Não estou “de boa” e não irei me calar!

Ser militante é estar em constante mudança, em constante transformação. Consideramos que vivemos em um mundo e em uma sociedade que estão em constante evolução, em constante mudança, o militante que tem medo de mudar, de repensar suas condutas e crenças… fica pra trás. Ser militante também exige estar sempre pronta pro combate, e não estou falando simplesmente do embate físico com outras pessoas, com outros movimentos ou até com os braços armados do governo.

Toda mulher feminista deveria cultivar o feminismo combativo, deveria cultivar em si a vontade crescente de estar sempre em movimento, de estar sempre lutando. É isso que faz e sempre fez  o movimento feminista, bem como qualquer outro movimento pela liberdade de outras classes oprimidas, continue existindo, continue funcionando. Se ativistas entram no ócio, se ativistas se acomodam, a luta estagna. E, considerando que nenhuma luta estagnada tem força, ela se torna ineficiente ou até inexistente. 

Há de se admitir: participar do ativismo feminista, especialmente no meio virtual, é desgastante. Há dias em que você sente vontade de acabar com tudo, de sumir. Se afastar da militância por um tempo ou até de forma mais permanente é completamente normal; há pessoas que não conseguem ter saúde mental para lidar com esse tipo de coisa, com esse desgaste constante. Eu não julgo essas mulheres, não mesmo.

O que eu critico, porém, é quando alguém acredita que pode usar o nome do feminismo como simples “identidade”. Eu não consigo tolerar que alguém se considere abertamente “feminista” enquanto prega o ócio; eu não consigo tolerar que mulheres que se dizem feministas estejam dizendo para as outras ficarem “de boa” enquanto a classe feminina é continuamente explorada pelo patriarcado.

Embora eu já tenha ouvido que a página foi criada para pregar a “harmonia entre vertentes”, nem isso faz sentido. O movimento feminista, em tese, tem a sororidade como uma de suas maiores pautas. Respeito mulheres feministas de outras vertentes, bem como mulheres em geral. Respeito-as, e respeito suas existências, mas sororidade não me obriga a aceitar ou fingir concordar com qualquer coisa que mulheres falem, sobre o mundo e sobre a militância feminista.

Se encaro o feminismo de uma forma diferente de minha colega de luta, creio que a discussão é essencial; isso não é ir contra a sororidade, mas sim agir como qualquer outro ser racional que encontra divergências entre sua forma de pensar e a do seu próximo: civilizadamente debater sobre tais divergências, tentar expor o que eu acredito, ouvir o que o outro têm a dizer. Quando você mina qualquer possibilidade de discussão e debate com discursos que basicamente dizem “deixe isso de lado, cara, fica de boa!!!!”, você também mina a possibilidade de diálogo entre mulheres, mina a formação de ideia com base nas discussões e nas mediações.

Política é embate, é discussão, é debate, é não aceitar o que o outro te diz se você não concorda com ele. Militar por uma causa significa embater com pessoas que não pensam da mesma forma; militar por um grupo oprimido é ter de sempre estar pronta para embater contra a classe opressora. Minar isso em prol do ócio, em prol de “ficar de boa” é desestimular mulheres a cultivarem o sentimento que foi e é o motor histórico e social das conquistas femininas; se algumas de nós não tivessem, em algum momento, se revoltado com suas situações e com a latente desigualdade; se elas não tivessem cultivado o feminismo combativo, se não tivessem brigado, se não tivessem discutido, inclusive entre si, e se não tivessem ido a luta, nós nunca estaríamos onde estamos hoje. 

Se não fosse por todas as mulheres combativas, que deram a cara a tapa pelos direitos da classe feminina, nós não teríamos nada. Nenhum direito, nenhum espaço, nenhuma voz. Esses ainda são escaços, mas se temos alguma coisa, é por causa delas. 

Considerando isso, é no mínimo uma afronta contra a memória dessas mulheres reduzir o movimento que elas suaram e apanharam para construir a um jogo identitário, onde o ócio e a acomodação são formas de lutar contra a opressão e onde qualquer um, por mais desinformado ou descomprometido com a causa feminina que esteja, é feminista a partir do momento em que assim se diz. 

Propagar esse tipo de ideia, essas ideias cultuadoras da “boa vizinhança” ou do ócio, dentro dos espaços de militância, como uma forma de lutar ou militar, é atentar contra o passado e o presente de lutas feministas, bem como ameaçar o futuro.

E eu entendo que essa provavelmente não era a intenção. A intenção de quem começou com essas ideias era, provavelmente, ter um descanso de tantas brigas e discordâncias internas. O que não muda o aspecto problemático dessas ideias, que parecem promover o descaso e a acomodação dentro de um movimento que só existe por causa do comprometimento de mulheres com uma luta que antes parecia impossível, e porque mulheres em algum momento da história fizeram a opção por não se acomodar em suas posições sociais de opressão, escolheram se incomodar e embater contra o sistema que criou e que mantem sua opressão, e contra a classe opressora.

Eu não vou ficar “de boa”, eu não vou me acomodar. Eu não tenho motivos para fazê-lo. A classe feminina sempre foi explorada, e eu não vou ser quem vai banalizar a luta que minhas irmãs suaram e morreram pra construir e consolidar. O feminismo não ter a ver com bem-estar pessoal ou com identificação, o feminismo é um movimento político de libertação feminina, tem a ver com aplicar as teorias do feminismo na militância virtual e presencial, tem a ver com prática, com formas de agir e de enxergar o mundo, e principalmente, com a luta pela libertação da classe feminina das garras do patriarcal, da violência de gênero e da exploração. 

Enfiar o ócio e o pacifismo dentro do feminismo é não somente banalizar a história da luta feminista, aliás, como também é se enganar achando que simplesmente ignorar os problemas, dentro e fora da militância feminista, vai fazer com que eles sumam. Se você quiser por seu bem-estar acima da luta, faça-o. Faça o que acredita melhor para você. Se acredita que realmente vai poder conquistar algo se valendo do pacifismo ou do que agora é chamado de “deboísmo”, então tente. Só não tente atribuir esse caráter acomodado e anti-revolucionário ao movimento feminista; no mínimo, promover isso é minar o feminismo combativo que, para mulheres vivendo em uma sociedade patriarcal, é a única forma de constituir não somente sua existência, mas também constituir resistência.

E a resistência é a única coisa que pode nos libertar. 

Se sua forma de militar mina o feminismo combativo, a resistência, o espírito revolucionário, ele não está realmente preocupado com a libertação feminista, e de gente minando ou silenciando essa libertação, a principal causa feminista, propositalmente ou não, o feminismo já está cheio.

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