mim e para qualquer outra pessoa socializada como mulher, “ser mulher” é tão mais que se encaixar nos papéis de gênero feminino, do que “usar saia e batom”, do que “gostar de homens”, do que qualquer “isso” ou qualquer “aquilo” que se encontra em alguma lista de algum site falando sobre coisas que toda mulher faz, gosta, quer ou se interessa.

É muito fácil bradar que “a socialização não importa!” quando se é socializado tendo o mundo nas mãos. Mulheres são parte considerável (you don’t say????) da população mundial, e ainda assim, só detêm 1% das propriedades mundiais e fazem apenas 10% da renda mundial. Uma em cada três mulheres será agredida ou estuprada durante sua vida, e a cada dois minutos uma de nós morre em decorrência de gravidez ou durante o parto. 875 milhões de mulheres não sabem como ler ou escrever, e todo o dia 39,000 meninas são obrigadas a se tornarem noivas.

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É simplesmente fácil demais ignorar a influência da socialização nas nossas vidas quando existem meninas sendo abandonadas ou mortas na China porque seus pais queriam um filho homem, ou ignorando que vivemos num mundo onde estima-se que cerca de 86 milhões de meninas estão sujeitas a sofrer mutilação genital até 2030. A ONU inclusive já declarou, baseando-se em seus bandos de dados sobre a violência contra a mulher, que nascer mulher define nossa existência social.

Não ouse olhar na minha cara, na cara de mulher alguma, e bradar que “socialização não importa” quando vivemos num mundo onde ser identificada mulher no nascimento é estar sujeita a violências, onde ser socializada como mulher é não somente estar sujeita a violência como ser emocional e psicologicamente violentada por uma socialização que lhe destrói sua auto-estima e seu amor próprio, desestimula sua criatividade, lhe faz se sujeitar a situações degradantes e destrutivas em nome da beleza, da aceitação social e dos padrões impostos pela feminilidade, que lhe ensina a não se expressar, se anular pelo bem coletivo, se diminuir pelo bem do ego masculino… Uma socialização que lhe ensina a naturalizar a violência que sofre, a se culpabilizar, a “aguentar calada”. Uma socialização que lhe ensina a por todos e seus desejos na frente de você e do que você quer.

A política de identidade de gênero machuca as mulheres por as colocar na posição de opressoras num sistema onde elas não têm voz sequer para se DEFENDER. A política de identidade de gênero as machuca por as tratar como “opressoras” por se “identificarem” como mulheres, sendo que essa “identificação” muitas vezes é o único sentido existente para as agressões e a misoginia que sofremos e, portanto, nos “desfazer” dela seria nos desfazer, também, do entendimento das opressões misóginas que sofremos, do privilégio masculino que outros indivíduos têm e da irmandade feminina, essencial para muitas de nós conseguirmos realmente ter forças para continuar lutando pela liberdade da classe feminina. A política de identidade de gênero machuca pois tenta obrigar as mulheres “opressoras” a colocar outras pautas a frente das suas, uma característica patriarcal que foi adaptada pela esquerda e também por quem defende as pautas de identidade de gênero. A política de identidade de gênero machuca pois continua silenciando pessoas socializadas como mulheres, independentemente destas “se identificarem” como mulheres.

A política de identidade de gênero machuca as mulheres porque qualquer política que pretenda “apaziguar” a situação, que venha propor às mulheres que elas resinifiquem as violências institucionalizadas e sistemáticas que elas sofrem ao invés de propor que elas se unam para lutar pela liberdade total feminina e a abolição do sistema que as oprima não está realmente preocupada com as mulheres.

 

Mulher, a esquerda não liga para você!

Meu primeiro contato com militâncias de qualquer tipo não foi com o feminismo, mas com o socialismo. Era a oitava série, os professores de história e geografia, mesmo numa escola religiosa e conservadora como era a escola que eu então frequentava, mal podiam se conter enquanto bradavam sobre a grande Revolução Russa ou a  Revolução Cubana. Assim como eu, creio que muitos daqueles jovens finalmente conseguiram “conectar” os pontos; todos já tinham ouvido falar de socialismo ou comunismo, mas nós não sabíamos exatamente o que eram, a diferença entre eles e, principalmente, que um dia já existiram tentativas de realmente colocar aquilo tudo em prática. Entrar em contato com o Socialismo/Comunismo ou com o Anarquismo pela primeira vez sempre acende aquela centelha de esperança dentro de nós; pela primeira vez, podemos enxergar uma saída. Contudo, essa animação, para a maioria das pessoas, passa depois de algumas aulas, quando a gente percebe que a coisa não era perfeita e que por vezes se mostrou falha. Para a maioria das pessoas, pelo menos. Eu provavelmente sou uma exceção.

Eu conheci um cara. Tecnicamente, eu já o conhecia, mas o interesse pelo socialismo e a militância de esquerda nos aproximou. Juntos, começamos a nos envolver com o socialismo e com o feminismo. Sim, juntos. Eu era, na época, a maior contradição do mundo: uma mulher socialista e uma feminista liberal. Militávamos juntos e dali para engatarmos um namoro foi rápido. Aquele foi, a nível de curiosidade, meu último namoro heterossexual. 

Eu frequentei os ambientes que ele frequentava. Eu conheci os amigos dele, que tinham ideia como as dele. Eu falei com eles, e por um tempo, acreditei que eles me ouviam, que naquela militância nós tínhamos a mesma voz. “Mulher bonita é a que luta”, eles me diziam, e por hora, a oportunidade de lutar com e por eles e quem sabe assim ser, também, uma bela mulher, me acalentava. Eu continuei frequentando os espaços deles e continuei me iludindo que tinha a mesma voz nesses espaços que eles; dizia pra mim que o fato de existirem mais homens que mulheres ali era “coincidência”, e que o fato das lideranças e qualquer outro posto que envolvesse representação do coletivo para o público ou decisões importantes era ocupado por homens. Enquanto isso, negligenciei minha militância feminista: não lia e nem sequer me aprofundava em discussão alguma. Na minha cabeça, o feminismo era importante, mas só o socialismo, a militância de esquerda me libertaria.

Lenta e dolorosamente, porém, eu aprendi que isso não era e nunca seria verdade. No meio de coletivos socialistas mistos, no meio da vanguarda esquerdista, eu era abusada todo dia. Eu fui agredida por companheiros de luta, tanto física quanto emocionalmente. Me silenciaram sempre que podiam. Minhas causas e demandas eram abafadas pelo bem da luta de classe; aprendi que a mulher burguesa era minha inimiga, e a mulher que cegamente apoiava o sistema capitalista e o liberalismo, sem saber que esses a exploravam, também. E o cara, o garoto que eu amava e que eu achava que me amava também, por meses me manipulou: minha militância, meus gostos, meu ser só poderiam ser como ele quisesse que fossem. Durante nosso relacionamento, eu existi sobre os termos dele. 

Meses depois, ele se foi. Tendo sido isolada das minhas amizades, fazendo parte de um coletivo que só me fazia mal e tendo me anulado, tanto ideológica quanto particularmente, por causa dele, aquela foi uma das situações em minhas menos de duas décadas de vida que me vi deixada a deriva, apenas com destroços do que eu costumava ser e com a missão de me reconstruir. Eu chorei por um mês; não somente por ele, mas porque, por algum motivo, sentia como se tudo que eu aprendi naqueles meses de militância tivesse caído por terra. Só então eu me permiti analisar minha anterior situação e a forma como a qual eu fora tratada por meus “camaradas”, meus companheirOs de luta.

É ingênuo da nossa parte acreditar que qualquer movimento pensado e militado por homens poderá nos libertar. É ingênuo, mas é o que somos coagidas a pensar assim que temos nosso primeiro contato com a esquerda política, então não julgo qualquer mulher que ainda pensa desta forma. Eu digo isso porque, e eu sei que isso é uma verdade dolorida de se admitir, a vanguarda esquerdista não prioriza e jamais irá priorizar a libertação das mulheres.

Embora eles digam se importar com as mulheres e “apoiar” o feminismo, os líderes dos movimentos de esquerda, geralmente homens, irão te silenciar. Eles te insultarão, irão silenciar suas pautas e abafar suas denúncias. Então, eles irão teorizar sua vivência por você, irão debater entre eles seus problemas e decidirão, sozinhos, como você deve resolvê-los. Você, mulher, não tem voz real em meio a vanguarda esquerdista. Eles dizem o quanto você é importante para a luta deles (o que é verdade) porque sabem que, para muitas de nós, qualquer oferta de libertação, por mais remota que esta seja, é como um oasis no meio do deserto das opressões patriarcais. Mas, ao mesmo tempo em que eles dizem reconhecer sua importância, eles não te darão espaço ou voz suficientes para falar sobre quem você é, sobre as situações que passa, as violências às quais é exposta e como você acredita que deveria se dar a sua libertação e a libertação de outras mulheres.

Pare para analisar as pautas do “feminismo” defendido por homens parte da extrema-esquerda. Note o quanto há a glorificação da prostituição como “escolha pessoal” (e não opressão sistemática e institucionalizada), do amor-livre como “libertação” (amor-livre este, aliás, defendido até entre menores de idade) e do esquema “à moda de tumblr” de “criar seu próprio gênero”, onde nenhuma dessas pautas visa a real e completa libertação das mulheres, ou sequer tem algum projeto concreto de oferecer ajuda ou “reconhecimento” à grande maioria das mulheres. Pautas apontadas por mulheres e para a libertação das mulheres, como a abolição do pornô, da prostituição e dos gêneros são, constantemente, deixadas de lado ou totalmente silenciadas pelo feminismo defendido pela Esquerda. Por muito tempo me perguntei o porquê, mas hoje me parece muito óbvio: num movimento fundamentalmente masculino, com teóricos e lideranças tradicionalmente masculinas, onde mulheres não têm voz e onde homens decidem o melhor, para eles e para nós, é óbvio que nossa libertação não é interessante.

A esquerda quer prostitutas. A esquerda quer empregadas. Os partidos de vanguarda esquerdistas, os homens anarquistas… eles NÃO LIGAM para você. Eles não ligam para nós. Porque para eles, no fim, nossa libertação não é assim tão interessante. Quem vai cuidar da casa enquanto o homem estiver fazendo política? Quem vai criar os socialistas de amanhã? Quem vai se submeter, quem estará disposta a aceitar lutar por qualquer demanda que lhe for vendida como “um bem para o povo”? Quem é a classe social que historicamente foi ensinada e que tem tradição de se anular pelo “bem maior” ou o “bem coletivo”? Que classe sempre foi dividida pelos critérios da classe dominante e que até hoje aceita essa divisão e até LUTA em nome desta? Qual a classe que, muito antes do sistema racial ou o sistema de classes estarem em vigor ou serem pensados, já era obrigada a se curvar para seus opressores?

A Esquerda sabe que precisa da mulher em suas fileiras. A esquerda sabe que, sem nós, não há revolução. A Esquerda sabe quem são “os primeiro oprimidos”, ela sabe quem, independentemente de condição social, sempre foi anulado, silenciado, deixado de lado e obrigado a lutar e morrer por outras pessoas e ensinado a jamais viver por si mesmos. Mas ao mesmo tempo que a Esquerda tem consciência de tudo isso, ela que ainda é inerentemente pensada e liderada pela classe masculina, e a classe masculina, seja ela rica ou pobre, não quer perder seus privilégios. Independentemente da raca, etnia, classe social e econômica de um homem, você pode apostar que ele não está disposto a “largar o osso” dos privilégios, e você pode apostar que ele não luta por você e pela sua libertação.

Mas se há outra coisa na qual eu penso desde que me senti “apunhalada pelas costas” pela primeira luta da qual fiz parte, é: se a Esquerda não se importa com as mulheres, e a Direita não se importa com as mulheres… quem se importa? Se estamos acorrentadas, que luta busca quebrar essas correntes e realmente nos libertar?

A conclusão que eu cheguei é dolorida, mas também é a única que me parece plausível: ninguém. Ninguém, além das mulheres, verdadeiramente se importa com as mulheres. Nenhum movimento pensado por homens, liderado por homens, militado por homens realmente busca nos libertar. Eu sei que incomoda ouvir isso, ainda mais quando se é socializada aprendendo a “partilhar”, a encontrar um “denominador comum”, uma “luta em comum”, uma forma de nos libertarmos com “o apoio masculino”, mas nenhum movimento apoiado pela classe masculina PODE nos libertar, simplesmente porque a classe masculina NÃO ESTÁ INTERESSADA EM NOS LIBERTAR. E embora possa parecer linda a ideia de ter um homem do seu lado, apoiando sua luta e até lutando com você pelas suas pautas, eu me arrisco a dizer que é uma ideia utópica. Porque, embora aquele rapaz maravilhoso que eu conheci alguns anos atrás e eu tenhamos continuado amigos e ele se dissesse “pró-feminismo”, no primeiro momento em que eu demonstrei qualquer inclinação por uma militância separatista ele não hesitou em me chamar de “feminazi”, “femista” ou qualquer outro termo criado para invalidar a militância da mulher que ousa lutar somente por mulheres e somente com mulheres. Embora seja bonito imaginar um membro do grupo opressor ‘desconstruíndo os privilégios’ e lutando com você, existem provas demais de que, no momento em que você ousar delimitar um espaço, um momento ou uma luta SOMENTE para e por você e por outras mulheres, estes mesmos indivíduos irão te atacar.

Feminismo é uma luta feminina. É uma luta que ousa se concentrar nas vivências, nas opressões, nos problemas, na exclusão feminina. É uma luta que ousa tentar nos libertar, tentar libertar mulheres. Por isto, hoje, eu não me declaro mais socialista, comunista, anarquista ou nada disto. Embora eu concorde com as ideias do socialismo e com muitas das ideias do anarquismo, hoje eu tenho a consciência da ÚNICA luta que realmente se importa comigo e luta pela minha libertação, como indivíduo, e das mulheres como classe. 

Mulher, a Esquerda não se importa com você! Não gaste sua energia, seu suor, seu sangue e sua segurança em uma luta que não se importa com você. Apoie as causas nas quais acredita, sim, mas tenha consciência de que, enquanto a Esquerda estiver basicamente na mão da classe masculina (como ela historicamente esteve e ainda está), ela jamais vai lutar pela sua libertação. Fuja dos coletivos “mistos”, fuja da luta onde a libertação das mulheres como classe não é prioridade. Forme seus próprios coletivos socialistas, anarquistas. Forme coletivos femininos e construa sua luta e sua militância baseada nestes coletivos, com o apoio e a parceria de outras mulheres. Se junte com elas, aprenda com elas e com elas construa e articule a luta que realmente se preocupa com as pautas e busca a libertação da classe feminina.

Não se deixe enganar pelos homens que dizem lutar por você. Levante-se e lute por si mesma, como você sempre inconscientemente fez; afinal, toda mulher, inconscientemente, luta todos os dias para continuar viva. Permita-se aliar com outras mulheres e tornar essa luta inconsciente uma luta consciente, consistente e focal. Permita-se lutar por VOCÊ, e não permita que tentem tornar sua luta secundária ou desimportante!

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