Não estou “de boa” e não irei me calar!

Ser militante é estar em constante mudança, em constante transformação. Consideramos que vivemos em um mundo e em uma sociedade que estão em constante evolução, em constante mudança, o militante que tem medo de mudar, de repensar suas condutas e crenças… fica pra trás. Ser militante também exige estar sempre pronta pro combate, e não estou falando simplesmente do embate físico com outras pessoas, com outros movimentos ou até com os braços armados do governo.

Toda mulher feminista deveria cultivar o feminismo combativo, deveria cultivar em si a vontade crescente de estar sempre em movimento, de estar sempre lutando. É isso que faz e sempre fez  o movimento feminista, bem como qualquer outro movimento pela liberdade de outras classes oprimidas, continue existindo, continue funcionando. Se ativistas entram no ócio, se ativistas se acomodam, a luta estagna. E, considerando que nenhuma luta estagnada tem força, ela se torna ineficiente ou até inexistente. 

Há de se admitir: participar do ativismo feminista, especialmente no meio virtual, é desgastante. Há dias em que você sente vontade de acabar com tudo, de sumir. Se afastar da militância por um tempo ou até de forma mais permanente é completamente normal; há pessoas que não conseguem ter saúde mental para lidar com esse tipo de coisa, com esse desgaste constante. Eu não julgo essas mulheres, não mesmo.

O que eu critico, porém, é quando alguém acredita que pode usar o nome do feminismo como simples “identidade”. Eu não consigo tolerar que alguém se considere abertamente “feminista” enquanto prega o ócio; eu não consigo tolerar que mulheres que se dizem feministas estejam dizendo para as outras ficarem “de boa” enquanto a classe feminina é continuamente explorada pelo patriarcado.

Embora eu já tenha ouvido que a página foi criada para pregar a “harmonia entre vertentes”, nem isso faz sentido. O movimento feminista, em tese, tem a sororidade como uma de suas maiores pautas. Respeito mulheres feministas de outras vertentes, bem como mulheres em geral. Respeito-as, e respeito suas existências, mas sororidade não me obriga a aceitar ou fingir concordar com qualquer coisa que mulheres falem, sobre o mundo e sobre a militância feminista.

Se encaro o feminismo de uma forma diferente de minha colega de luta, creio que a discussão é essencial; isso não é ir contra a sororidade, mas sim agir como qualquer outro ser racional que encontra divergências entre sua forma de pensar e a do seu próximo: civilizadamente debater sobre tais divergências, tentar expor o que eu acredito, ouvir o que o outro têm a dizer. Quando você mina qualquer possibilidade de discussão e debate com discursos que basicamente dizem “deixe isso de lado, cara, fica de boa!!!!”, você também mina a possibilidade de diálogo entre mulheres, mina a formação de ideia com base nas discussões e nas mediações.

Política é embate, é discussão, é debate, é não aceitar o que o outro te diz se você não concorda com ele. Militar por uma causa significa embater com pessoas que não pensam da mesma forma; militar por um grupo oprimido é ter de sempre estar pronta para embater contra a classe opressora. Minar isso em prol do ócio, em prol de “ficar de boa” é desestimular mulheres a cultivarem o sentimento que foi e é o motor histórico e social das conquistas femininas; se algumas de nós não tivessem, em algum momento, se revoltado com suas situações e com a latente desigualdade; se elas não tivessem cultivado o feminismo combativo, se não tivessem brigado, se não tivessem discutido, inclusive entre si, e se não tivessem ido a luta, nós nunca estaríamos onde estamos hoje. 

Se não fosse por todas as mulheres combativas, que deram a cara a tapa pelos direitos da classe feminina, nós não teríamos nada. Nenhum direito, nenhum espaço, nenhuma voz. Esses ainda são escaços, mas se temos alguma coisa, é por causa delas. 

Considerando isso, é no mínimo uma afronta contra a memória dessas mulheres reduzir o movimento que elas suaram e apanharam para construir a um jogo identitário, onde o ócio e a acomodação são formas de lutar contra a opressão e onde qualquer um, por mais desinformado ou descomprometido com a causa feminina que esteja, é feminista a partir do momento em que assim se diz. 

Propagar esse tipo de ideia, essas ideias cultuadoras da “boa vizinhança” ou do ócio, dentro dos espaços de militância, como uma forma de lutar ou militar, é atentar contra o passado e o presente de lutas feministas, bem como ameaçar o futuro.

E eu entendo que essa provavelmente não era a intenção. A intenção de quem começou com essas ideias era, provavelmente, ter um descanso de tantas brigas e discordâncias internas. O que não muda o aspecto problemático dessas ideias, que parecem promover o descaso e a acomodação dentro de um movimento que só existe por causa do comprometimento de mulheres com uma luta que antes parecia impossível, e porque mulheres em algum momento da história fizeram a opção por não se acomodar em suas posições sociais de opressão, escolheram se incomodar e embater contra o sistema que criou e que mantem sua opressão, e contra a classe opressora.

Eu não vou ficar “de boa”, eu não vou me acomodar. Eu não tenho motivos para fazê-lo. A classe feminina sempre foi explorada, e eu não vou ser quem vai banalizar a luta que minhas irmãs suaram e morreram pra construir e consolidar. O feminismo não ter a ver com bem-estar pessoal ou com identificação, o feminismo é um movimento político de libertação feminina, tem a ver com aplicar as teorias do feminismo na militância virtual e presencial, tem a ver com prática, com formas de agir e de enxergar o mundo, e principalmente, com a luta pela libertação da classe feminina das garras do patriarcal, da violência de gênero e da exploração. 

Enfiar o ócio e o pacifismo dentro do feminismo é não somente banalizar a história da luta feminista, aliás, como também é se enganar achando que simplesmente ignorar os problemas, dentro e fora da militância feminista, vai fazer com que eles sumam. Se você quiser por seu bem-estar acima da luta, faça-o. Faça o que acredita melhor para você. Se acredita que realmente vai poder conquistar algo se valendo do pacifismo ou do que agora é chamado de “deboísmo”, então tente. Só não tente atribuir esse caráter acomodado e anti-revolucionário ao movimento feminista; no mínimo, promover isso é minar o feminismo combativo que, para mulheres vivendo em uma sociedade patriarcal, é a única forma de constituir não somente sua existência, mas também constituir resistência.

E a resistência é a única coisa que pode nos libertar. 

Se sua forma de militar mina o feminismo combativo, a resistência, o espírito revolucionário, ele não está realmente preocupado com a libertação feminista, e de gente minando ou silenciando essa libertação, a principal causa feminista, propositalmente ou não, o feminismo já está cheio.

Ser mulher não é simplesmente “calçar nossos sapatos”!

 

Adaptado de um texto de autoria de Julia Maria Fernandes, postado no Facebook. Ela me autorizou a adaptá-lo e  disponibilizá-lo aqui. Eu mudei algumas palavras que acreditei que fossem se encaixar melhor, mas procurei manter o sentido do texto original integralmente. Obrigada, Julia! ❤

 

Hoje meu recado vai para você, transativistas, em especial a uma que fez um texto direcionado para nós; mas também vai para todos os outros grupos anti-feministas e anti-espaços exclusivos de mulheres, o que tem se tornado um pleonasmo, ao meu ver.

Nós, mulheres, também passamos uma vida sendo apedrejadas.
No Oriente Médio, as maiores vitimas desse modo de execução são as mulheres, onde sua palavra de nada vale e grande parte parte das vezes seu julgamento não é justo. Sakineh Ashtiani é uma mulher de 43 anos e sua execução é iminente.
Os números são assustadores. Dentre os vários casos de execução, é mencionável o caso de  uma menina de 16 anos que foi enforcada, em 2004. Seu crime? Ela foi estuprada diversas vezes por um homem casado de 51 anos. Ele não foi a julgamento.

Também somos ridicularizadas desde a infância. Se não nos encaixamos nos padrões de beleza que nos são impostos, mesmo quando ainda somos crianças, somos convencidas que a nossa existência não vale. As mulheres estão em segundo lugar onde quer que elas estejam; somos a classe inferior, o “segundo sexo”. Menos no feminismo radical, movimento que você acusa de não reconhecer sua mulheridade — e olha, nós não temos essa obrigação.

Também temos nossos direitos básicos violados constantemente. A classe feminina compõe a maioria dos casos de vitimas de estupro, abuso domestico, violência obstétrica, pedofilia, assassinato marital. Os nossos estupradores são protegidos por uma lei falha e a nossa cultura nos culpa e aprisiona pelos abusos que sofremos.

Quanto ao direito de ter uma família, nos é negado o direito de não tê-la. Vivemos sob a autoridade dos homens da nossa família e, quando viramos adultas, somos obrigadas a constituir uma família graças à maternidade compulsória, que marginaliza mulheres que não querem abdicar de seus planos e sonhos em detrimento de outra(s) pessoa(s) — pois também é sabido que as obrigações de criar uma criança são de nossa responsabilidade e não dos homens (o serviço e as obrigações domésticas não são divididos de forma igual e quase sempre ainda são vistos como obrigação da mulher — o que acarreta a jornada tripla de trabalho feminina). Cabe a nós apagar ou tornar secundários nós mesmas e nossos objetivos em detrimento dos filhos.

Há, inclusive, uma tentativa de fazer vigorar uma lei que nos obriga a manter a gravidez em caso de estupro e ainda reconhecer o estuprador como o pai da criança. Uma mulher tem que constituir família: queira ela ou não.
E há quem diga que maternidade é privilegio — dentro de espaços feministas, inclusive.

Nossos nomes estão, de fato, de acordo com o nosso gênero e  vocês nos acusam de “nos identificarmos” com eles, e isso é degradante. Em uma sociedade cuja a visão e a imposição de gêneros visa beneficiar as pessoas do sexo masculino, como então poderia a binaridade dos gêneros beneficiar a mulher? Se, de acordo com a nossa análise, o gênero é uma arma patriarcal para a dominação e doutrinação das fêmeas, da classe feminina, que nesse contexto servem de auxilio emocional, doméstico, sexual e afetivo para homens?

Como podem dizer que nos identificamos com essa posição [que nos é imposta]? Apenas por nos conformamos com a feminilidade que a nós foi imposta com o intuito de nos fragilizar, vulnerabilizar, enfraquecer, odiar-nos entre nós, incapacitar-nos intelectualmente e nutrir um sentimento maternal e altruísta pelas pessoas do sexo masculino? Não nos identificamos com a feminilidade, tampouco com o que é “ser mulher”. Eu não me identifico com essa construção social que me foi imposta desde antes de eu nascer.

Se a ideia de gênero existente atualmente visa justamente viabilizar toda a violência que me atinge como mulher, por que então meu gênero seria negado? Meu gênero nunca me foi “concedido”. Meu gênero me foi empurrado goela abaixo e nada do que eu faça mudará os efeitos que isso teve na infância, juventude, crescimento e socialização de uma mulher. A trágica construção do ser mulher não pode ser neutralizada simplesmente se eu mudar meu nome e meu comportamento. A socialização feminina ainda estará lá e a socialização das pessoas do sexo masculino é uma vantagem sobre mim.

Quando você fala sobre a imposição dos padrões de beleza, você diz que isso pra ti é uma necessidade para que a sociedade te enxergue como mulher. A forma com que você fala faz parecer que esses mesmos conceitos de beleza e estética não existem e são destinados ESPECIALMENTE para as mulheres; como se não sofrêssemos abusos dessa instituição desde que nascemos. Comecei a usar maquiagem aos 8 anos de idade. Salto alto aos 7. E comecei a odiar meu próprio corpo muito antes disso.

Nosso problema não é simplesmente o fato de vocês performarem a feminilidade ao extremo. Nosso problema é vocês clamarem mulheridade simplesmente porque performam essa feminilidade. A única ideia de mulher que uma pessoa do sexo masculino pode ter é, claramente, observando as mulheres. Logo, a ideia de mulher para vocês parece ter somente a ver com a performance de gênero feminina. E isso, para nós. reforça ainda mais nossas opressões, pois ser mulher não é simplesmente isso. Ser mulher é nascer com uma vagina e ter a sociedade eficientemente construindo a “ideia de mulher” dentro de você.

Vocês não têm vivencias de mulher. Porque ser mulher não é simplesmente “calçar nossas sapatos”.
Vivência de mulher é começar a sofrer violência a partir do momento que você nasce.
PARE de querer fazer parecer que pessoas do sexo masculino podem ser e/ou são mulheres porque acharam a mulheridade atraente. Essas pessoas podem parecer, MAS NÃO SÃO.
Vocês são machos porque é essa a leitura social que ocorre sobre vocês, e leitura social faz toda a diferença. Se é a leitura social que determina a opressão, é por isso acreditam que ser mulher é uma boa ideia. E não é.

Mas pra falar a verdade mesmo, não é nem esse o nosso problema. Não podemos interferir em como vocês querem ser chamados e na individualidade de vocês. O problema é quando o teu ativismo começa a fazer mulheres acreditarem que a posição delas é de privilegio. Que lésbicas devem se relacionar com pênis. Que genital não faz diferença na vida de alguém, que a vagina socialmente e culturalmente não determina a mulheridade — e, consequentemente, a opressão — daquele individuo. Quando a transfobia se torna mais grave do que o ódio às vaginas, o ódio às mulheres que vocês alimentam para beneficiar seu movimento. O problema é vocês colocarem na cabeça de jovens mulheres que as maiores oprimidas são vocês e que nosso dever é militar pelas suas causas.

Meu problema é vocês quererem enfiar vossas presenças nos banheiros femininos, nos espaços exclusivos para mulheres, nas nossas vaginas e bocas. O problema é quando vocês exigem entrada liberada em nossos banheiros, mesmo que isso implique abrir brecha para que homens, que vivem e são lidos como homens, se aproveitarem disso para espionar e estuprar mulheres (e isso tem acontecido, viu?). O problema é vocês acreditarem que a noção de gênero de vocês é a unica e verdadeira e que qualquer outra, mesmo que montada por mulheres e para mulheres, deva ser execrada, mesmo que aquilo seja parte do único legado que nos resta. O problema é vocês combaterem os espaços que lutamos para conquistas para nós mesmas, para interagirmos com aquelas cujas vivencias são semelhantes às nossas. O problema é que socialização masculina envolve MUITA misoginia e eu tenho o direito de me proteger disso.

Eu não me importo se você se chama Marcelo ou Marcela, se usa saia ou vestido. Eu me importo quando o teu movimento me culpabiliza me jogando no “saco cis” e me acusando de me conformar ou me “identificar” com as opressões a mim impostas.

A misoginia e a lesbofobia na Política e em seus ambientes.

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Afinal, quantas vezes você já ouviu pessoas chamando a Dilma de “vadia” ou usando o termo “sapatão” para tentar ofendê-la, simplesmente por ela ser uma mulher que não se encaixa nos estereótipos atribuídos à mulheres e à “feminilidade”?

Esse texto é algo que eu sinto vontade de escrever faz um tempo e que, com a eleição se aproximando, vem se tornando mais e mais emergencial. Vou ser direta e deixar bem claro a necessidade que este pretende trazer à tona: precisamos urgentemente problematizar e lutar contra as críticas às mulheres na política que são essencialmente baseadas na misoginia e na lesbofobia.

Primeiramente, sinto a necessidade de dizer que todo governante é passível de erros. Isso inclui, sem dúvida, mulheres governantes. Independentemente da esfera na qual governam (federal, estadual ou municipal), essas mulheres, bem como qualquer governante, precisam ser cobradas pela população que representam. Elas também devem ser criticadas se cometerem erros durante seus mandatos, e tais erros devem ser lembrados durante as eleições. São os eleitores que devem decidir que erros são toleráveis e que erros não são; que pessoas eles acham que são competentes para os cargos políticos que estão concorrendo, e quais não. Não há nada de errado em não concordar com uma política só porque ela é mulher; o Governo Dilma, por exemplo, teve, SIM, várias falhas e não há nada de errado se você não conseguir simpatizar com a Presidenta ou não acreditar que ela seja a melhor opção para o nosso país. Eu não quero, com esse texto, isentar ela, ou qualquer outra mulher no meio político nacional ou mundial, de críticas.

Meu objetivo com esse texto é simplesmente apontar como, em uma sociedade patriarcal onde o poder está majoritariamente nas mãos dos homens e onde a classe masculina não se esforça em mostrar seu desgosto por mulheres poderosas , muitas das “críticas” direcionadas às mulheres governantes estão embasadas na misoginia e na lesbofobia, e em como isso é problemático e precisa urgentemente mudar.

Que o meio da política nunca foi muito receptivo às mulheres, todas nós com o mínimo de conhecimento histórico e social do patriarcado e do funcionamento deste já sabemos. Por séculos o poder mundial sempre esteve nas mãos da classe masculina, e somente depois de vários séculos desta hegemonia masculina que nós conseguimos, depois de muita luta, muito desgaste e muito sangue derramado, a chance de poder ter, também, voz sobre a política mundial.

Mas não é só porque mulheres conquistaram o direito ao voto (no Brasil, a nível de curiosidade, a conquista veio na década de 30) que elas automaticamente conseguiram espaço na política. Pelo contrário, a política continuou, por muito tempo, sendo uma “panelinha masculina”, onde mulheres raramente tinham qualquer espaço. E mesmo que eu esteja usando os verbos no passado, a situação hoje em dia ainda não é TÃO diferente de 82 anos atrás. Na verdade, o espaço das mulheres na política mundial, embora seja crescente, ainda é muito pequeno. Isto também ocorre nas esferas municipais e estaduais, e é fácil de notar quando, em um país onde 51% do eleitorado é feminino, menos da metade dos candidatos à Presidência da República são mulheres (temos 2 candidatas esse ano, o que corresponde a aproximadamente 18%). Há estados, como o Pará, onde não há sequer uma mulher candidata ao governo estadual. E, embora o número de candidatas ainda seja consideravelmente inferior ao número de candidatos, a situação poderia ser pior se não tivesse sido implantada uma lei que obriga todo partido e coligação a ter no minimo 30% e no máximo 70% de candidatos de cada gênero. A lei é importantíssima para estimular mulheres a fazerem cada vez mais parte da política, mas é preocupante saber como vários partidos colocaram mulheres como candidatas simplesmente para encher a “cota”.

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Embora sejamos mais da metade da população, a classe feminina ainda não têm o espaço que merece na política brasileira, e isso se deve a muitos fatores. Primeiro: desde cedo, mulheres não recebem incentivos para falar ou participar da política, seja como eleitoras compromissadas ou como candidatas. Socializadas para serem dóceis e amorosas, mulheres que são incisivas e que exigem seu espaço, seja este espaço político, econômico ou social, assustam o patriarcado e a classe masculina acostumada a ser “dona” de tudo, inclusive de tudo que tem a ver com força ou “pulso firme”. O quadro torna-se ainda mais assustador quando essas mulheres têm pulso firme e exigem espaço em um meio como a política, que pode lhes dar poder.

Mulheres poderosas e desteminas, não existe nada que assuste mais o patriarcado; e é justamente por isso, nosso acesso ao meio político sempre esteve limitado, independentemente do sistema político ou da época. Mas também há algo mais que afasta mulheres atualmente da política, e isto é o backlash, a reação exagerada e violenta da classe masculina a essa ascensão ao poder. A Presidenta Dilma Rousseff, por exemplo, sofre atualmente um violento backlash, carregado de misoginia e lesbofobia, como mostram os exemplos abaixo:


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(quando homens sugerem queimar mulheres simplesmente porque as consideram “vadias”, “sapatões”, porque elas não existem para satisfazê-los ou simplesmente porque elas existem, você começa a entender cada vez mais o significado da frase “somos as netas de todas as bruxas que nunca puderam queimar“)

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(nada mais misógino e patriarcal do que fazer piada com violência

doméstica, não acham?)

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(mais um pouco de ódio, misoginia e lesbofobia vinda dos “opositores” de Dilma)

 

Uma vez eu postei em meu perfil do facebook a seguinte frase, pensando em justamente incentivar a discussão acerca dos discursos misóginos usados para criticar mulheres que fazem parte da política:

“Fico me perguntando até que ponto essa raiva da Dilma é divergência política e a partir de que ponto já começa a ser influenciada pela misoginia latente presente na sociedade brasileira.”

O que eu não esperava (mas deveria ter esperado) é o gigantesco backlash que eu mesma sofri por isto, por ousar lembrar as pessoas, em especial a classe masculina, de que muitas das “críticas” que eles fazem são baseadas no ódio à classe feminina e às mulheres lésbicas. E, se eu, acostumada com debates políticos no meio virtual e com a forma agressiva que ele costuma tomar, me senti desprotegida a ponto de ter de fechar o post por semanas para esperar a “poeira baixar”… Não é difícil de imaginar que muitas mulheres desde cedo assimilem a ideia de que o meio político não é receptivo para mulheres, logo, elas não vão ter espaço ou respeito se decidirem fazer parte dele, seja como políticas ou como eleitoras informadas e questionadoras. Elas não estariam erradas: o meio político não é nada receptivo para com a classe feminina; ele tenta as silenciar e, quando não consegue, parte para a agressão clara, como nos prints que postei anteriormente. 

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“Estranho o quão limitado se torna o vocabulário masculino quando são confrontados por mulheres que são melhores que eles.”

Essas agressões pouco ou nada têm a ver com divergências políticas, embora possam, sim, ter a ver com estas. Essas agressões existem porque, como foi dito anteriormente, o patriarcado teme as mulheres poderosas e, especialmente, a forma como essas mulheres poderosas inspiram outras mulheres a também se levantarem por seus direitos, a lutarem pelo que acreditam… E, por que não, essas mulheres  também inspiram outras mulheres a também quererem tentar uma carreira na política. A classe masculina não tem interesse algum em dividir o poder, seja ele social, econômico, ideológico ou político. A classe masculina se sente afrontada quando mulheres avançam, os forçando a recuar. Não é surpresa, então, que a classe masculina seja quem normalmente lidere o backlash contra qualquer mulher que ouse adentrar esse espaço majoritariamente masculino, e esse backlash tem em tudo a ver com duas palavrinhas: vadia sapatão.

Costumo dizer que não existe mulher que nunca tenha sido alguma vez agredida com a palavra vadia ou semelhantes (como “puta”, “vagabunda”, entre outros), seja direta ou indiretamente. Vadia é um xingamento que visa justamente ofender uma mulher com base em sua vida sexual mas, além do que isso, o termo “vadia” é, também, usado frequentemente para ofender qualquer mulher que, em seus comportamentos ou em sua forma de agir, tente se assemelhar ou se assemelhe aos comportamentos esperados da classe masculina. O termo vadia tem um masculino, “vadio”, mas o sentido deste se limita a “um homem desocupado”, logo, o peso desta palavra jamais poderia ser comparado ao peso de sua “versão feminina”. 

Uma sociedade patriarcal é essencialmente falocêntrica, ou seja, é baseada na ideia da superioridade masculina, esta sendo simbolizada pelo falo. O patriarcado é adepto da ideia de que mulheres, seus corpos e mentes são moldados por falos ou homens, moldados por sua vida sexual. Mulheres então são julgadas, independentemente de terem muitas relações sexuais com machos ou não se relacionarem com eles. A mulher que, na política, ousa ser incisiva ou ter pulso forte; a mulher que faz questão de exigir seu espaço num meio como a política, então, sofre tentativas de silenciamento parecidas com as que seus companheiros de luta do sexo masculino sofreriam, mas também sofrem o backlash intimamente ligado com a misoginia, com o ódio e o silenciamento feminino, que tais companheiros parte da classe masculina jamais passariam. Um exemplo disso é como várias pessoas que são contra o PT chamam tanto o Lula quanto a Dilma de “ladrões”, mas incrivelmente, somente Dilma tem sua sexualidade questionada (talvez por não se encaixar totalmente na feminilidade, por ser divorciada ou por ser, novamente, uma liderança com poucos traços do que se espera de uma mulher patriarcal em qualquer espaço; a docilidade, a gentileza e a necessidade de agradar a todos que é esperada das mulheres) ou é duramente chamada de “mulher macho” ou de “masculina”, não por se assemelhar com indivíduos da classe masculina e da forma como eles pensam e agem social e politicamente, mas sim por ousar não se enquadrar no que a feminilidade exige de indivíduos da classe feminina. 

Simone de Beauvoir certa vez disse, “O homem é definido como ser humano e a mulher é definida como fêmea. Quando ela comporta-se como um ser humano ela é acusada de imitar o macho“. Acredito que tal frase resuma muito bem o que falei antes, sobre como toda vez que mulheres, estejam elas dentro ou fora da política, ousam desafiar os papéis que lhe foram impostos… Toda vez que mulheres ousam não se encaixar no que a feminilidade nos impõe, toda vez que elas ousam serem humanas, elas são chamadas de “mulheres macho” e são acusadas de quererem ser como os homens. Você já viu Dilma ser acusada de tal forma, e eu também já vi. É simplesmente comum, e isso ocorre porque ao macho não é somente reservada a masculinidade; a ele também pertence a neutralidade; e, ao dominá-la, a classe masculina também domina o direito de definir quem tem direito à humanidade e quem não têm, e acredite em mim, esse direito nunca nos será concedido sem dor e sem luta, simplesmente porque a classe masculina não está interessada em dividir os privilégios (afinal, se todos puderem acessar tais privilégios, eles privilégios não serão mais e sim direitos, e para a classe dominante, isso jamais é interessante). 

E é lógico que, em uma sociedade onde a mulher é marginalizada e agredida de todas as formas possíveis, bem como silenciadas e impedidas de acessarem as condições necessárias para que tivessem uma real melhora de vida, tanto de forma individual como de forma coletiva, a situação de mulheres que ousam amar outras mulheres e, acima de tudo, que se recusam a servir emocional e sexualmente à classe masculina, é ainda mais delicada e precária. Toda mulher que ousa fugir da lógica da heterossexualidade compulsiva, toda mulher que não existe em função do prazer masculino (e que não faz parte dele voluntariamente também) é marginalizada. Para piorar, existe algo ainda mais cruel que essas mulheres sofrem, e isto é o isolamento, tanto social, quanto emocional e político. Mulheres não-lésbicas são ensinadas a se distanciarem de mulheres lésbicas a todo custo, bem como são ensinadas a se distanciar dos estereótipos atribuídos à lesbianidade (e o fazem, logicamente, jogando para debaixo do ônibus mulheres lésbicas e suas existências). Quando um homem usa o termo sapatão (bem como outros termos que façam referência à lesbianidade de forma ofensiva) para se referir à uma mulher que faz parte da política, independentemente da sexualidade da mesma, ele faz isso com um único objetivo: fazer com que mulheres sintam-se impulsionadas a se distanciar desta mulher ao invés de apoiá-la e de lutar com e por ela.

É uma tática que parece seguir a ideia de “dividir para conquistar”, na verdade. Eles tocam numa ferida que nos foi aberta durante nossa socialização: essa necessidade de nos distanciarmos de toda a ideia da lesbianidade. Aliás, grande parte das mulheres lésbicas por muito tempo tiveram dificuldades de se identificarem em público como lésbicas; muitas delas ainda o tem. Se identificar abertamente como lésbica é dar a cara a tapa para uma sociedade que, além de homofóbica, é misógina. A lesbofobia é violenta, e ela não só promove violência direta como promove esse isolamento; não se pode julgar as mulheres lésbicas que ainda não se sentem prontas para lidar com tudo isso (e nem as que nunca estarão de fato prontas para lidar com tudo isso). E essa necessidade de se afastar de tudo que envolva lesbianidade e das próprias lésbicas, por ser algo que somos socializadas para sentir, exige uma mudança mais profunda na forma em que mulheres são criadas; exige a abolição dos gêneros.

A única chance de mudança real existente para nós, mulheres, e para a conquista do espaço político (e social, econômico e todos os outros espaços que historicamente nos foram negados) para a classe feminina, também se mostra a mais dolorida: para que possamos abrir caminhos para chances reais de mudança (para melhor) das condições da classe feminina, bem como a conquista de nossos merecidos espaços e da articulação da luta que precisa ser travada, da revolução que é necessária para a libertação real e completa da classe feminina como um todo, é necessário que cada vez mais mulheres abram espaço por entre o glass ceiling e tantas outras dificuldades que o Patriarcado nos coloca e que façam suas vozes serem ouvidas; precisamos, urgentemente, de mulheres corajosas para pressionar e se fazerem presentes em meios essencialmente masculinos, a política sendo o espaço mais emergência. Precisamos de mulheres marcando presença em todas as esferas de poder em nosso país; mulheres governando e desafiando a lógica patriarcal da concentração de poder na mão da classe masculina, mulheres que se comprometam em governar por e para a classe feminina e sua libertação. 

Mas, mais do que isso, a necessidade mais urgente é também a que o patriarcado mais teme que coloquemos em primeiro lugar: a união entre mulheres, a ideia de “mulheres ajudando mulheres”, a sororidade. O patriarcado é forte; somente uma grande união entre a classe feminina será forte o suficiente para embater com ele e lutar pela libertação de todas as mulheres. Precisamos nos juntas, articular nossas lutas, deixar as disputas de ego de lado e nos focar em estudar e debater como trazer nossa luta cada vez mais para o plano presencial, como usá-la para ajudar outras mulheres a terem contato com o movimento que quer lutar por e com elas, e assim criar uma unidade forte e determinada a realmente se ajudar para a conquista maior; para o fim do patriarcado e de todos os demais sistemas que oprimem e limitam, direta ou indiretamente, a classe feminina. 

“As mulheres são como águas, crescem quando se encontram.”

Se a existência de uma ou de algumas mulheres no poder já incomoda tanto o patriarcado e a classe privilegiada masculina, vocês conseguem imaginar o quão poderosa seria a existência de várias mulheres fortes e poderosas, governando em conjunto e lutando pela e com a classe feminina? Mulheres, juntas, lutando em conjunto para o bem da classe feminina? Uma visão poderosa, sem dúvida. Poderosa e revolucionária.

Por que o feminismo radical é acusado de ser conivente com a “transfobia”?

Porque, aparentemente, polêmica pouca é bobagem

Não é novidade para ninguém, atualmente, que o feminismo radical é incessantemente acusado de promover ou ser conivente com a transfobia, simplesmente porque esta vertente feminista tem uma visão diferente acerca da definição de gêneros e do peso social que a socialização tem na existência social de alguém.

Como feminista radical, acredito que falo por todo o movimento quando digo que nós jamais vamos apoiar ou incentivar qualquer tipo de desumanização ou violência contra ninguém, incluindo pessoas que se identificam como trans. Somos a favor dos direitos humanos e acreditamos que eles devem ser como na teoria são: universais. Feministas radicais em momento algum vão incentivar a agressão ou a violência contra nenhum tipo de pessoa.

Discordar de alguém, contudo, não é uma forma de violência. Isso é, aliás, um conceito deturpado com o qual nós (infelizmente) entramos em contato logo durante nosso início na militância feminista: a ideia de que a discordância, de que a crítica a posicionamentos e a problematização de atitudes ou formas de pensar é necessariamente um ataque pessoal aos indivíduos que agem dessa forma ou perpetuam essas ideias. Nós não “odiamos pessoas trans”, mas não podemos negar que, entre a política da “identidade de gênero” e o feminismo radical há, sim, uma grande discordância.

Feministas radicais são críticas do gênero em si. Não não temos como projeto a reforma dos gêneros – nós somos abolicionistas de gênero. Vemos o gênero como uma opressão, já que ele divide seres humanos em duas classes distintas, ambas com papéis de gêneros e socializações diferentes. Embora ambas as classes sejam individualmente oprimidas por serem limitadas por esses papéis de gênero e moldadas por suas formas de socialização, o gênero, por estar intimamente ligado com o patriarcado, é também o que separa os indivíduos em classes “masculina” e “feminina” e que, com base em formas de socialização distintas, é essencial para executar a opressão da classe privilegiada e opressora masculina sobre a classe oprimida feminina. Por ser um movimento de cunho revolucionário, o feminismo radical crê que, a ausência dos papéis de gênero socialmente construídos e que formam a base essencial do patriarcado, essencial para qualquer revolução que busque libertar a classe feminina, acabaria com todo tipo de código social que defina o que pessoas do sexo masculino e feminino podem ou devem fazer (ou não fazer), assim tornando-as livres para se vestir, se comportar, e amar umas as outras da forma que desejassem, independentemente de que tipo corporal ou sexo elas tivessem nascido com.

Como já foi dito antes, o patriarcado é o sistema que pega seres humanos que nasceram sendo biologicamente machos ou fêmeas e os transforma nas classes sociais chamadas de “homens” e “mulheres”. O que foge ao entendimento de muitos é que, embora seja um sistema classista, o Patriarcado em mais parece um sistema de castas do que de classes, já que não existe uma verdadeira mobilidade entre as classes privilegiada e oprimida, entre as classes masculina e feminina. Pessoas do sexo masculino são transformadas em homens pela socialização masculina, que é definida por uma psicologia baseada na dormência emocional e na dicotomia entre o eu e e outro. Enquanto isso, a socialização feminina no patriarcado parece ser um processo de psicologicamente constranger e destruir meninas – processo esse também chamado de  “preparação”, preparação esta para criar uma classe de vítimas conformes. A feminilidade é uma série de comportamentos que são, em sua essência, pura submissão ritualizada.

Não conseguimos enxergar nada na criação ou na constituição do conceito de “gênero” que valha a pena ou deva ser celebrado ou aceito. O Patriarcado é um arranjo de poder brutal e corrupto e nosso objetivo é “desmantelá-lo” até que estas categorias de gênero não existam mais, bem como outros critérios de divisão de grupos e classes criados em função de dar privilégios a um grupo enquanto oprime outros grupos, de forma histórica, social, econômica e política (e por isso também que o feminismo radical pode dialogar com outras lutas libertárias de cunho revolucionário, como a luta pela libertação do sistema de classes [sócio-econômicas],  pelo fim da discriminação de raças [fim do racismo], etc).

De acordo com a nossa concepção, a verdadeira liberdade da classe feminina nunca será possível enquanto os gêneros existirem, justamente por estes serem sistemas usados para moldar a masculina de forma a receber privilégios pela opressão que eles nos infligem (já que no patriarcado, é estra classe que detém o poder) e molda a classe feminina para ser submissa diante de sua opressão e, não contente em normalizar nossa opressão e a violência que inflige sobre nós, ainda nos faz acreditar que essa opressão é, de alguma forma, seja esta científica, histórica ou religiosa, natural, necessária ou certa. O patriarcado facilita a exploração de corpos femininos para o benefício dos homens – seja para a satisfação sexual masculina, seja como mão de obra barata ou pela reprodução. Apenas para dar uma rápida exemplificação, existem aldeias inteiras na Índia onde todas as mulheres só tem um rim. Por quê? Porque seus maridos têm o costume de vender o outro. Gênero é muito mais do que um “sentimento” ou uma “identidade” — é uma violação contra direitos humanos de uma classe inteiras de mulheres, ou como diria Andrea Dworkin em “Against the Male Flood: Censorship, Pornography, and Equality”, pessoas chamadas mulheres.

Nós, feministas radicais, não somos “transfóbicas”, mas temos, sem dúvidas, discordâncias com reformistas de gênero sobre o que o gênero realmente é. Reformistas de gênero acham que o gênero é natural, quase um produto da biologia humana. Feministas radicais e pessoas abolicionistas de gênero encaram este [o gênero] como algo social, que produz e é produto da supremacia masculina, logo, é essencial para a manutenção desta. Reformistas de gênero encaram gênero como uma “identidade”, um conjunto interno de sentimentos que as pessoas possam ou não ter. Feministas radicais e abolicionistas de gênero encaram gêneros como o sistema patriarcal de “castas”, conjuntos de condições materiais e sociais nos quais um indivíduo já nasce imerso. Reformistas de gênero o encaram como um binarismo, enquanto feministas radicais e abolicionistas de gênero o encaram com uma hierarquia; hierarquia esta na qual quem está no topo é a classe masculina. Alguns reformistas de gênero afirmam que o gênero é algo “fluido”. Feministas radicais apontam que não há nada de fluido em ter seu rim posto a venda pelo seu marido. Então, sim, nós temos algumas grandes discordâncias ideológicas.

Feministas radicais também acreditam que as mulheres devem ter o direito de definir suas fronteiras e limites e decidir quem deve ser incluído em seus espaços exclusivos (e sim, também acreditamos na necessidade desses espaços exclusivos). Acreditamos que todos os grupos oprimidos têm esse direito. Somos constantemente chamadas de transfóbicas por apoiar a decisão de várias mulheres de não ter homens – pessoas nascidas com o sexo masculino e socializadas na masculinidade – em espaços exclusivamente femininos.

Se o feminismo com o qual você está acostumada não tem como prioridade fundamental a segurança das mulheres, se o seu feminismo não prioriza as causas destas mulheres e se ele não coloca como seu objetivo máximo a libertação da classe feminina do patriarcado e todos os sistemas que as aprisionam [mulheres] (e não a reforma destes sistemas, que seriam ineficientes para promover a real libertação das mulheres), então talvez seja a hora de parar e refletir se esse feminismo está realmente comprometido com a causa feminina.

Sobre quando os debates feministas viram “disputa de egos”…

Esse texto é um texto que busca incentivar a reflexão. É um texto radical direcionado às feministas radicais e simpatizantes, em especial as que estão começando. Ele não busca, de forma alguma, “julgar” ou “corrigir” ninguém, mas incentivar que nós, feministas radicais, iniciantes ou não, possamos parar e refletir se estamos agindo de forma correta quando estamos em debates “mistos”, ou seja, debates entre mulheres de vertentes diferentes, com pensamentos diferentes, e que muitas vezes podem se sentir hostilizadas por algumas formas de abordagem. E, se uma mulher se sente hostilizada pela nossa abordagem, isso demonstra que talvez seja necessário repensar isso.

Primeiramente, eu creio que seja algo claro hoje em dia que muitas de nós só se permitiram dialogar com o feminismo radical quando fomos hostilizadas ou vimos mulheres sendo hostilizadas por pessoas trans/transaliados. Embora eu acredite que uma mulher possa e deva ser bem recebida no feminismo radical independentemente do que a motivou a procurá-lo inicialmente, eu acredito que muitas dessas moças venham para o feminismo radical mais por se sentirem acolhidas por esta corrente do que por serem ideologicamente alinhadas ao feminismo radical.

Não me entendam mal: não há nada de errado nisso, não mesmo. Mas eu tenho receio de que muitas dessas moças possam ter ideias equivocadas sobre o que o feminismo radical é, sobre nossas pautas e lutas, e quando elas discutem em grupos “mistos”, elas as vezes podem passar a ideia errada sobre o movimento para outras moças, e isso é sintomático.

Deixe-me ir direto ao ponto: após discussões em grupos majoritariamente liberais, já que são grupos onde grande parte das moças são iniciantes, eu comecei a perceber “comportamentos em comum” por parte de muitas dessas meninas radicais iniciantes, e isso me preocupou. Quero falar um pouco sobre tais comportamentos nesse texto, com o objetivo de incentivar a auto-análise e, novamente, a reflexão.

O primeiro comportamento que notei foi a atitude debochada. Embora eu entenda que em muitas situações que consideramos absurdas, nós costumeiramente acabamos preferindo ser debochadas do que nos irritar com nossas irmãs num debate. Eu realmente entendo a motivação desse comportamento, mas ele é problemático. Entenda, socialmente, mulheres aprendem desde cedo a se silenciarem; aprendemos que o que pensamos não é relevante. Quando uma mulher começa a dar suas opiniões, ela é logo vista como “histérica”, “exagerada”, “irritada”… Quando uma mulher feminista começa a opinar sobre algo, seus discursos são ignorados ou zombados por quem está fora da lógica feminista. Como feministas, faz-se necessário que nós não nos apropriemos dessa prática. Logicamente, mulheres podem produzir discursos preconceituosos, e esses devem ser analisados, problematizados e criticados. Agora, “debochar” do discurso de uma mulher, além de ser falta de educação e de sororidade, é improdutivo. Nenhum diálogo vai poder ser feito se uma das partes vai debochar de tudo que não concordar vindo do outro lado, e como mulheres feministas, nós PRECISAMOS buscar o diálogo com as mulheres. 

“Mas elas começaram a me ofender/zombar de mim primeiro!”, é algo que eu escuto bastante como resposta. Primeiramente: não estamos na primeira série. Você não puxa o cabelo da coleguinha porque ela puxou o seu primeiro; somos pessoas crescidas, somos seres racionais e o diálogo deve ser nossa arma e nosso escudo. Se a “coleguinha” se mostrar não disposta a travar um diálogo que não seja debochado ou passivo-agressivo, a melhor dica que posso lhes dar é: SE AFASTE! Se fica claro que o diálogo entre suas ideias não vai funcionar e que continuar insistindo nisso só vai ferir e desgastar ambas as partes, talvez seja melhor dar tempo ao tempo, se afastar, focar em outras coisas. Até porque muitas vezes o tempo, e só o tempo, permite que algumas pessoas se tornem mais abertas a dialogar e entender o outro lado. 

Outro comportamento que eu vejo e que em muito me incomoda, e que claramente é um traço que muitas meninas ainda carregam de suas épocas como feministas liberais, é o costume problemático de tentar resinificar termos. Não, amiga, você não é “terf”, “femista”, “feminazi”, “extremista”, “bucetista”, “radscum” nem nada assim. Não permita que outras pessoas, especialmente pessoas do sexo masculino, definam sua militância. Não permita que gente que pouco ou nada sabe do feminismo radical tente “definir” sua existência, como feminista radical, utilizando-se de termos depreciativos ou simplesmente absurdos inventados para segregar-nos e ao nosso feminismo. Eu poderia me prender explicando o quão cada termo desses é absurdo, mas acredito que já existam vários textos falando sobre o assunto, então não, não pretendo me demorar nisso. Creio que já deixei claro o que eu queria dizer.

Quando você assume o termo “terf” pra si, diz que é “terf com orgulho” ou algo assim, você acaba “confirmando” na cabeça de mulheres que ainda não têm contato com o feminismo radical a ideia equivocada de que nossas teorias se resumem a “excluir trans” (acusação absurda) ou, pior, “eliminar trans”. Nossas pautas não se resumem a pessoas trans, não demonizam pessoas trans e nem nada parecido. Nossas pautas são sobre pessoas nascidas, socializadas e lidas como mulheres, pessoas que sofrem e são afetas pela misoginia, que são acorrentadas pela opressão de gênero e que sofrem as consequências de ter uma socialização feminina em uma sociedade que odeia mulheres. Sem falar que, além disso, quando você resinifica termos assim, você permite que indivíduos socializados como homens, novamente, definam sua militância. Isso tem de ser problematizado urgentemente.

Outra coisa que vale uma menção, é aceitar ou apoiar a ideia de que feministas radicais “acham que gênero e sexo é a mesma coisa” ou que “são genitalizantes”. Não somos nós, feministas radicais, que somos “genitalizantes”: a nossa sociedade é. Nós não concordamos que pessoas devem ser socializadas para ser “homem” ou “mulher” desde o nascimento, levando em conta os genitais. O que nós não podemos nos dar ao luxo de fazer, contudo, é ignorar que é assim que se as coisas são feitas na sociedade em que vivemos.

É como discutir preconceito de classe, realmente. Eu, como mulher socialista, não concordo que pessoas tenham que vender sua força de trabalho para sobreviver,enquanto existem pessoas lucrando com a força de trabalho deste e de tantos outros indivíduos. Eu não concordo com a concentração de capital, eu não concordo com a meritocracia, eu não concordo com o neo-liberalismo, eu não concordo com todos os sistemas construídos para manter o capitalismo como sistema econômico mundial que, pautado na exploração e na opressão de classe, faz de quem é pobre cada vez mais pobre e de quem é rico, cada vez mais rico. Eu não concordo com nada disso, de verdade. PORÉM, se eu realmente quero propor mudanças reais,s e eu realmente quero propor uma revolução que libertará os seres humanos disso, eu primeiramente tenho de parar de me iludir e aceitar, sim, que é dessa forma que as coisas acontecem no mundo real. Porque, você sabe, não é ignorando que o capitalismo, suas causas e consequências existem que isso vai deixar de existir. 

Da mesma forma, feministas radicais enxergam o gênero como um elemento patriarcal fundamental para a opressão que a classe masculina impõe à classe feminina, de forma histórica, política, econômica e social. Se nós queremos propor uma revolução social que irá libertar mulheres de padrões de gênero que sempre as oprimiram e que as oprime até hoje (revolução essa que, consequentemente, também libertaria homens de suas próprias amarras de gênero, mas que tem como princípio fundamental a libertação do oprimido, ou seja, da classe feminina), precisamos primeiramente aceitar e entender o funcionamento e as bases da opressão de gênero – como ela funciona, o que a mantém funcionando e seu papel na manutenção do patriarcado. Nós não acreditamos que “gênero e sexo são a mesma coisa” ou somos “genitalizantes”; tudo o que fazemos é pautar nossas análises no mundo real e em como as coisas acontecem neste mundo real, ao invés de fazermos análises pautadas em teorias utópicas e equivocada sobre gêneros e seus funcionamentos. 

O que eu indicaria a todas essas meninas, e eu sei que isso vai soar academicista, mas é necessário… É que elas leiam mais teoria radical. Não existe um “limite” de conhecimento sobre a teoria radical, porque esta está em constante fase de crescimento e mudança. Feministas radicais estão sempre teorizando e é importante para TODAS NÓS estaemos em contato constante com textos e obras de cunha radical, lendo-as, digerindo-as e fundamentando cada vez mais nossa militância. Também é importante, mais do que simplesmente discutir com feministas de outras vertentes, deixar claro para essas mulheres que elas têm direito de pensar de forma diferente, e que você acredita que vocês duas possam coexistir e serem amigas mesmo pensando diferente. Afinal, nossos relacionamentos com outras mulheres não devem ser limitados ou pautados por teorias, mas sim pautados, acima de tudo, na sororidade e no respeito.

Não permita que os debates feministas se transformem em “disputa de egos”, onde um lado parece mais disposto a atacar o outro com unhas e dentes do que realmente discutir teorias e buscar soluções, articular lutas e tanto mais. Se o “outro lado” (odeio polarizar o movimento, odeio mesmo, mas como é um texto para explicar algumas coisas, creio que a linguagem mais simplista é essencial) provocar, talvez seja uma boa lembrar dos conselhos de nossas mães e professoras: deixar a coisa toda de lado. “Quando um não quer, dois não briga” pode não se rum ditado que funciona sempre, mas quando estamos falando do funcionamento interno do movimento feminista, talvez seja interessante relembrá-lo. Porque, no fim, não existem “os dois lados” dessa moeda: feministas liberais, interseccionais, transaliadas, radicais… Somos todas mulheres tentando sobreviver, e tudo do que não precisamos é que o movimento que luta pela nossa liberdade se torne uma briguinha de escolha, uma disputa de egos ou um espaço onde não nos sentimos seguras para nos pronunciar ou tirar nossas dúvidas sem sermos atacadas por nossas próprias irmãs.

Paciência é algo essencial quando estamos dialogando e discutindo com mulheres, especialmente mulheres que não pensam do mesmo jeito que a gente. Acredito que seja mais produtivo para quem não tem isso, para quem não tem paciência de dialogar com pessoas que podem, sim, se torar debochadas ou passivo-agressivas, seja por serem iniciantes ou por terem se tornado “fechadas” à novas ideias e formas de pensar, que prefira deixar uma discussão deixando claro para outras mulheres que você sempre estará disposta a ter um diálogo saudável com elas ou que sempre irá apoiá-las, do que deixar-se consumir pelo calor do debate e acabar ferindo você e suas irmãs no caminho.

Vale lembrar que, dificilmente, uma mulher que tiver sofrido alguma forma de “trauma” ou que tenha sido ofendida por alguém de uma vertente feminista vai ser paciente ou estará aberta ao diálogo com essa vertente. Cada mulher tem seus limites e esses têm de ser respeitados. Não é produtivo nem saudável IMPOR suas ideias a essas mulheres, especialmente quando elas deixam claro que não se sentem a vontade com isso. Eu sei que dói, que dói ver irmãs atacando irmãs, que dói ver mulheres atacando o que você pensa sem sequer terem tido a chance de ter contato real com o feminismo radical, mas não é indo nos espaços de feministas dessas vertentes e esbravejando contra o que elas pensam que você vai conseguir que alguma delas te dê ouvido. Muito melhor e mais produtivo que isso, porém, é lentamente tentar tornar essas mulheres mais abertas ao diálogo, conversar com elas, explicar sua forma de pensar aos poucos e dar a elas a chance de digerir isso tudo e de decidir o que elas pensam sobre isso, sobre você e sobre sua forma de ver.

É nisto que eu acredito, e são nesses princípios que eu tento pautar minhas ações e falas quando estou discutindo com outras mulheres. Espero que algumas de vocês, irmãs, possam usar este texto para auto-análise e reflexão e chegar na conclusão de como vocês acreditam ser melhor levar e construir a militância de vocês.

A política de identidade de gênero machuca as mulheres.

É sempre complicado e polêmico tentar começar uma discussão sobre identidade de gênero, já que tudo que tem a ver com “individualidade” e “escolhas pessoais” é vangloriado e protegido com unhas e dentes por correntes feministas que concentram suas análises na esfera individual, ao invés de analisarem nossas sociedade patriarcal e os elementos que lhe sustentam ou que são consequentes dela levando em conta as classes de pessoas, os interesses e a posição de poder das mesmas. E, já que estas correntes não exigem que haja problematização de nossos “gostos pessoais” já que indivíduos são “seres individuais fazendo escolhas individuais e sem conexão”, ela consequentemente é muito mais “atrativa” para quem está começando a ter contato com as discussões do feminismo; e seria um estágio saudável, se não fosse pelo fato de muitas mulheres se sentirem tão confortáveis com o movimento que engole tudo e não critica nada que estagnam no estágio que deveria ser intermediário; no Feminismo Liberal.

Então, sim: conversar com mulheres que ainda estão presas na forma de análise e de pensamento do Feminismo Liberal sobre a problematização da política de identidade de gênero é sempre muito delicado, assim como é delicado tocar em qualquer outro assunto que exija não somente senso crítico, com também mente aberta para o diálogo, para a problematização, bem como bastante paciência da parte de quem está iniciando essa discussão. Eu não sou a pessoa mais paciente do mundo; creio que devo ser uma das pessoas mais impacientes que conheço. O que alimenta esse texto não é minha paciência, porém, mas minhas teimosia e a necessidade latente de discussões desse tipo.

Espero do fundo do meu coração que, seja lá quem for você, mulher, que esteja lendo isto agora, esteja fazendo-o por estar realmente disposta a sequer dar uma chance para novas formas de enxergar a militância pela liberdade feminina batizada, muito antes de eu nascer, de “feminismo”. Não pretendo com este texto impor minha visão ou minha forma de pensar, mas somente expor minhas visões sobre este assunto. 

Sem mais delongas, creio que o mais adequado agora seria começar a discussão com a frase usada no título deste texto:

“A política de identidade de gênero machuca as mulheres.”

Gostaria, então, de explicá-la.

A gritante maioria de nós entra em contato com o movimento feminista por meio do Feminismo Liberal, pelos motivos que já citei anteriormente. É muito mais fácil aceitar um movimento que quer te “empoderar” (entenda as aspas aqui) do que o movimento que logo de cara tenta problematizar o que você sempre aprendeu a encarar como certo, como bom, como saudável, como normal. O nome desse feminismo, contudo, não é por acaso: em muitos pontos ele lembra, está conectado ou dialoga com o liberalismo, e isso é problemático. O que há de mais liberal neste feminismo provavelmente é o individualismo.

O feminismo liberal dificilmente falará de projetos reais de derrubada do patriarcado e dos papéis de gênero; ao menos não enquanto ele simplesmente pode nos oferecer “resinificações” das nossas antigas opressões (p.e. o incentivo que essa corrente feminista dá a resinificações de termos ofensivos, como “vadia”, “puta”, “feminazi”, etc, partindo da ideia equivocada de que “um termo só é ofensivo enquanto nós nos ofendemos com ele”, que é claramente falha quando levamos em conta a carga que histórica e socialmente um termo carrega e como esta não pode ser apagada por resinificações superficiais) e identidades de gênero: tantas quanto podemos pensar, e mais algumas.

A ideia que isso [identidades de gênero] envolve é a de que gêneros, ao invés de serem somente “uma caixinha masculina e uma caixinha feminina”, previamente delimitadas e nas quais indivíduos devem se enquadrar, são na verdade várias caixinhas, de formas diversas, com papéis de gênero diversos e nas quais você não precisa se encaixar e pode chegar ao ponto de simplesmente poder “experimentar” o melhor que cada caixinha há de oferecer antes de decidir qual a que gosta mais (ou, melhor ainda: não decidir por nenhuma e criar uma nova, só sua). Ideia bonita, não acham? Bonita, porém utópica.

Utópica porque gêneros, na vida real, não são belas e infinitas caixinhas. Na vida real, que é aonde análises têm (ou ao menos deveriam ter) de ser feitas, gêneros são, sim, apenas duas caixinhas previamente delimitadas: a masculina e a feminina. É assim que acontece, na vida real, e afirmar isso não é concordar com isso: é simplesmente dizer não ser tão ingênua a ponto de ignorar a realidade porque ela não me satisfaz. De qualquer forma, na vida real, gêneros são caixinhas nas quais você é encaixado desde que seus pais têm ciência do que, no patriarcado, é o que é considerado crucial na hora de delimitar quem você será, do que irá gostar e, o mais importante, qual será o nível de liberdade, de poder e de voz que você terá, tanto social, quanto política e economicamente: o seu sexo.

Para tornar o post mais ilustrado e ajudar na compreensão, trouxe imagens [obviamente meramente ilustrativas] das nossas “caixinhas”, dos gêneros nos quais fomos encaixados de acordo com nossos genitais:

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Estas duas caixas são distintas, e ser criado dentro de cada uma delas trará a um indivíduo consequências e experiências diferentes ao longo da vida, simplesmente porque, levando em conta a “caixinha” na qual você foi encaixado (o que não quer dizer que você se encaixe lá), você desde pequeno será criado, ensinado e tratado de forma distinta de indivíduos da “caixinha diferente”.

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Mas o conceito de “gênero” não para simplesmente por ai. Não é somente a delimitação de um indivíduo em uma das “caixinhas” que vai decidir a forma como ele crescerá e se comportará, mas sim a forma como ele será criado para se encaixar na “caixinha” da qual faz parte; e é graças a essa característica fundamental à existência do gênero, a socialização, que podemos entender o que o gênero realmente é: parte inerente da opressão patriarcal da classe masculina sobre a classe feminina.

Meninos e meninas são criados de forma diferente. Desde novos, meninos são criados com uma considerável liberdade para explorarem o mundo do qual fazem parte, para sonhar e para se auto-descobrirem. Enquanto isso, meninas são desde cedo ensinadas a se cobrir, a se calar, a se colocar “em seus devidos lugares”. Elas aprendem a deixar de fazerem o que gostam porque “não é coisa de menina”, a não expor o que pensam porque “vão parecer irritantes”. Elas também aprendem desde muito cedo, embora muitas vezes inconscientemente, sobre o privilégio masculino: meninos podem correr, podem brincar, podem ter o que quiserem, podem se tocar e podem tocá-las a seu bel-prazer — afinal, “boys will be boys”: não são eles que terão de aprender a te respeitar, mas sim você que terá de “se dar ao respeito” e aprender a lidar com isso.

A medida em que estas crianças crescem e chegam à puberdade, a diferença na forma com que são tratadas só aumenta: embora ambos os indivíduos sejam pressionados pela heteronormatividade, a liberdade masculina sobre seu próprio corpo (e, vale lembrar, a implícita liberdade a eles dada sobre os nossos corpos) que é dada ao indivíduo do sexo masculino, bem como o conhecimento de sua anatomia, de seus desejos e a chance bem maior de poder exercer e experimentar com sua sexualidade é negada às jovens mulheres; essas, que desde cedo assimilam a ideia de que tudo que é socialmente associado com elas, com meninas, é “ruim”, “errado”, “fraco”, “bobo”, agora se veem cada vez mais pressionadas por padrões que irão acompanhá-las para o resto de suas vidas, e que, por mais que elas tente ignorá-los e fingir que eles não existem, estarão lá e serão motivo de muitos problemas que elas possam vir a ter com relação à auto-estima: os padrões de beleza.

Meninas cada vez mais novas já se vêem pressionadas a começar a usar maquiagem para “esconder suas imperfeições”, fazer dietas malucas ou se privar de comer o que gosta (e, em casos extremos e que devem ser tratados, pois são distúrbios alimentares, se vêem pressionadas a se privar de comer, em geral). Essas meninas aprendem que “a beleza custa caro”, mas ao mesmo tempo, não enxergam outra alternativa senão se submeter a procedimentos doloridos, incômodos, por vezes caros e que lhes proporcionarão resultados que elas gostaram, muitas vezes, muito mais porque foram ensinadas a gostar deles do que puramente por seus gostos pessoais. E esses ciclos, de sofrimento, de silenciamento e de submissão, são aprendidos, assimilados e farão parte da vida destas mulheres, quer queiram elas, quer não.

Embora tanto a socialização masculina quanto a feminina sejam “forçadas” a esses indivíduos e mesmo que nenhum deles tenha voz para “escolher” coisa alguma, é inegável a forma como os gêneros foram criados e funcionam para a manutenção do sistema de privilégios masculinos e da opressão feminina, já que mulheres são socializadas em um sistema que as diminui, as silencia, as explora, limita seus espaços, as priva de conhecimento, de auto-conhecimento, de direitos e, em geral, de liberdade.

Como eu já disse antes, o conceito de “ser mulher” sempre esteve associado com a minha dor. Minha “identidade” feminina não provem de um “cérebro feminino” pois, assim como qualquer outra mulher, eu não me encaixo e duvido que um dia serei capaz de me encaixar completamente na “caixinha” na qual fui jogada, na “caixinha feminina”. Minha “identidade” feminina, minha mulheridade, está intimamente ligada à minha identificação com as limitações, com os percalços e com a dor que a socialização feminina me infligiu e infligiu à outras mulheres.

Quando vejo alguém que não jamais teve as experiências que somente a socialização feminina nos proporciona dizer que “se identifica como mulher”, a primeira coisa que me vem a cabeça é: “se esta pessoa se identifica como mulher, o que é ser mulher, para ela?”. Porque, para mim e para qualquer outra pessoa socializada como mulher, “ser mulher” é tão mais que se encaixar nos papéis de gênero feminino, do que “usar saia e batom”, do que “gostar de homens”, do que qualquer “isso” ou qualquer “aquilo” que se encontra em alguma lista de algum site falando sobre coisas que toda mulher faz, gosta, quer ou se interessa.

É muito fácil bradar que “a socialização não importa!” quando se é socializado tendo o mundo nas mãos. Mulheres são parte considerável (you don’t say????) da população mundial, e ainda assim, só detêm 1% das propriedades mundiais e fazem apenas 10% da renda mundial. Uma em cada três mulheres será agredida ou estuprada durante sua vida, e a cada dois minutos uma de nós morre em decorrência de gravidez ou durante o parto. 875 milhões de mulheres não sabem como ler ou escrever, e todo o dia 39,000 meninas são obrigadas a se tornarem noivas.

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É simplesmente fácil demais ignorar a influência da socialização nas nossas vidas quando existem meninas sendo abandonadas ou mortas na China porque seus pais queriam um filho homem, ou ignorando que vivemos num mundo onde estima-se que cerca de 86 milhões de meninas estão sujeitas a sofrer mutilação genital até 2030. A ONU inclusive já declarou, baseando-se em seus bandos de dados sobre a violência contra a mulher, que nascer mulher define nossa existência social.

Não ouse olhar na minha cara, na cara de mulher alguma, e bradar que “socialização não importa” quando vivemos num mundo onde ser identificada mulher no nascimento é estar sujeita a violências, onde ser socializada como mulher é não somente estar sujeita a violência como ser emocional e psicologicamente violentada por uma socialização que lhe destrói sua auto-estima e seu amor próprio, desestimula sua criatividade, lhe faz se sujeitar a situações degradantes e destrutivas em nome da beleza, da aceitação social e dos padrões impostos pela feminilidade, que lhe ensina a não se expressar, se anular pelo bem coletivo, se diminuir pelo bem do ego masculino… Uma socialização que lhe ensina a naturalizar a violência que sofre, a se culpabilizar, a “aguentar calada”. Uma socialização que lhe ensina a por todos e seus desejos na frente de você e do que você quer.

A política de identidade de gênero machuca as mulheres por as colocar na posição de opressoras num sistema onde elas não têm voz sequer para se DEFENDER. A política de identidade de gênero as machuca por as tratar como “opressoras” por se “identificarem” como mulheres, sendo que essa “identificação” muitas vezes é o único sentido existente para as agressões e a misoginia que sofremos e, portanto, nos “desfazer” dela seria nos desfazer, também, do entendimento das opressões misóginas que sofremos, do privilégio masculino que outros indivíduos têm e da irmandade feminina, essencial para muitas de nós conseguirmos realmente ter forças para continuar lutando pela liberdade da classe feminina. A política de identidade de gênero machuca pois tenta obrigar as mulheres “opressoras” a colocar outras pautas a frente das suas, uma característica patriarcal que foi adaptada pela esquerda e também por quem defende as pautas de identidade de gênero. A política de identidade de gênero machuca pois continua silenciando pessoas socializadas como mulheres, independentemente destas “se identificarem” como mulheres.

A política de identidade de gênero machuca as mulheres porque qualquer política que pretenda “apaziguar” a situação, que venha propor às mulheres que elas resinifiquem as violências institucionalizadas e sistemáticas que elas sofrem ao invés de propor que elas se unam para lutar pela liberdade total feminina e a abolição do sistema que as oprima não está realmente preocupada com as mulheres.

 

Mulher, a esquerda não liga para você!

Meu primeiro contato com militâncias de qualquer tipo não foi com o feminismo, mas com o socialismo. Era a oitava série, os professores de história e geografia, mesmo numa escola religiosa e conservadora como era a escola que eu então frequentava, mal podiam se conter enquanto bradavam sobre a grande Revolução Russa ou a  Revolução Cubana. Assim como eu, creio que muitos daqueles jovens finalmente conseguiram “conectar” os pontos; todos já tinham ouvido falar de socialismo ou comunismo, mas nós não sabíamos exatamente o que eram, a diferença entre eles e, principalmente, que um dia já existiram tentativas de realmente colocar aquilo tudo em prática. Entrar em contato com o Socialismo/Comunismo ou com o Anarquismo pela primeira vez sempre acende aquela centelha de esperança dentro de nós; pela primeira vez, podemos enxergar uma saída. Contudo, essa animação, para a maioria das pessoas, passa depois de algumas aulas, quando a gente percebe que a coisa não era perfeita e que por vezes se mostrou falha. Para a maioria das pessoas, pelo menos. Eu provavelmente sou uma exceção.

Eu conheci um cara. Tecnicamente, eu já o conhecia, mas o interesse pelo socialismo e a militância de esquerda nos aproximou. Juntos, começamos a nos envolver com o socialismo e com o feminismo. Sim, juntos. Eu era, na época, a maior contradição do mundo: uma mulher socialista e uma feminista liberal. Militávamos juntos e dali para engatarmos um namoro foi rápido. Aquele foi, a nível de curiosidade, meu último namoro heterossexual. 

Eu frequentei os ambientes que ele frequentava. Eu conheci os amigos dele, que tinham ideia como as dele. Eu falei com eles, e por um tempo, acreditei que eles me ouviam, que naquela militância nós tínhamos a mesma voz. “Mulher bonita é a que luta”, eles me diziam, e por hora, a oportunidade de lutar com e por eles e quem sabe assim ser, também, uma bela mulher, me acalentava. Eu continuei frequentando os espaços deles e continuei me iludindo que tinha a mesma voz nesses espaços que eles; dizia pra mim que o fato de existirem mais homens que mulheres ali era “coincidência”, e que o fato das lideranças e qualquer outro posto que envolvesse representação do coletivo para o público ou decisões importantes era ocupado por homens. Enquanto isso, negligenciei minha militância feminista: não lia e nem sequer me aprofundava em discussão alguma. Na minha cabeça, o feminismo era importante, mas só o socialismo, a militância de esquerda me libertaria.

Lenta e dolorosamente, porém, eu aprendi que isso não era e nunca seria verdade. No meio de coletivos socialistas mistos, no meio da vanguarda esquerdista, eu era abusada todo dia. Eu fui agredida por companheiros de luta, tanto física quanto emocionalmente. Me silenciaram sempre que podiam. Minhas causas e demandas eram abafadas pelo bem da luta de classe; aprendi que a mulher burguesa era minha inimiga, e a mulher que cegamente apoiava o sistema capitalista e o liberalismo, sem saber que esses a exploravam, também. E o cara, o garoto que eu amava e que eu achava que me amava também, por meses me manipulou: minha militância, meus gostos, meu ser só poderiam ser como ele quisesse que fossem. Durante nosso relacionamento, eu existi sobre os termos dele. 

Meses depois, ele se foi. Tendo sido isolada das minhas amizades, fazendo parte de um coletivo que só me fazia mal e tendo me anulado, tanto ideológica quanto particularmente, por causa dele, aquela foi uma das situações em minhas menos de duas décadas de vida que me vi deixada a deriva, apenas com destroços do que eu costumava ser e com a missão de me reconstruir. Eu chorei por um mês; não somente por ele, mas porque, por algum motivo, sentia como se tudo que eu aprendi naqueles meses de militância tivesse caído por terra. Só então eu me permiti analisar minha anterior situação e a forma como a qual eu fora tratada por meus “camaradas”, meus companheirOs de luta.

É ingênuo da nossa parte acreditar que qualquer movimento pensado e militado por homens poderá nos libertar. É ingênuo, mas é o que somos coagidas a pensar assim que temos nosso primeiro contato com a esquerda política, então não julgo qualquer mulher que ainda pensa desta forma. Eu digo isso porque, e eu sei que isso é uma verdade dolorida de se admitir, a vanguarda esquerdista não prioriza e jamais irá priorizar a libertação das mulheres.

Embora eles digam se importar com as mulheres e “apoiar” o feminismo, os líderes dos movimentos de esquerda, geralmente homens, irão te silenciar. Eles te insultarão, irão silenciar suas pautas e abafar suas denúncias. Então, eles irão teorizar sua vivência por você, irão debater entre eles seus problemas e decidirão, sozinhos, como você deve resolvê-los. Você, mulher, não tem voz real em meio a vanguarda esquerdista. Eles dizem o quanto você é importante para a luta deles (o que é verdade) porque sabem que, para muitas de nós, qualquer oferta de libertação, por mais remota que esta seja, é como um oasis no meio do deserto das opressões patriarcais. Mas, ao mesmo tempo em que eles dizem reconhecer sua importância, eles não te darão espaço ou voz suficientes para falar sobre quem você é, sobre as situações que passa, as violências às quais é exposta e como você acredita que deveria se dar a sua libertação e a libertação de outras mulheres.

Pare para analisar as pautas do “feminismo” defendido por homens parte da extrema-esquerda. Note o quanto há a glorificação da prostituição como “escolha pessoal” (e não opressão sistemática e institucionalizada), do amor-livre como “libertação” (amor-livre este, aliás, defendido até entre menores de idade) e do esquema “à moda de tumblr” de “criar seu próprio gênero”, onde nenhuma dessas pautas visa a real e completa libertação das mulheres, ou sequer tem algum projeto concreto de oferecer ajuda ou “reconhecimento” à grande maioria das mulheres. Pautas apontadas por mulheres e para a libertação das mulheres, como a abolição do pornô, da prostituição e dos gêneros são, constantemente, deixadas de lado ou totalmente silenciadas pelo feminismo defendido pela Esquerda. Por muito tempo me perguntei o porquê, mas hoje me parece muito óbvio: num movimento fundamentalmente masculino, com teóricos e lideranças tradicionalmente masculinas, onde mulheres não têm voz e onde homens decidem o melhor, para eles e para nós, é óbvio que nossa libertação não é interessante.

A esquerda quer prostitutas. A esquerda quer empregadas. Os partidos de vanguarda esquerdistas, os homens anarquistas… eles NÃO LIGAM para você. Eles não ligam para nós. Porque para eles, no fim, nossa libertação não é assim tão interessante. Quem vai cuidar da casa enquanto o homem estiver fazendo política? Quem vai criar os socialistas de amanhã? Quem vai se submeter, quem estará disposta a aceitar lutar por qualquer demanda que lhe for vendida como “um bem para o povo”? Quem é a classe social que historicamente foi ensinada e que tem tradição de se anular pelo “bem maior” ou o “bem coletivo”? Que classe sempre foi dividida pelos critérios da classe dominante e que até hoje aceita essa divisão e até LUTA em nome desta? Qual a classe que, muito antes do sistema racial ou o sistema de classes estarem em vigor ou serem pensados, já era obrigada a se curvar para seus opressores?

A Esquerda sabe que precisa da mulher em suas fileiras. A esquerda sabe que, sem nós, não há revolução. A Esquerda sabe quem são “os primeiro oprimidos”, ela sabe quem, independentemente de condição social, sempre foi anulado, silenciado, deixado de lado e obrigado a lutar e morrer por outras pessoas e ensinado a jamais viver por si mesmos. Mas ao mesmo tempo que a Esquerda tem consciência de tudo isso, ela que ainda é inerentemente pensada e liderada pela classe masculina, e a classe masculina, seja ela rica ou pobre, não quer perder seus privilégios. Independentemente da raca, etnia, classe social e econômica de um homem, você pode apostar que ele não está disposto a “largar o osso” dos privilégios, e você pode apostar que ele não luta por você e pela sua libertação.

Mas se há outra coisa na qual eu penso desde que me senti “apunhalada pelas costas” pela primeira luta da qual fiz parte, é: se a Esquerda não se importa com as mulheres, e a Direita não se importa com as mulheres… quem se importa? Se estamos acorrentadas, que luta busca quebrar essas correntes e realmente nos libertar?

A conclusão que eu cheguei é dolorida, mas também é a única que me parece plausível: ninguém. Ninguém, além das mulheres, verdadeiramente se importa com as mulheres. Nenhum movimento pensado por homens, liderado por homens, militado por homens realmente busca nos libertar. Eu sei que incomoda ouvir isso, ainda mais quando se é socializada aprendendo a “partilhar”, a encontrar um “denominador comum”, uma “luta em comum”, uma forma de nos libertarmos com “o apoio masculino”, mas nenhum movimento apoiado pela classe masculina PODE nos libertar, simplesmente porque a classe masculina NÃO ESTÁ INTERESSADA EM NOS LIBERTAR. E embora possa parecer linda a ideia de ter um homem do seu lado, apoiando sua luta e até lutando com você pelas suas pautas, eu me arrisco a dizer que é uma ideia utópica. Porque, embora aquele rapaz maravilhoso que eu conheci alguns anos atrás e eu tenhamos continuado amigos e ele se dissesse “pró-feminismo”, no primeiro momento em que eu demonstrei qualquer inclinação por uma militância separatista ele não hesitou em me chamar de “feminazi”, “femista” ou qualquer outro termo criado para invalidar a militância da mulher que ousa lutar somente por mulheres e somente com mulheres. Embora seja bonito imaginar um membro do grupo opressor ‘desconstruíndo os privilégios’ e lutando com você, existem provas demais de que, no momento em que você ousar delimitar um espaço, um momento ou uma luta SOMENTE para e por você e por outras mulheres, estes mesmos indivíduos irão te atacar.

Feminismo é uma luta feminina. É uma luta que ousa se concentrar nas vivências, nas opressões, nos problemas, na exclusão feminina. É uma luta que ousa tentar nos libertar, tentar libertar mulheres. Por isto, hoje, eu não me declaro mais socialista, comunista, anarquista ou nada disto. Embora eu concorde com as ideias do socialismo e com muitas das ideias do anarquismo, hoje eu tenho a consciência da ÚNICA luta que realmente se importa comigo e luta pela minha libertação, como indivíduo, e das mulheres como classe. 

Mulher, a Esquerda não se importa com você! Não gaste sua energia, seu suor, seu sangue e sua segurança em uma luta que não se importa com você. Apoie as causas nas quais acredita, sim, mas tenha consciência de que, enquanto a Esquerda estiver basicamente na mão da classe masculina (como ela historicamente esteve e ainda está), ela jamais vai lutar pela sua libertação. Fuja dos coletivos “mistos”, fuja da luta onde a libertação das mulheres como classe não é prioridade. Forme seus próprios coletivos socialistas, anarquistas. Forme coletivos femininos e construa sua luta e sua militância baseada nestes coletivos, com o apoio e a parceria de outras mulheres. Se junte com elas, aprenda com elas e com elas construa e articule a luta que realmente se preocupa com as pautas e busca a libertação da classe feminina.

Não se deixe enganar pelos homens que dizem lutar por você. Levante-se e lute por si mesma, como você sempre inconscientemente fez; afinal, toda mulher, inconscientemente, luta todos os dias para continuar viva. Permita-se aliar com outras mulheres e tornar essa luta inconsciente uma luta consciente, consistente e focal. Permita-se lutar por VOCÊ, e não permita que tentem tornar sua luta secundária ou desimportante!

A problematização do “empoderamento cego e fantasioso”

Hoje mais cedo, lendo uma discussão feminista, vi um questionamento ser levantado por uma mulher, uma irmã de luta: “Se a problematização faz mulheres se sentirem mal por gostarem de coisas problemáticas, porque não deixamos de problematizar e começamos a empoderar, que é algo que faz com que mulheres se sintam bem e fortes?”

Pensei sobre isso sobre muito tempo. Não me limitei a pensar sobre isso, mas refleti sobre todos os rumos que foram tomados pela minha militância nos últimos anos, todos os posicionamentos que já tive e que hoje não tenho mais. Um desses posicionamentos, recordo-me, era o posicionamento do incondicional apoio ao “empoderamento”. Não que haja algo ruim em fazer com que mulheres acreditem que elas são capazes, das a elas “poder”, empoderá-las. Nociva, e foi o que eu percebi depois, é a ideia que setores liberais do feminismo vendem de um “empoderamento cego e fantasioso”, simplesmente para encorajar meninas e mulheres a terem uma conduta de não-problematização de suas condutas e gostos, e da forma como estes foram e são influenciados pela forma com a qual mulheres, como classe, são tratadas ou pelo que elas desde cedo aprendem que é certo ou errado para elas.

O que esse é esse “empoderamento cegofantasioso”, contudo? Essa pergunta não é difícil de se responder. O empoderamento cego e fantasioso tem a ver com a ideia de gostos, fetiches, comportamentos “intocáveis” e que jamais devem ser problematizados. Este empoderamento tem tudo a ver com a fantasiosa ideia de que “escolhas pessoais” não tem nenhuma ligação com estruturas sociais ou socialização, nem é influenciada por elas. Este empoderamento é cego porque fecha os olhos para opressão sistemática, para como o sistema de privilégio/opressão funciona para oprimir mulheres como uma classe.

Entendendo o que é tal “empoderamento”, não é difícil entender o porquê dele ser tão aclamado, exaltado e exigido pelos setores liberais do feminismo. O Feminismo Liberal sempre teve uma conduta de “não problematização” dos moldes patriarcais ou dos objetos de subjugação, silenciamento e opressão usados pelo patriarcado contra nós, mulheres. O Feminismo Liberal sempre valorizou muito mais gostos pessoais, nos vendendo a fantasiosa ideia de que ‘um termo deixa de ser ofensivo no momento em que decidirmos que assim será”, “espaços são femininos e, pior, feministas só porque os nominamos assim” e “coisas que sempre foram usadas pelo patriarcado para nos limitar e nos oprimir serão resinificadas e se tornarão ’empoderadoras’ num estalar de dedos”. Basicamente, a ideia que este feminismo tenta nos passar é que “a opressão só existe porque permitirmos que ela exista! no momento em que decidirmos que aquilo não é opressivo e que não estamos sendo oprimidas, assim será!”.

Parece ideia de filme de conto de fadas – ou pior, parece discursos advindos de pessoas que dizem coisas como “o racismo só existe porque ainda acreditamos que há diferenças entre negros e brancos” ou “o racismo só existe porque ainda continuamos falando sobre ele”. Qualquer um numa militância de esquerda e feminista deveria no mínimo ter a noção que não é ignorando a opressão que acabamos com ela; mas, mesmo assim, muitas de nós ainda não temos tal noção. Não é ignorando que, por exemplo, a maquiagem é usada como forma de opressão patriarcal, que vamos fazer com que ela deixe de ser opressiva. Mas o Feminismo Liberal não tem nem nunca vai ter essa visão; pouco importa a quantidade de dados concretos e relatos existentes sobre como a indústria pornográfica e de prostituição são opressivas para com as mulheres, ou a quantidade de textos acadêmicos e dados estatísticos que provem o quão opressivos métodos como depilação, maquiagem, dietas “malucas” e tantas outras coisas que desde cedo somos ensinadas a fazer para nos encaixar em arbitrários padrões de beleza (coisas essas que podem e que mudam dependendo da cultura onde somos criadas, vale ressaltar) – não, pouco ou nada disso importa para o Feminismo Liberal, simplesmente porque, por não acreditar na opressão sistemática, tal vertente feminista acha que essas opressões não existem ou são somente propagadas de formas individuais e que podem ser resolvidas simplesmente com o “empoderamento”, com o “maquiagem é opressiva porque eu sou obrigada, mas se eu começar a gostar de maquiagem ela não vai mais me oprimir”. E isso abre outra discussão:

“E se uma mulher gostar de maquiagem? E se ela gostar de BDMS, e se ela gostar de pornô? Ela perderia a carteirinha de feminista?”

Ao invés de bater carteirinhas e decidir quem é mais ou menos feminista, eu gostaria de convidar todas vocês para uma breve reflexão: antes de considerar nosso gosto por ter “uma pele lisinha e sem pelos”, “batom vermelho”, “salto alto”, “pornô indie” ou qualquer outra coisa problemática e que é problematizada pelo feminismo (ou que ao menos deveriam ser) simplesmente como “gostos pessoais e inquestionáveis”, gostaria de lhes perguntar: como definir até aonde o que gostamos é simplesmente um gosto pessoal e a partir de quando ele começa a ser influenciado por socialização, pela mídia, pela igreja, pela sociedade patriarcal em geral? Como podemos traçar essa linha? Como podemos garantir a nós mesmas (estou pedindo para que cada uma faça sua própria análise, que pense com carinho sobre isso, por favor) que nossos gostos não são influenciados pelo que fomos socialmente ensinadas a gostar? Como podemos saber se realmente gostamos de fazer algo ou gostamos de algo porque em algum momento de nossas vidas aquilo nos foi imposto como bom, bonito ou certo, seja de forma consciente ou inconsciente?

“Então, o que eu devo fazer? Simplesmente deixar de fazer o que eu gosto por ser problemático?!”

Não estou aqui para dizer se você deve ou não deixar de fazer algo, até porque acredito que qualquer um procurando ou tendo contato com um texto deste tipo não está mais em idade de receber ordens nem da mãe, quanto mais de uma pirralha na internet. O que eu lhes convido a fazer, contudo, é uma reflexão nos motivos que lhes fazem gostar do que vocês gostam. O que eu lhes convido a fazer é começar a problematizar suas ações, seus gostos, sua forma de pensar e de encarar o mundo, bem como o mundo e a sociedade em que vocês vivem. A problematização, ao contrário do empoderamento, não se cala para as opressões e imposições que nossa vida social envolve. Pelo contrário, a problematização nos convida a começar a notar essas opressões e imposições, nos mostra como elas acontecem e que elementos são usados para impor algo às mulheres ou, em geral, oprimi-las.

Provavelmente por isso a problematização é temida e condenada pelo Feminismo Liberal: se ela não se cala diante de tais agentes patriarcais e suas armas de opressão, logo, ela não os torna “impossíveis de serem criticados”, como o “empoderamento” faz.

Para terminar, gostaria de lembrar-las: antes de um ser humano ser um ser pessoal e individual, ele é um ser social e um ser político. Não podemos nos dar ao luxo de concentrar nossas análises na esfera individual, já que esta é instável e variável demais para que se possa analisar. Temos de analisar, então, como as ações feitas e escolhas tomadas na esfera individual estão ligadas ou são influenciadas pela esfera social e política.

Não podemos nos limitar a acreditar que a opressão some num estalar de dedos ou “quando decidirmos que assim será”, já que qualquer um que ouse prestar atenção nas esferas social e política sabe que a opressão é sistemática e existe, e só a problematização e a organização para a luta pela abolição da opressão e dos sistemas usados para oprimir ou silenciar podem, de fato, nos libertar.

Eu nunca sofri BIFOBIA – a opinião de uma mulher bissexual.

Esse texto foi enviado por uma amiga minha, uma jovem bissexual. Ela pediu que fosse deixado bem claro que ela não tem como objetivo se fazer de token, mas somente expressar sua opinião, como bissexual, sobre os termos “bifobia” e “privilégio monossexual”. Obviamente ninguém tem a obrigação de concordar com ela ou com o que ela diz, mas acho importante expor opiniões que nem sempre têm espaço na maioria das discussões. O nome dela foi propositalmente deixado de fora para preservá-la. Um parênteses interessante de se abrir é que, para nós mulheres, não parece existir privilégios dentro de um relacionamento heterossexual. De qualquer forma, o texto é o seguinte:

“Eu me identifico como bissexual desde os 14 anos. Já me considerei por muito tempo pansexual, mas hoje em dia não uso mais essa nomenclatura. Sempre fiz da minha militância feminista uma militância pela igualdade não somente de gêneros, como pela inclusão igualitária e pelo direito de pessoas com diferentes sexualidades, diferentes “formas” de amar, seja econômica, politica ou socialmente. Ultimamente, porém, com o advento de várias discussões sobre bissexualidade, um termo novo surgiu: bifobia. Queria falar sobre o porquê de eu não concordar com ele.

Primeiramente, quero falar sobre o porquê de eu acreditar jamais ter sofrido bifobia. As pessoas que sempre me oprimiram baseando-se em minha sexualidade foram pessoas heterossexuais. Meus pais desde cedo demonstraram certa repulsa por “esta parte de mim”, meus professores chamaram isso de “fase”, alguns amigos meus acharam isso “nojento”. Todas as pessoas que sempre demonstraram esse tipo de comportamento excludente e as vezes até agressivo foram pessoas heterossexuais, justamente porque heterossexuais são a classe com privilégios suficientes para oprimir pessoas com diferentes sexualidades. Não deveria ser um conceito tão difícil de se entender, mas muita gente parece achar que é.

Algumas pessoas prontamente se levantariam e diriam, “você estava sofrendo/sofre bifobia!”, mas não, não é o caso. Essas pessoas nunca demonstraram ódio, repulsa nem tentaram me excluir por eu ser “bissexual”; essas pessoas sempre me trataram diferente por eu gostar de pessoas do mesmo sexo. Essas pessoas não tem nenhum tipo de sentimento ruim pela “parte de mim” que gosta do sexo oposto; elas têm raiva, nojo, repulsa da minha “parte homossexual”, elas tem nojo por acharem que eu sou “metade lésbica” ou algo assim. Essas pessoas não são “bifóbicas”, essas pessoas são homofóbicas. Elas não vão, jamais, excluir uma pessoas bissexual que está num relacionamento heterossexual da mesma forma que uma pessoa bissexual em um relacionamento homossexual, e isso se deve muito ao fato de que muitas dessas pessoas sequer reconhecem a bissexualidade. Muitas dessas pessoas reconhecem bissexuais como “gente de fase”, gente “indecisa” ou algo assim. E eu entendo que muitos bissexuais digam que é nisso que mora a bifobia, no “não reconhecimento da bissexualidade”, mas não reconhecimento não é a mesma coisa que violência. A VIOLÊNCIA que uma pessoa bissexual sofre não advêm da bifobia, mas da homofobia. Isso se fica claro se compararmos a forma como socialmente são tratadas pessoas bissexuais em relacionamentos heterossexuais e pessoas bissexuais em relacionamentos homossexuais. As pessoas que mantêm relacionamentos heterossexuais, sejam elas hétero ou bi/pansexuais, estão em posição privilegiada de certa forma, pois não estão sujeitas a diversas formas de violências homofóbicas, sejam elas físicas, emocionais ou psicológicas. Ninguém vai lhe agredir por andar de mãos dadas, lhe negar o casamento ou oportunidades de emprego ou moradia se você tiver um parceiro do sexo oposto, seja você hétero ou bi/pansexual.

Outro argumento que é usado para afirmar a necessidade do termo bifobia são os estereótipos. Estereótipos usados para falar de pessoas bissexuais normalmente são: promiscuidade, poligamia, viver trocando de parceiros, ou ser “confuso” ou “ganancioso” ou “pervertido”. Esses estereótipos podem ou não assumir conotações violentas, mas são normalmente associados com a exclusão de pessoas bissexuais. Porém, muitos desses estereótipos, como é o caso da promiscuidade, poligamia, viver trocando de parceiros e a “perversão”, foram e ainda são associados TAMBÉM aos homossexuais, sejam eles do sexo masculino ou feminino. Outros estereótipos, como o de ser uma fase, da pessoa estar somente “confusa” ou “curiosa”, são usados por pessoas homofóbicas para silenciar pessoas homossexuais ou bi/pansexuais, especialmente pessoas mais jovens. O que eu quero dizer com isso é que, embora bissexuais possam sofrer e sofram opressão, ela está conectada com a homofobia.

Atualmente, aliás, algumas pessoas falam de “privilégio monosexual”, e termo mais absurdo para mim não poderia ser criado. Tal termo coloca hétero e homossexuais “no mesmo saco”, ambos como privilegiados e opressores de pessoas que gostam de pessoas bi/pansexuais, bem como outros termos novos que denominam outros tipos de sexualidades ou formas de amar, alguns com mais sentido do que outros. A questão é que, embora bissexuais sejam “excluídos”, tanto socialmente quanto de espaços homossexuais, a exclusão feita por heterossexuais é pautada no privilégio e no preconceito, enquanto a exclusão de bissexuais de espaços exclusivos de homens gays/mulheres lésbicas é muitas vezes pautado na necessidade da manutenção da segurança desses já escassos espaços. Hora, gays e lésbicas são excluídos social, econômica e politicamente, são alvo fácil de violência emocional, psicológica e física. Homossexuais com muita dificuldade criam espaços exclusivos, que em sua maioria são virtuais, para se sentirem seguros para falar sobre suas vivências, sobre a violência que sofrem e para mobilizar sua militância. É muito complicado incluir nesses espaços pessoas que nem sempre dividem vivências parecidas com a desses grupos, já que nem todos os bissexuais já tiveram relacionamentos com pessoas do mesmo sexo e nem precisariam ter. Essas pessoas tem o direito de se sentirem acoadas de dividirem espaços exclusivos, que já são raros, com pessoas que muitas vezes majoritariamente ou somente tem experiências com sexo ou relacionamentos com sexo oposto, e que não necessariamente militam ou tem as mesmas pautas de pessoas homossexuais. A exclusão pode ser dolorosa, especialmente quando se trata de bissexuais que majoritariamente ou somente tem ou tiveram relacionamentos com pessoas do mesmo sexo, como é meu caso, mas eu nunca tive dificuldades de entender os motivos de quem faz essa “separação”.

Quando eu me disse bissexual, minha mãe implorou para que eu não me denominasse. Ela não implorou para eu “voltar a ser hétero”, porque na cabeça dela, eu nunca havia deixado de ser hétero. Eu estava passando apenas por uma fase e em pouco tempo ela teria sua filhinha perfeitinha de volta. Eu tenho certeza que minha mãe me aceitaria bissexual, pansexual ou o que quer que fosse, contanto que eu mantivesse um relacionamento heterossexual. Tenho certeza que meus professores não me achariam estranha ou meus amigos não teriam nojo disso. Eu não continuaria sofrendo “bifobia”, nem sequer homofobia. No momento em que eu tivesse passabilidade heterossexual, eu estaria segura. Eu não teria que me preocupar em sair de mãos dadas com meu parceiro, ou de não poder casar com ele. Eu não teria de ficar nervosa em conseguir um emprego porque talvez meu chefe fosse homofóbico. No entanto, se eu estivesse num relacionamento homossexual, eu teria que me preocupar com tudo isso sim. Não somente com o que engloba a homofobia, como o que engloba o preconceito direcionado às mulheres “gays”, às lésbicas: eu teria de me preocupar com o apagamento no meio LGBT+, com o estupro coletivo… Com a homofobia combinada com a misoginia, que é o que caracteriza a lesbofobia.

Se tem algo que sempre esteve claro para mim, como bissexual, é que a forma como eu seria tratada pelas pessoas a minha volta e pela sociedade em geral, seria determinada pelo gênero da pessoa com quem eu estivesse me relacionando, o que é assustador.

Eu não sofro bifobia. Eu nunca sofri e não acredito que um dia sofrerei. Como uma mulher bissexual em relacionamento há 2 anos com uma mulher lésbica, o que eu sofro é homofobia. E tenho a plena certeza que, se amanhã terminasse com ela e começasse a me relacionar com um homem, a forma com que sou socialmente tratada HOJE seria completamente diferente da forma como seria tratada amanhã.”

O que é ser mulher?

O conceito do que é “ser mulher” sempre foi, para mim, ao mesmo tempo simples e complexo, por mais absurdo que isso possa soar. Nunca foi um conceito difícil de assimilar, e isso se deve provavelmente ao fato do mundo a minha volta ter sempre deixado muito claro que eu sou mulher e, consequentemente, ter deixado muito claro também qual era o papel designado a mim e a pessoas como eu na dinâmica social.

Minha mulheridade sempre esteve associada com a minha dor, com o meu silêncio, com a minha falta de espaço social e com os sacrifícios feitos e o sangue derramado por mulheres, décadas e até séculos atrás, para que eu tivesse a chance de estar terminando o Ensino Médio esse ano e cogitando entrar na faculdade e estudar para me tornar uma diplomata; para que eu tivesse pelo menos a chance de ser alguém sem precisar estar associada a um macho, seja por parceria, relacionamento ou como seu objeto de decoração. As coisas ainda não são perfeitas, o glass ceiling (o “teto de vidro” que ainda separa mulheres das posições mais altas no comando de empresas, partidos, nações, etc.) ainda existe e eu, assim como qualquer mulher, tenho a consciência de que se eu quiser me destacar, eu não posso apenas ser “boa”, mas sim “melhor que os melhores”. Mas hoje em dia, nós pelo menos temos uma chance, por mais remota que ela as vezes possa ser.

Atualmente, porém, num contexto onde o feminismo vê suas vertentes cada vez mais divididas num ferrenho debate sobre quem tal movimento deve abraçar e que tipo de comportamento deve ser problematizado, um novo questionamento me ronda a mente: o que é ser mulher?

Como eu já disse antes, desde que eu era grandinha o suficiente para pensar por mim mesma e ter minhas ideias, eu sabia que era mulher. Eu nunca me “senti” mulher, contudo; toda essa história de “se sentir mulher” sempre foi algo nebuloso para mim, algo que nunca fez muito sentido. Eu nunca me “senti” mulher porque o conceito de “ser mulher” não é algo que veio de dentro de mim, não é algo que nasceu comigo nem algo que inerentemente faz parte de mim. Não, a minha associação com a mulheridade é muito mais pragmática e sistemática do que isso: pouco ou nada tem a ver com sentimento de pertencimento de classe, embora hei de confessar que atualmente tal sentimento exista graças a sororidade. Minha associação com a mulheridade, com o “ser mulher”, tem e sempre teve a ver com minha socialização.

Quanto minha mãe fez um ultrassom, provavelmente durante o quinto ou sexto mês de gravidez, ela conta que o médico afirmou algo como: “é uma princessinha!“. Não faço ideia se meus pais ficaram desapontados, pois creio que nenhum deles estaria disposto a comentar algo assim para não “ferir meus sentimentos”, mas eu conheço a história: eu sei que os preparativos eram feitos pensando no primogênito, no filho homem. Eu sequer tinha nome; se fosse do sexo masculino me chamaria Jonas, mas pouco ou tempo nenhum fora aplicado à possibilidade de que eu talvez fosse do sexo feminino. Não culpo meus pais, porém: eles eram dois jovens pais de primeira viagem vivendo em uma sociedade patriarcal, e não há nada mais natural do que o anseio de um filho menino; anseio esse, no caso deles, três vezes frustrado.

Um enxoval amarelo então foi montado. Meu quarto tinha nuvens nas paredes e pensar nele me deixa um tanto nostálgica. Na hora de escolher o nome, havia um critério: queriam um nome bíblico. Novamente, nada inesperado vindo de um casal evangélico. Escolheram então Rachel: o nome da segunda mulher de Jacó; pouco ou nada tinha ver com a história da bíblia em si, e sim com o significado do nome: ovelha. Queriam uma filha mansa, calma, ponderada, e isso foi o que eles me disseram. Não sou mansa, nem calma, e muito menos ponderada. Penso as vezes se isso lhes é um desapontamento.

Quando eu nasci, furaram-me as orelhas; um sofrimento desnecessário imposto a bebês do sexo feminino pela estética; o primeiro de muitos pelos quais elas terão de passar até a vida adulta. Não existe necessidade alguma de colocar pequenos ornamentos de metal nas orelhas de crianças tão pequenas, mas atualmente faz quase parte do ritual de socialização, não faz? Ritual esse, aliás, que pode ter várias faces dependendo da cultura e da sociedade na qual você está imersa, mas por mais discreta e silenciosa que sua ação possa ser, existe e está diretamente conectado com a submissão feminina ao macho.

Quando eu ainda era criança, costuma por a mão na calcinha. Um ato inocente, mas que sempre foi duramente reprimido pela pessoa que sempre tomou conta de mim, minha avó materna. “Tira a mão daí, menina,” dizia ela, “se ficar cutucando vai ficar enorme e cair”. Assustada com a possibilidade de que meus órgão genitais pudessem cair, eu tirava. Outro costume que minha avó tem até hoje, é de deixar as netas rodando a casa só de calcinha; imaginem o quão chocante para mim foi quanto eu fiz 8 anos e comecei a ser obrigada a usar blusa e short no calor infernal da Cidade das Mangueiras porque “eu já estava ficando mocinha e tinha de ter termos”. Mocinha? Aos 8 anos de idade? Nesta idade eu estava na quarta série e mal sabia que diabos significava ser “mocinha”, mas engolia essa história e colocava as roupas.

Mas afinal, o que também é ser mocinha? Eu não tenho certeza do exato significado do termo até hoje, mas assim como ser mulher, ser mocinha também sempre foi algo que esteve associado com meus sacrifícios e minhas dores. Um ano depois, na quinta série, eu comecei a aprender na marra do que mocinhas deveriam fazer, e não foi coincidentemente que aquele foi um dos piores anos de minha vida.

Muita coisa que me aconteceu neste ano eu tranquei nos mais profundos baús de minha memória; tudo é tão traumático que assim como tudo que me acontece de muito ruim desde então, eu inconscientemente deleto de minha mente por não ter estruturas para lidar com os sentimentos avassaladores que me causam as recordações me causam. Do pouco que me permito lembrar, além dos tapas e dos beliscões, foi do dia em que uma lista correu minha sala. Era uma lista chamada “eleja a garota mais feia da sala”, na qual só meninos poderiam votar. Eu, uma menina descabelada, de pele escura, gorda e que não tinha amigos, era alvo fácil e o resultado foi previsível. Uma versão masculina da lista foi feita, mas seus impactos foram tão menores que o garoto eleito mais feio da sala foi também um dos que mais me zoou por causa disso. Esse fato marco o início de minha ansiedade.

Eu cresci, eu emagreci e eu endureci. Nos três anos seguintes, eu fiz amigos, na sua maioria homens. Acreditava que, fazendo amizades masculinas, estaria protegida. Nunca estive, mas a ilusão confortava. Tive somente uma amiga nessa escola; uma moça que passava dias sem dormir e fazia dietas malucas. Estávamos na sexta série; hoje em dia a vejo passar na rua e torço pra que ela não tenha emagrecido tanto graças às tais dietas. Aprendi nessa escola que só em mim eu poderia confiar, e por isso me tornei agressiva. Eu apanhava muito, mas eu batia em dobro. Foi bom me sentir capaz; foi bom enquanto durou. Até que os eventos ainda não contados da minha oitava série, eventos esses que marcaram de vez minha transição precoce para a assustadora maturidade, com apenas 13 anos, chegaram, e eu tive de mudar de escola porque aquele ambiente não me era mais seguro.

Comecei meu ensino médio na mesma escola que hoje estudo e na qual pretendo terminá-lo no final deste ano, um colégio de convivência mais harmoniosa e saudável, um local no qual eu me sinto segura a ponto de não ter de usar os métodos doloridos de proteção que usava no meu antigo colégio e a ponto de me sentir a vontade para enterrar boa parte das memórias do lugar que antes desse veio.

Um evento que aconteceu nesta escola ano passado, porém, é uma das coisas que mais me são marcantes quando o assunto é socialização. Não tenho certeza qual das duas versões está correta, mas vou contar o evento como a mãe da garotinha envolvida contou em seu blog: uma menina que estudava na área de Educação Infantil/Ens. Fundamental I da minha escola chegou em casa chorando, reclamando de dor na “bunda” e não conseguindo sentar. A história que ela contou para sua mãe? a de que um colega, aparentemente um ou dois anos mais velho que ela mas também da Educação Infantil/Ens. Fundamental I, colocara um dedo na bunda dela. A mãe, obviamente, ficou chocada e possessa com a escola; afinal, ela pagava muito caro e a escola não fora capaz de proteger sua filha de uma situação tão agressiva e humilhante. Não sei, realmente, no que essa história deu. Minha escola divulgou uma nota falando que a história era inconclusiva e lá por dentro da escola falou-se que a mãe inventara a história. Isso para mim não faz sentido; não consigo imaginar porque uma mãe iria expor sua filha dessa forma por causa de uma falsa acusação. De qualquer forma, esse incidente me abriu um questionamento: por que um garoto de 8 ou 9 anos de idade fez isso com sua colega? Por que ele se achou tão no direito de fazer o que quiser com o corpo de uma outra pessoa… só porque essa outra pessoa era uma menina? Será que ele nasceu mau-caráter e misógino? Ou será que desde pequeno aprendeu em casa que tinha o direito de tocar garotas como quisessem? Será que viu outros homens fazendo isso? Será que já fez algo parecido e ninguém lhe brigou por causa disso? Será que ele foi incentivado a fazer coisas assim?

Eu não tenho certeza. Eu não tenho certeza que tipo de motivação teve este menino pra fazer algo tão absurdo com uma garota, mas eu tenho certeza que o que determina esse tipo de comportamento misógino e abusivo não são cargas cromossômicas; ninguém nasce um abusador, ninguém nasce preconceituoso. O que não apaga o fato de existirem, SIM, crianças racistas, misóginas, homofóbicas, gordofóbicas… preconceituosas em geral.

E se o feminismo de terceira onda continua batendo na mesma tecla, ignorando a existência e o peso da socialização na criação e no desenvolvimento de um indivíduo, eu gostaria de saber: que tipo de coisa, então, motiva crianças pequenas a já se mostrarem projetos de agressores e de preconceituosos? Se a socialização masculina não existe, o que instiga meninos a se sentirem no direito de violar o corpo das meninas? Se a socialização masculina não existe, então o que instiga garotos a excluírem qualquer outro garoto que não se encaixa no que eles foram ensinados a acreditar que garotos devem ou não devem fazer? Se a socialização masculina não existe, por que então vemos filhos de sexos diferentes serem criados pelos mesmos pais, mas de formas totalmente diferentes, onde o menino desde sempre aprende que pode ter o que quiser, falar o que quiser, se irritar com o que quiser… e a menina aprende que não pode se tocar, não pode falar alto ou ser incisiva, que não pode ser isso ou ser aquilo, que não pode fazer isso ou aquilo ou gostar disso ou daquilo? Por que filhos dos mesmos pais, um menino cresce livre e uma menina cresce não somente presa, mas aprendendo que sua prisão na verdade é uma liberdade escolhida?

Se a socialização feminina não existe, se a mente feminina é comprovadamente um mito e o gênero não é determinado pelo genital, então me digam: o que é ser mulher, afinal? O que “estala” dentro da cabeça de um indivíduo para que ele perceba que na verdade se sente, sim, mulher? Se a socialização feminina não existe ou não tem peso algum, então, de que forma se explica mulheres que foram criadas para odiar cada milímetro de seus corpos? Mulheres que sacrificariam tudo, até a si mesmas, em prol da beleza? Mulheres que não se sentem a vontade de fazer o que querem por que acreditam que homens não gostam de mulheres assim ou assado? Mulheres que se anulam por homens ou se anulam pelo que o patriarcado lhes ensinou que é mais importante do que elas mesmo?

Se a socialização não existe, se ela não é importante para determinar o gênero e a forma com a qual se comportam os indivíduos, então me explique: o que é? Eu lhes questiono novamente: o que é ser mulher, afinal? Eu não sei o que é mulher, eu só sei que sou mulher. Tudo que eu sou está associado ao fato de eu ser mulher. Todas as minhas vivências, todas as minhas opressões, toda a minha forma distorcida de ver o mundo, todos os meus traumas, todos os meus problemas psicológicos, os meus problemas com o meu corpo, a minha baixa auto-estima, meus medos, minha ansiedade e meus problemas alimentares, todas as minhas dúvidas sobre meu futuro… Tudo que eu sou está intrinsecamente ligado com o momento em que o médico contou aos meus pais que eles teriam uma “princesinha”; tudo que eu sou está ligado não com o fato de eu ser mulher, mas com o fato da minha designação como mulher e a forma como eu fui criada, ensinada a ser a mulher que o patriarcado aprova, a mulher certa… A mulher calada, amedrontada, machucada, traumatizada, apagada, anulada, triste e pronta para servir o macho, pronta pra assumir o seu papel social de peso de porta, de apoio moral, de enfeite, de ser anulado que só serve para… servir.

Como eu disse antes, minha mulheridade sempre esteve associada com a minha dor; atualmente, porém, me permito também associá-la com a minha superação: associá-la com a minha luta pela libertação, associá-la com a minha caminhada pelo meu amor próprio, associá-la com a construção de laços com outras mulheres, associá-la com o meu feminismo. Embora correntes feministas avulsas tentem calar essa minha vivência; tanto as partes dela que eu contei quanto às que eu ainda não tenho coragem de revelar… Embora existam correntes feministas que tentem silenciar a visão da pessoa SOCIALIZADA como mulher, da “fêmea” a quem o patriarcado nega humanidade.

“O homem é definido como ser humano e a mulher é definida como fêmea. Quando ela comporta-se como um ser humano ela é acusada de imitar o macho.” – Simone de Beauvoir em “O segundo sexo”

Eu hoje me sinto bem porque eu sei que o feminismo original, o feminismo às raízes, o feminismo radical está aberto, está pronto para acolher-me. Está pronto para ouvir meus relatos de mulher jovem, índia, nortista… de mulher que ama mulheres, de mulher criada pra ser mulher e que tenta se libertar do estigma que ser mulher é, sem logicamente ignorar o fato de que “ser mulher” e ser vista como mulher socialmente sempre teve, tem e sempre terá tudo a ver com a minha opressão.

O feminismo radical é revolucionário porque ele nos arranca nossas amarradas, ele nos deixa falar, nos ouve e nos acolhe. No feminismo liberal eu media palavras, eu tinha medo de falar de mim. Quando individualizamos opressões, quando consideramos que opressões na verdade são “um monte de seres individuais fazendo decisões e escolhas de forma individual, sem consciência social ou de classe”, nós deixamos de estudar as reais motivações por trás disso. E justamente por isso o feminismo liberal é fácil de engolir: porque não exige que se problematize nada. Logo, o feminismo liberal não está pronto pra lidar com as demandas das mulheres, já que não consegue identificar opressões sistemáticas presentes de forma histórica e social. O retorno ao “feminismo de raiz”, o feminismo original, o feminismo radical… este feminismo promete ser a única chance de reverter esse quadro, de realmente revolucionar a forma como mulheres existem e são ensinadas a existir política, econômica e socialmente e de abolir os gêneros, as correntes que prendem os indivíduos desde o nascimento e que os obrigam a anular quem são em prol da “aceitação social”.

Não é ignorando a forma como o gênero existe socialmente, ou criando mais gêneros para englobar mais pessoas, que se luta contra os papéis de gêneros impostos a todos nós desde que nascemos. Não é reforçando o sistema de gênero que se acaba com a opressão que são os gêneros, mas sim acabando com tal sistema de gênero. Mas como se luta contra algo que não se conhece? Como alguém pode lutar contra a imposição de gêneros, lutar contra o que é “ser mulher”, lutar contra a hierarquia que é o gênero se não nos permitem discutir a forma como tal hierarquia, tal imposição acontece no MUNDO REAL, na sociedade em que vivemos? Como lutamos contra a maré que nos engole se sequer temos acesso à discussões sobre isso sem que conceitos abstratos de teorias mais abstratas ainda são nos empurrados goela abaixo, e nos vemos obrigadas a engolir porque senão seremos taxadas de intolerantes e excludentes?

Se o feminismo original, o feminismo que quer nos libertar se tornou um tabu e querer saber sobre ele tornou-se motivo de exclusão dentro do movimento que, bem, foi criado por e para nós… Não é de se admirar que muitas de nós passem anos dentro do movimento, cheias de dúvidas e mais ainda, cheia de medo de tirar tais dúvidas. E ISSO TEM DE ACABAR!

Quando a existência feminina, a socialização feminina e as demandas femininas se tornam tabus dentro do movimento feminista e mulheres se encontram silenciadas demais para ousar duvidar, ousar questionar… Se mostra cada vez mais claro nossa urgente necessidade de voltar às nossas raízes.

Eu não sei o que é ser mulher. Não é um conceito claro nem certo, justamente porque ser mulher envolve tantos padrões absurdos nos quais somos obrigadas a nos encaixar e pelos quais vivemos frustradas, justamente por não conseguirmos neles nos encaixar, que para qualquer mulher torna-se impossível uma única definição. Mas ai é que está: nós não precisamos da conceituação do que é ser mulher, nem de perceber que somos mulheres, porque perceberam isso por nós muito antes de termos a chance de termos a chance de perceber algo, nos impuseram a mulheridade e tudo que ela significa socialmente e nos obrigaram a dançar conforme a dança, anulando nossas diferenças e individualidades em prol da aceitação social.

Toda pessoa socializada como mulher sabe MUITO BEM o que é ser mulher, porque entendemos o ciclo de dor, o sacrifício e superação a qual fomos submetidas graças a esse temo. Sabemos o que é mulher porque sabemos o que uma mulher é obrigada a ser e a sofrer, e pra quem ela é obrigada a se curvar. E o mais importante, sabemos que somos mulheres porque nossas vidas sempre envolveram se encaixar ou superar as imposições; sempre envolveram lutar contra nossas correntes, consciente ou inconscientemente, do jeito que conseguíamos. Sabemos o que é ser mulher porque sofremos e lutamos por e para sermos mulheres, e o direito à memória e ao reconhecimento desse sofrimento e dessa luta ninguém pode nos tirar.

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.” – Simone de Beauvoir

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