Ser mulher não é simplesmente “calçar nossos sapatos”!

 

Adaptado de um texto de autoria de Julia Maria Fernandes, postado no Facebook. Ela me autorizou a adaptá-lo e  disponibilizá-lo aqui. Eu mudei algumas palavras que acreditei que fossem se encaixar melhor, mas procurei manter o sentido do texto original integralmente. Obrigada, Julia! ❤

 

Hoje meu recado vai para você, transativistas, em especial a uma que fez um texto direcionado para nós; mas também vai para todos os outros grupos anti-feministas e anti-espaços exclusivos de mulheres, o que tem se tornado um pleonasmo, ao meu ver.

Nós, mulheres, também passamos uma vida sendo apedrejadas.
No Oriente Médio, as maiores vitimas desse modo de execução são as mulheres, onde sua palavra de nada vale e grande parte parte das vezes seu julgamento não é justo. Sakineh Ashtiani é uma mulher de 43 anos e sua execução é iminente.
Os números são assustadores. Dentre os vários casos de execução, é mencionável o caso de  uma menina de 16 anos que foi enforcada, em 2004. Seu crime? Ela foi estuprada diversas vezes por um homem casado de 51 anos. Ele não foi a julgamento.

Também somos ridicularizadas desde a infância. Se não nos encaixamos nos padrões de beleza que nos são impostos, mesmo quando ainda somos crianças, somos convencidas que a nossa existência não vale. As mulheres estão em segundo lugar onde quer que elas estejam; somos a classe inferior, o “segundo sexo”. Menos no feminismo radical, movimento que você acusa de não reconhecer sua mulheridade — e olha, nós não temos essa obrigação.

Também temos nossos direitos básicos violados constantemente. A classe feminina compõe a maioria dos casos de vitimas de estupro, abuso domestico, violência obstétrica, pedofilia, assassinato marital. Os nossos estupradores são protegidos por uma lei falha e a nossa cultura nos culpa e aprisiona pelos abusos que sofremos.

Quanto ao direito de ter uma família, nos é negado o direito de não tê-la. Vivemos sob a autoridade dos homens da nossa família e, quando viramos adultas, somos obrigadas a constituir uma família graças à maternidade compulsória, que marginaliza mulheres que não querem abdicar de seus planos e sonhos em detrimento de outra(s) pessoa(s) — pois também é sabido que as obrigações de criar uma criança são de nossa responsabilidade e não dos homens (o serviço e as obrigações domésticas não são divididos de forma igual e quase sempre ainda são vistos como obrigação da mulher — o que acarreta a jornada tripla de trabalho feminina). Cabe a nós apagar ou tornar secundários nós mesmas e nossos objetivos em detrimento dos filhos.

Há, inclusive, uma tentativa de fazer vigorar uma lei que nos obriga a manter a gravidez em caso de estupro e ainda reconhecer o estuprador como o pai da criança. Uma mulher tem que constituir família: queira ela ou não.
E há quem diga que maternidade é privilegio — dentro de espaços feministas, inclusive.

Nossos nomes estão, de fato, de acordo com o nosso gênero e  vocês nos acusam de “nos identificarmos” com eles, e isso é degradante. Em uma sociedade cuja a visão e a imposição de gêneros visa beneficiar as pessoas do sexo masculino, como então poderia a binaridade dos gêneros beneficiar a mulher? Se, de acordo com a nossa análise, o gênero é uma arma patriarcal para a dominação e doutrinação das fêmeas, da classe feminina, que nesse contexto servem de auxilio emocional, doméstico, sexual e afetivo para homens?

Como podem dizer que nos identificamos com essa posição [que nos é imposta]? Apenas por nos conformamos com a feminilidade que a nós foi imposta com o intuito de nos fragilizar, vulnerabilizar, enfraquecer, odiar-nos entre nós, incapacitar-nos intelectualmente e nutrir um sentimento maternal e altruísta pelas pessoas do sexo masculino? Não nos identificamos com a feminilidade, tampouco com o que é “ser mulher”. Eu não me identifico com essa construção social que me foi imposta desde antes de eu nascer.

Se a ideia de gênero existente atualmente visa justamente viabilizar toda a violência que me atinge como mulher, por que então meu gênero seria negado? Meu gênero nunca me foi “concedido”. Meu gênero me foi empurrado goela abaixo e nada do que eu faça mudará os efeitos que isso teve na infância, juventude, crescimento e socialização de uma mulher. A trágica construção do ser mulher não pode ser neutralizada simplesmente se eu mudar meu nome e meu comportamento. A socialização feminina ainda estará lá e a socialização das pessoas do sexo masculino é uma vantagem sobre mim.

Quando você fala sobre a imposição dos padrões de beleza, você diz que isso pra ti é uma necessidade para que a sociedade te enxergue como mulher. A forma com que você fala faz parecer que esses mesmos conceitos de beleza e estética não existem e são destinados ESPECIALMENTE para as mulheres; como se não sofrêssemos abusos dessa instituição desde que nascemos. Comecei a usar maquiagem aos 8 anos de idade. Salto alto aos 7. E comecei a odiar meu próprio corpo muito antes disso.

Nosso problema não é simplesmente o fato de vocês performarem a feminilidade ao extremo. Nosso problema é vocês clamarem mulheridade simplesmente porque performam essa feminilidade. A única ideia de mulher que uma pessoa do sexo masculino pode ter é, claramente, observando as mulheres. Logo, a ideia de mulher para vocês parece ter somente a ver com a performance de gênero feminina. E isso, para nós. reforça ainda mais nossas opressões, pois ser mulher não é simplesmente isso. Ser mulher é nascer com uma vagina e ter a sociedade eficientemente construindo a “ideia de mulher” dentro de você.

Vocês não têm vivencias de mulher. Porque ser mulher não é simplesmente “calçar nossas sapatos”.
Vivência de mulher é começar a sofrer violência a partir do momento que você nasce.
PARE de querer fazer parecer que pessoas do sexo masculino podem ser e/ou são mulheres porque acharam a mulheridade atraente. Essas pessoas podem parecer, MAS NÃO SÃO.
Vocês são machos porque é essa a leitura social que ocorre sobre vocês, e leitura social faz toda a diferença. Se é a leitura social que determina a opressão, é por isso acreditam que ser mulher é uma boa ideia. E não é.

Mas pra falar a verdade mesmo, não é nem esse o nosso problema. Não podemos interferir em como vocês querem ser chamados e na individualidade de vocês. O problema é quando o teu ativismo começa a fazer mulheres acreditarem que a posição delas é de privilegio. Que lésbicas devem se relacionar com pênis. Que genital não faz diferença na vida de alguém, que a vagina socialmente e culturalmente não determina a mulheridade — e, consequentemente, a opressão — daquele individuo. Quando a transfobia se torna mais grave do que o ódio às vaginas, o ódio às mulheres que vocês alimentam para beneficiar seu movimento. O problema é vocês colocarem na cabeça de jovens mulheres que as maiores oprimidas são vocês e que nosso dever é militar pelas suas causas.

Meu problema é vocês quererem enfiar vossas presenças nos banheiros femininos, nos espaços exclusivos para mulheres, nas nossas vaginas e bocas. O problema é quando vocês exigem entrada liberada em nossos banheiros, mesmo que isso implique abrir brecha para que homens, que vivem e são lidos como homens, se aproveitarem disso para espionar e estuprar mulheres (e isso tem acontecido, viu?). O problema é vocês acreditarem que a noção de gênero de vocês é a unica e verdadeira e que qualquer outra, mesmo que montada por mulheres e para mulheres, deva ser execrada, mesmo que aquilo seja parte do único legado que nos resta. O problema é vocês combaterem os espaços que lutamos para conquistas para nós mesmas, para interagirmos com aquelas cujas vivencias são semelhantes às nossas. O problema é que socialização masculina envolve MUITA misoginia e eu tenho o direito de me proteger disso.

Eu não me importo se você se chama Marcelo ou Marcela, se usa saia ou vestido. Eu me importo quando o teu movimento me culpabiliza me jogando no “saco cis” e me acusando de me conformar ou me “identificar” com as opressões a mim impostas.

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Por que o feminismo radical é acusado de ser conivente com a “transfobia”?

Porque, aparentemente, polêmica pouca é bobagem

Não é novidade para ninguém, atualmente, que o feminismo radical é incessantemente acusado de promover ou ser conivente com a transfobia, simplesmente porque esta vertente feminista tem uma visão diferente acerca da definição de gêneros e do peso social que a socialização tem na existência social de alguém.

Como feminista radical, acredito que falo por todo o movimento quando digo que nós jamais vamos apoiar ou incentivar qualquer tipo de desumanização ou violência contra ninguém, incluindo pessoas que se identificam como trans. Somos a favor dos direitos humanos e acreditamos que eles devem ser como na teoria são: universais. Feministas radicais em momento algum vão incentivar a agressão ou a violência contra nenhum tipo de pessoa.

Discordar de alguém, contudo, não é uma forma de violência. Isso é, aliás, um conceito deturpado com o qual nós (infelizmente) entramos em contato logo durante nosso início na militância feminista: a ideia de que a discordância, de que a crítica a posicionamentos e a problematização de atitudes ou formas de pensar é necessariamente um ataque pessoal aos indivíduos que agem dessa forma ou perpetuam essas ideias. Nós não “odiamos pessoas trans”, mas não podemos negar que, entre a política da “identidade de gênero” e o feminismo radical há, sim, uma grande discordância.

Feministas radicais são críticas do gênero em si. Não não temos como projeto a reforma dos gêneros – nós somos abolicionistas de gênero. Vemos o gênero como uma opressão, já que ele divide seres humanos em duas classes distintas, ambas com papéis de gêneros e socializações diferentes. Embora ambas as classes sejam individualmente oprimidas por serem limitadas por esses papéis de gênero e moldadas por suas formas de socialização, o gênero, por estar intimamente ligado com o patriarcado, é também o que separa os indivíduos em classes “masculina” e “feminina” e que, com base em formas de socialização distintas, é essencial para executar a opressão da classe privilegiada e opressora masculina sobre a classe oprimida feminina. Por ser um movimento de cunho revolucionário, o feminismo radical crê que, a ausência dos papéis de gênero socialmente construídos e que formam a base essencial do patriarcado, essencial para qualquer revolução que busque libertar a classe feminina, acabaria com todo tipo de código social que defina o que pessoas do sexo masculino e feminino podem ou devem fazer (ou não fazer), assim tornando-as livres para se vestir, se comportar, e amar umas as outras da forma que desejassem, independentemente de que tipo corporal ou sexo elas tivessem nascido com.

Como já foi dito antes, o patriarcado é o sistema que pega seres humanos que nasceram sendo biologicamente machos ou fêmeas e os transforma nas classes sociais chamadas de “homens” e “mulheres”. O que foge ao entendimento de muitos é que, embora seja um sistema classista, o Patriarcado em mais parece um sistema de castas do que de classes, já que não existe uma verdadeira mobilidade entre as classes privilegiada e oprimida, entre as classes masculina e feminina. Pessoas do sexo masculino são transformadas em homens pela socialização masculina, que é definida por uma psicologia baseada na dormência emocional e na dicotomia entre o eu e e outro. Enquanto isso, a socialização feminina no patriarcado parece ser um processo de psicologicamente constranger e destruir meninas – processo esse também chamado de  “preparação”, preparação esta para criar uma classe de vítimas conformes. A feminilidade é uma série de comportamentos que são, em sua essência, pura submissão ritualizada.

Não conseguimos enxergar nada na criação ou na constituição do conceito de “gênero” que valha a pena ou deva ser celebrado ou aceito. O Patriarcado é um arranjo de poder brutal e corrupto e nosso objetivo é “desmantelá-lo” até que estas categorias de gênero não existam mais, bem como outros critérios de divisão de grupos e classes criados em função de dar privilégios a um grupo enquanto oprime outros grupos, de forma histórica, social, econômica e política (e por isso também que o feminismo radical pode dialogar com outras lutas libertárias de cunho revolucionário, como a luta pela libertação do sistema de classes [sócio-econômicas],  pelo fim da discriminação de raças [fim do racismo], etc).

De acordo com a nossa concepção, a verdadeira liberdade da classe feminina nunca será possível enquanto os gêneros existirem, justamente por estes serem sistemas usados para moldar a masculina de forma a receber privilégios pela opressão que eles nos infligem (já que no patriarcado, é estra classe que detém o poder) e molda a classe feminina para ser submissa diante de sua opressão e, não contente em normalizar nossa opressão e a violência que inflige sobre nós, ainda nos faz acreditar que essa opressão é, de alguma forma, seja esta científica, histórica ou religiosa, natural, necessária ou certa. O patriarcado facilita a exploração de corpos femininos para o benefício dos homens – seja para a satisfação sexual masculina, seja como mão de obra barata ou pela reprodução. Apenas para dar uma rápida exemplificação, existem aldeias inteiras na Índia onde todas as mulheres só tem um rim. Por quê? Porque seus maridos têm o costume de vender o outro. Gênero é muito mais do que um “sentimento” ou uma “identidade” — é uma violação contra direitos humanos de uma classe inteiras de mulheres, ou como diria Andrea Dworkin em “Against the Male Flood: Censorship, Pornography, and Equality”, pessoas chamadas mulheres.

Nós, feministas radicais, não somos “transfóbicas”, mas temos, sem dúvidas, discordâncias com reformistas de gênero sobre o que o gênero realmente é. Reformistas de gênero acham que o gênero é natural, quase um produto da biologia humana. Feministas radicais e pessoas abolicionistas de gênero encaram este [o gênero] como algo social, que produz e é produto da supremacia masculina, logo, é essencial para a manutenção desta. Reformistas de gênero encaram gênero como uma “identidade”, um conjunto interno de sentimentos que as pessoas possam ou não ter. Feministas radicais e abolicionistas de gênero encaram gêneros como o sistema patriarcal de “castas”, conjuntos de condições materiais e sociais nos quais um indivíduo já nasce imerso. Reformistas de gênero o encaram como um binarismo, enquanto feministas radicais e abolicionistas de gênero o encaram com uma hierarquia; hierarquia esta na qual quem está no topo é a classe masculina. Alguns reformistas de gênero afirmam que o gênero é algo “fluido”. Feministas radicais apontam que não há nada de fluido em ter seu rim posto a venda pelo seu marido. Então, sim, nós temos algumas grandes discordâncias ideológicas.

Feministas radicais também acreditam que as mulheres devem ter o direito de definir suas fronteiras e limites e decidir quem deve ser incluído em seus espaços exclusivos (e sim, também acreditamos na necessidade desses espaços exclusivos). Acreditamos que todos os grupos oprimidos têm esse direito. Somos constantemente chamadas de transfóbicas por apoiar a decisão de várias mulheres de não ter homens – pessoas nascidas com o sexo masculino e socializadas na masculinidade – em espaços exclusivamente femininos.

Se o feminismo com o qual você está acostumada não tem como prioridade fundamental a segurança das mulheres, se o seu feminismo não prioriza as causas destas mulheres e se ele não coloca como seu objetivo máximo a libertação da classe feminina do patriarcado e todos os sistemas que as aprisionam [mulheres] (e não a reforma destes sistemas, que seriam ineficientes para promover a real libertação das mulheres), então talvez seja a hora de parar e refletir se esse feminismo está realmente comprometido com a causa feminina.

A política de identidade de gênero machuca as mulheres.

É sempre complicado e polêmico tentar começar uma discussão sobre identidade de gênero, já que tudo que tem a ver com “individualidade” e “escolhas pessoais” é vangloriado e protegido com unhas e dentes por correntes feministas que concentram suas análises na esfera individual, ao invés de analisarem nossas sociedade patriarcal e os elementos que lhe sustentam ou que são consequentes dela levando em conta as classes de pessoas, os interesses e a posição de poder das mesmas. E, já que estas correntes não exigem que haja problematização de nossos “gostos pessoais” já que indivíduos são “seres individuais fazendo escolhas individuais e sem conexão”, ela consequentemente é muito mais “atrativa” para quem está começando a ter contato com as discussões do feminismo; e seria um estágio saudável, se não fosse pelo fato de muitas mulheres se sentirem tão confortáveis com o movimento que engole tudo e não critica nada que estagnam no estágio que deveria ser intermediário; no Feminismo Liberal.

Então, sim: conversar com mulheres que ainda estão presas na forma de análise e de pensamento do Feminismo Liberal sobre a problematização da política de identidade de gênero é sempre muito delicado, assim como é delicado tocar em qualquer outro assunto que exija não somente senso crítico, com também mente aberta para o diálogo, para a problematização, bem como bastante paciência da parte de quem está iniciando essa discussão. Eu não sou a pessoa mais paciente do mundo; creio que devo ser uma das pessoas mais impacientes que conheço. O que alimenta esse texto não é minha paciência, porém, mas minhas teimosia e a necessidade latente de discussões desse tipo.

Espero do fundo do meu coração que, seja lá quem for você, mulher, que esteja lendo isto agora, esteja fazendo-o por estar realmente disposta a sequer dar uma chance para novas formas de enxergar a militância pela liberdade feminina batizada, muito antes de eu nascer, de “feminismo”. Não pretendo com este texto impor minha visão ou minha forma de pensar, mas somente expor minhas visões sobre este assunto. 

Sem mais delongas, creio que o mais adequado agora seria começar a discussão com a frase usada no título deste texto:

“A política de identidade de gênero machuca as mulheres.”

Gostaria, então, de explicá-la.

A gritante maioria de nós entra em contato com o movimento feminista por meio do Feminismo Liberal, pelos motivos que já citei anteriormente. É muito mais fácil aceitar um movimento que quer te “empoderar” (entenda as aspas aqui) do que o movimento que logo de cara tenta problematizar o que você sempre aprendeu a encarar como certo, como bom, como saudável, como normal. O nome desse feminismo, contudo, não é por acaso: em muitos pontos ele lembra, está conectado ou dialoga com o liberalismo, e isso é problemático. O que há de mais liberal neste feminismo provavelmente é o individualismo.

O feminismo liberal dificilmente falará de projetos reais de derrubada do patriarcado e dos papéis de gênero; ao menos não enquanto ele simplesmente pode nos oferecer “resinificações” das nossas antigas opressões (p.e. o incentivo que essa corrente feminista dá a resinificações de termos ofensivos, como “vadia”, “puta”, “feminazi”, etc, partindo da ideia equivocada de que “um termo só é ofensivo enquanto nós nos ofendemos com ele”, que é claramente falha quando levamos em conta a carga que histórica e socialmente um termo carrega e como esta não pode ser apagada por resinificações superficiais) e identidades de gênero: tantas quanto podemos pensar, e mais algumas.

A ideia que isso [identidades de gênero] envolve é a de que gêneros, ao invés de serem somente “uma caixinha masculina e uma caixinha feminina”, previamente delimitadas e nas quais indivíduos devem se enquadrar, são na verdade várias caixinhas, de formas diversas, com papéis de gênero diversos e nas quais você não precisa se encaixar e pode chegar ao ponto de simplesmente poder “experimentar” o melhor que cada caixinha há de oferecer antes de decidir qual a que gosta mais (ou, melhor ainda: não decidir por nenhuma e criar uma nova, só sua). Ideia bonita, não acham? Bonita, porém utópica.

Utópica porque gêneros, na vida real, não são belas e infinitas caixinhas. Na vida real, que é aonde análises têm (ou ao menos deveriam ter) de ser feitas, gêneros são, sim, apenas duas caixinhas previamente delimitadas: a masculina e a feminina. É assim que acontece, na vida real, e afirmar isso não é concordar com isso: é simplesmente dizer não ser tão ingênua a ponto de ignorar a realidade porque ela não me satisfaz. De qualquer forma, na vida real, gêneros são caixinhas nas quais você é encaixado desde que seus pais têm ciência do que, no patriarcado, é o que é considerado crucial na hora de delimitar quem você será, do que irá gostar e, o mais importante, qual será o nível de liberdade, de poder e de voz que você terá, tanto social, quanto política e economicamente: o seu sexo.

Para tornar o post mais ilustrado e ajudar na compreensão, trouxe imagens [obviamente meramente ilustrativas] das nossas “caixinhas”, dos gêneros nos quais fomos encaixados de acordo com nossos genitais:

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Estas duas caixas são distintas, e ser criado dentro de cada uma delas trará a um indivíduo consequências e experiências diferentes ao longo da vida, simplesmente porque, levando em conta a “caixinha” na qual você foi encaixado (o que não quer dizer que você se encaixe lá), você desde pequeno será criado, ensinado e tratado de forma distinta de indivíduos da “caixinha diferente”.

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Mas o conceito de “gênero” não para simplesmente por ai. Não é somente a delimitação de um indivíduo em uma das “caixinhas” que vai decidir a forma como ele crescerá e se comportará, mas sim a forma como ele será criado para se encaixar na “caixinha” da qual faz parte; e é graças a essa característica fundamental à existência do gênero, a socialização, que podemos entender o que o gênero realmente é: parte inerente da opressão patriarcal da classe masculina sobre a classe feminina.

Meninos e meninas são criados de forma diferente. Desde novos, meninos são criados com uma considerável liberdade para explorarem o mundo do qual fazem parte, para sonhar e para se auto-descobrirem. Enquanto isso, meninas são desde cedo ensinadas a se cobrir, a se calar, a se colocar “em seus devidos lugares”. Elas aprendem a deixar de fazerem o que gostam porque “não é coisa de menina”, a não expor o que pensam porque “vão parecer irritantes”. Elas também aprendem desde muito cedo, embora muitas vezes inconscientemente, sobre o privilégio masculino: meninos podem correr, podem brincar, podem ter o que quiserem, podem se tocar e podem tocá-las a seu bel-prazer — afinal, “boys will be boys”: não são eles que terão de aprender a te respeitar, mas sim você que terá de “se dar ao respeito” e aprender a lidar com isso.

A medida em que estas crianças crescem e chegam à puberdade, a diferença na forma com que são tratadas só aumenta: embora ambos os indivíduos sejam pressionados pela heteronormatividade, a liberdade masculina sobre seu próprio corpo (e, vale lembrar, a implícita liberdade a eles dada sobre os nossos corpos) que é dada ao indivíduo do sexo masculino, bem como o conhecimento de sua anatomia, de seus desejos e a chance bem maior de poder exercer e experimentar com sua sexualidade é negada às jovens mulheres; essas, que desde cedo assimilam a ideia de que tudo que é socialmente associado com elas, com meninas, é “ruim”, “errado”, “fraco”, “bobo”, agora se veem cada vez mais pressionadas por padrões que irão acompanhá-las para o resto de suas vidas, e que, por mais que elas tente ignorá-los e fingir que eles não existem, estarão lá e serão motivo de muitos problemas que elas possam vir a ter com relação à auto-estima: os padrões de beleza.

Meninas cada vez mais novas já se vêem pressionadas a começar a usar maquiagem para “esconder suas imperfeições”, fazer dietas malucas ou se privar de comer o que gosta (e, em casos extremos e que devem ser tratados, pois são distúrbios alimentares, se vêem pressionadas a se privar de comer, em geral). Essas meninas aprendem que “a beleza custa caro”, mas ao mesmo tempo, não enxergam outra alternativa senão se submeter a procedimentos doloridos, incômodos, por vezes caros e que lhes proporcionarão resultados que elas gostaram, muitas vezes, muito mais porque foram ensinadas a gostar deles do que puramente por seus gostos pessoais. E esses ciclos, de sofrimento, de silenciamento e de submissão, são aprendidos, assimilados e farão parte da vida destas mulheres, quer queiram elas, quer não.

Embora tanto a socialização masculina quanto a feminina sejam “forçadas” a esses indivíduos e mesmo que nenhum deles tenha voz para “escolher” coisa alguma, é inegável a forma como os gêneros foram criados e funcionam para a manutenção do sistema de privilégios masculinos e da opressão feminina, já que mulheres são socializadas em um sistema que as diminui, as silencia, as explora, limita seus espaços, as priva de conhecimento, de auto-conhecimento, de direitos e, em geral, de liberdade.

Como eu já disse antes, o conceito de “ser mulher” sempre esteve associado com a minha dor. Minha “identidade” feminina não provem de um “cérebro feminino” pois, assim como qualquer outra mulher, eu não me encaixo e duvido que um dia serei capaz de me encaixar completamente na “caixinha” na qual fui jogada, na “caixinha feminina”. Minha “identidade” feminina, minha mulheridade, está intimamente ligada à minha identificação com as limitações, com os percalços e com a dor que a socialização feminina me infligiu e infligiu à outras mulheres.

Quando vejo alguém que não jamais teve as experiências que somente a socialização feminina nos proporciona dizer que “se identifica como mulher”, a primeira coisa que me vem a cabeça é: “se esta pessoa se identifica como mulher, o que é ser mulher, para ela?”. Porque, para mim e para qualquer outra pessoa socializada como mulher, “ser mulher” é tão mais que se encaixar nos papéis de gênero feminino, do que “usar saia e batom”, do que “gostar de homens”, do que qualquer “isso” ou qualquer “aquilo” que se encontra em alguma lista de algum site falando sobre coisas que toda mulher faz, gosta, quer ou se interessa.

É muito fácil bradar que “a socialização não importa!” quando se é socializado tendo o mundo nas mãos. Mulheres são parte considerável (you don’t say????) da população mundial, e ainda assim, só detêm 1% das propriedades mundiais e fazem apenas 10% da renda mundial. Uma em cada três mulheres será agredida ou estuprada durante sua vida, e a cada dois minutos uma de nós morre em decorrência de gravidez ou durante o parto. 875 milhões de mulheres não sabem como ler ou escrever, e todo o dia 39,000 meninas são obrigadas a se tornarem noivas.

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É simplesmente fácil demais ignorar a influência da socialização nas nossas vidas quando existem meninas sendo abandonadas ou mortas na China porque seus pais queriam um filho homem, ou ignorando que vivemos num mundo onde estima-se que cerca de 86 milhões de meninas estão sujeitas a sofrer mutilação genital até 2030. A ONU inclusive já declarou, baseando-se em seus bandos de dados sobre a violência contra a mulher, que nascer mulher define nossa existência social.

Não ouse olhar na minha cara, na cara de mulher alguma, e bradar que “socialização não importa” quando vivemos num mundo onde ser identificada mulher no nascimento é estar sujeita a violências, onde ser socializada como mulher é não somente estar sujeita a violência como ser emocional e psicologicamente violentada por uma socialização que lhe destrói sua auto-estima e seu amor próprio, desestimula sua criatividade, lhe faz se sujeitar a situações degradantes e destrutivas em nome da beleza, da aceitação social e dos padrões impostos pela feminilidade, que lhe ensina a não se expressar, se anular pelo bem coletivo, se diminuir pelo bem do ego masculino… Uma socialização que lhe ensina a naturalizar a violência que sofre, a se culpabilizar, a “aguentar calada”. Uma socialização que lhe ensina a por todos e seus desejos na frente de você e do que você quer.

A política de identidade de gênero machuca as mulheres por as colocar na posição de opressoras num sistema onde elas não têm voz sequer para se DEFENDER. A política de identidade de gênero as machuca por as tratar como “opressoras” por se “identificarem” como mulheres, sendo que essa “identificação” muitas vezes é o único sentido existente para as agressões e a misoginia que sofremos e, portanto, nos “desfazer” dela seria nos desfazer, também, do entendimento das opressões misóginas que sofremos, do privilégio masculino que outros indivíduos têm e da irmandade feminina, essencial para muitas de nós conseguirmos realmente ter forças para continuar lutando pela liberdade da classe feminina. A política de identidade de gênero machuca pois tenta obrigar as mulheres “opressoras” a colocar outras pautas a frente das suas, uma característica patriarcal que foi adaptada pela esquerda e também por quem defende as pautas de identidade de gênero. A política de identidade de gênero machuca pois continua silenciando pessoas socializadas como mulheres, independentemente destas “se identificarem” como mulheres.

A política de identidade de gênero machuca as mulheres porque qualquer política que pretenda “apaziguar” a situação, que venha propor às mulheres que elas resinifiquem as violências institucionalizadas e sistemáticas que elas sofrem ao invés de propor que elas se unam para lutar pela liberdade total feminina e a abolição do sistema que as oprima não está realmente preocupada com as mulheres.

 

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