Ser mulher não é simplesmente “calçar nossos sapatos”!

 

Adaptado de um texto de autoria de Julia Maria Fernandes, postado no Facebook. Ela me autorizou a adaptá-lo e  disponibilizá-lo aqui. Eu mudei algumas palavras que acreditei que fossem se encaixar melhor, mas procurei manter o sentido do texto original integralmente. Obrigada, Julia! ❤

 

Hoje meu recado vai para você, transativistas, em especial a uma que fez um texto direcionado para nós; mas também vai para todos os outros grupos anti-feministas e anti-espaços exclusivos de mulheres, o que tem se tornado um pleonasmo, ao meu ver.

Nós, mulheres, também passamos uma vida sendo apedrejadas.
No Oriente Médio, as maiores vitimas desse modo de execução são as mulheres, onde sua palavra de nada vale e grande parte parte das vezes seu julgamento não é justo. Sakineh Ashtiani é uma mulher de 43 anos e sua execução é iminente.
Os números são assustadores. Dentre os vários casos de execução, é mencionável o caso de  uma menina de 16 anos que foi enforcada, em 2004. Seu crime? Ela foi estuprada diversas vezes por um homem casado de 51 anos. Ele não foi a julgamento.

Também somos ridicularizadas desde a infância. Se não nos encaixamos nos padrões de beleza que nos são impostos, mesmo quando ainda somos crianças, somos convencidas que a nossa existência não vale. As mulheres estão em segundo lugar onde quer que elas estejam; somos a classe inferior, o “segundo sexo”. Menos no feminismo radical, movimento que você acusa de não reconhecer sua mulheridade — e olha, nós não temos essa obrigação.

Também temos nossos direitos básicos violados constantemente. A classe feminina compõe a maioria dos casos de vitimas de estupro, abuso domestico, violência obstétrica, pedofilia, assassinato marital. Os nossos estupradores são protegidos por uma lei falha e a nossa cultura nos culpa e aprisiona pelos abusos que sofremos.

Quanto ao direito de ter uma família, nos é negado o direito de não tê-la. Vivemos sob a autoridade dos homens da nossa família e, quando viramos adultas, somos obrigadas a constituir uma família graças à maternidade compulsória, que marginaliza mulheres que não querem abdicar de seus planos e sonhos em detrimento de outra(s) pessoa(s) — pois também é sabido que as obrigações de criar uma criança são de nossa responsabilidade e não dos homens (o serviço e as obrigações domésticas não são divididos de forma igual e quase sempre ainda são vistos como obrigação da mulher — o que acarreta a jornada tripla de trabalho feminina). Cabe a nós apagar ou tornar secundários nós mesmas e nossos objetivos em detrimento dos filhos.

Há, inclusive, uma tentativa de fazer vigorar uma lei que nos obriga a manter a gravidez em caso de estupro e ainda reconhecer o estuprador como o pai da criança. Uma mulher tem que constituir família: queira ela ou não.
E há quem diga que maternidade é privilegio — dentro de espaços feministas, inclusive.

Nossos nomes estão, de fato, de acordo com o nosso gênero e  vocês nos acusam de “nos identificarmos” com eles, e isso é degradante. Em uma sociedade cuja a visão e a imposição de gêneros visa beneficiar as pessoas do sexo masculino, como então poderia a binaridade dos gêneros beneficiar a mulher? Se, de acordo com a nossa análise, o gênero é uma arma patriarcal para a dominação e doutrinação das fêmeas, da classe feminina, que nesse contexto servem de auxilio emocional, doméstico, sexual e afetivo para homens?

Como podem dizer que nos identificamos com essa posição [que nos é imposta]? Apenas por nos conformamos com a feminilidade que a nós foi imposta com o intuito de nos fragilizar, vulnerabilizar, enfraquecer, odiar-nos entre nós, incapacitar-nos intelectualmente e nutrir um sentimento maternal e altruísta pelas pessoas do sexo masculino? Não nos identificamos com a feminilidade, tampouco com o que é “ser mulher”. Eu não me identifico com essa construção social que me foi imposta desde antes de eu nascer.

Se a ideia de gênero existente atualmente visa justamente viabilizar toda a violência que me atinge como mulher, por que então meu gênero seria negado? Meu gênero nunca me foi “concedido”. Meu gênero me foi empurrado goela abaixo e nada do que eu faça mudará os efeitos que isso teve na infância, juventude, crescimento e socialização de uma mulher. A trágica construção do ser mulher não pode ser neutralizada simplesmente se eu mudar meu nome e meu comportamento. A socialização feminina ainda estará lá e a socialização das pessoas do sexo masculino é uma vantagem sobre mim.

Quando você fala sobre a imposição dos padrões de beleza, você diz que isso pra ti é uma necessidade para que a sociedade te enxergue como mulher. A forma com que você fala faz parecer que esses mesmos conceitos de beleza e estética não existem e são destinados ESPECIALMENTE para as mulheres; como se não sofrêssemos abusos dessa instituição desde que nascemos. Comecei a usar maquiagem aos 8 anos de idade. Salto alto aos 7. E comecei a odiar meu próprio corpo muito antes disso.

Nosso problema não é simplesmente o fato de vocês performarem a feminilidade ao extremo. Nosso problema é vocês clamarem mulheridade simplesmente porque performam essa feminilidade. A única ideia de mulher que uma pessoa do sexo masculino pode ter é, claramente, observando as mulheres. Logo, a ideia de mulher para vocês parece ter somente a ver com a performance de gênero feminina. E isso, para nós. reforça ainda mais nossas opressões, pois ser mulher não é simplesmente isso. Ser mulher é nascer com uma vagina e ter a sociedade eficientemente construindo a “ideia de mulher” dentro de você.

Vocês não têm vivencias de mulher. Porque ser mulher não é simplesmente “calçar nossas sapatos”.
Vivência de mulher é começar a sofrer violência a partir do momento que você nasce.
PARE de querer fazer parecer que pessoas do sexo masculino podem ser e/ou são mulheres porque acharam a mulheridade atraente. Essas pessoas podem parecer, MAS NÃO SÃO.
Vocês são machos porque é essa a leitura social que ocorre sobre vocês, e leitura social faz toda a diferença. Se é a leitura social que determina a opressão, é por isso acreditam que ser mulher é uma boa ideia. E não é.

Mas pra falar a verdade mesmo, não é nem esse o nosso problema. Não podemos interferir em como vocês querem ser chamados e na individualidade de vocês. O problema é quando o teu ativismo começa a fazer mulheres acreditarem que a posição delas é de privilegio. Que lésbicas devem se relacionar com pênis. Que genital não faz diferença na vida de alguém, que a vagina socialmente e culturalmente não determina a mulheridade — e, consequentemente, a opressão — daquele individuo. Quando a transfobia se torna mais grave do que o ódio às vaginas, o ódio às mulheres que vocês alimentam para beneficiar seu movimento. O problema é vocês colocarem na cabeça de jovens mulheres que as maiores oprimidas são vocês e que nosso dever é militar pelas suas causas.

Meu problema é vocês quererem enfiar vossas presenças nos banheiros femininos, nos espaços exclusivos para mulheres, nas nossas vaginas e bocas. O problema é quando vocês exigem entrada liberada em nossos banheiros, mesmo que isso implique abrir brecha para que homens, que vivem e são lidos como homens, se aproveitarem disso para espionar e estuprar mulheres (e isso tem acontecido, viu?). O problema é vocês acreditarem que a noção de gênero de vocês é a unica e verdadeira e que qualquer outra, mesmo que montada por mulheres e para mulheres, deva ser execrada, mesmo que aquilo seja parte do único legado que nos resta. O problema é vocês combaterem os espaços que lutamos para conquistas para nós mesmas, para interagirmos com aquelas cujas vivencias são semelhantes às nossas. O problema é que socialização masculina envolve MUITA misoginia e eu tenho o direito de me proteger disso.

Eu não me importo se você se chama Marcelo ou Marcela, se usa saia ou vestido. Eu me importo quando o teu movimento me culpabiliza me jogando no “saco cis” e me acusando de me conformar ou me “identificar” com as opressões a mim impostas.

Por que o feminismo radical é acusado de ser conivente com a “transfobia”?

Porque, aparentemente, polêmica pouca é bobagem

Não é novidade para ninguém, atualmente, que o feminismo radical é incessantemente acusado de promover ou ser conivente com a transfobia, simplesmente porque esta vertente feminista tem uma visão diferente acerca da definição de gêneros e do peso social que a socialização tem na existência social de alguém.

Como feminista radical, acredito que falo por todo o movimento quando digo que nós jamais vamos apoiar ou incentivar qualquer tipo de desumanização ou violência contra ninguém, incluindo pessoas que se identificam como trans. Somos a favor dos direitos humanos e acreditamos que eles devem ser como na teoria são: universais. Feministas radicais em momento algum vão incentivar a agressão ou a violência contra nenhum tipo de pessoa.

Discordar de alguém, contudo, não é uma forma de violência. Isso é, aliás, um conceito deturpado com o qual nós (infelizmente) entramos em contato logo durante nosso início na militância feminista: a ideia de que a discordância, de que a crítica a posicionamentos e a problematização de atitudes ou formas de pensar é necessariamente um ataque pessoal aos indivíduos que agem dessa forma ou perpetuam essas ideias. Nós não “odiamos pessoas trans”, mas não podemos negar que, entre a política da “identidade de gênero” e o feminismo radical há, sim, uma grande discordância.

Feministas radicais são críticas do gênero em si. Não não temos como projeto a reforma dos gêneros – nós somos abolicionistas de gênero. Vemos o gênero como uma opressão, já que ele divide seres humanos em duas classes distintas, ambas com papéis de gêneros e socializações diferentes. Embora ambas as classes sejam individualmente oprimidas por serem limitadas por esses papéis de gênero e moldadas por suas formas de socialização, o gênero, por estar intimamente ligado com o patriarcado, é também o que separa os indivíduos em classes “masculina” e “feminina” e que, com base em formas de socialização distintas, é essencial para executar a opressão da classe privilegiada e opressora masculina sobre a classe oprimida feminina. Por ser um movimento de cunho revolucionário, o feminismo radical crê que, a ausência dos papéis de gênero socialmente construídos e que formam a base essencial do patriarcado, essencial para qualquer revolução que busque libertar a classe feminina, acabaria com todo tipo de código social que defina o que pessoas do sexo masculino e feminino podem ou devem fazer (ou não fazer), assim tornando-as livres para se vestir, se comportar, e amar umas as outras da forma que desejassem, independentemente de que tipo corporal ou sexo elas tivessem nascido com.

Como já foi dito antes, o patriarcado é o sistema que pega seres humanos que nasceram sendo biologicamente machos ou fêmeas e os transforma nas classes sociais chamadas de “homens” e “mulheres”. O que foge ao entendimento de muitos é que, embora seja um sistema classista, o Patriarcado em mais parece um sistema de castas do que de classes, já que não existe uma verdadeira mobilidade entre as classes privilegiada e oprimida, entre as classes masculina e feminina. Pessoas do sexo masculino são transformadas em homens pela socialização masculina, que é definida por uma psicologia baseada na dormência emocional e na dicotomia entre o eu e e outro. Enquanto isso, a socialização feminina no patriarcado parece ser um processo de psicologicamente constranger e destruir meninas – processo esse também chamado de  “preparação”, preparação esta para criar uma classe de vítimas conformes. A feminilidade é uma série de comportamentos que são, em sua essência, pura submissão ritualizada.

Não conseguimos enxergar nada na criação ou na constituição do conceito de “gênero” que valha a pena ou deva ser celebrado ou aceito. O Patriarcado é um arranjo de poder brutal e corrupto e nosso objetivo é “desmantelá-lo” até que estas categorias de gênero não existam mais, bem como outros critérios de divisão de grupos e classes criados em função de dar privilégios a um grupo enquanto oprime outros grupos, de forma histórica, social, econômica e política (e por isso também que o feminismo radical pode dialogar com outras lutas libertárias de cunho revolucionário, como a luta pela libertação do sistema de classes [sócio-econômicas],  pelo fim da discriminação de raças [fim do racismo], etc).

De acordo com a nossa concepção, a verdadeira liberdade da classe feminina nunca será possível enquanto os gêneros existirem, justamente por estes serem sistemas usados para moldar a masculina de forma a receber privilégios pela opressão que eles nos infligem (já que no patriarcado, é estra classe que detém o poder) e molda a classe feminina para ser submissa diante de sua opressão e, não contente em normalizar nossa opressão e a violência que inflige sobre nós, ainda nos faz acreditar que essa opressão é, de alguma forma, seja esta científica, histórica ou religiosa, natural, necessária ou certa. O patriarcado facilita a exploração de corpos femininos para o benefício dos homens – seja para a satisfação sexual masculina, seja como mão de obra barata ou pela reprodução. Apenas para dar uma rápida exemplificação, existem aldeias inteiras na Índia onde todas as mulheres só tem um rim. Por quê? Porque seus maridos têm o costume de vender o outro. Gênero é muito mais do que um “sentimento” ou uma “identidade” — é uma violação contra direitos humanos de uma classe inteiras de mulheres, ou como diria Andrea Dworkin em “Against the Male Flood: Censorship, Pornography, and Equality”, pessoas chamadas mulheres.

Nós, feministas radicais, não somos “transfóbicas”, mas temos, sem dúvidas, discordâncias com reformistas de gênero sobre o que o gênero realmente é. Reformistas de gênero acham que o gênero é natural, quase um produto da biologia humana. Feministas radicais e pessoas abolicionistas de gênero encaram este [o gênero] como algo social, que produz e é produto da supremacia masculina, logo, é essencial para a manutenção desta. Reformistas de gênero encaram gênero como uma “identidade”, um conjunto interno de sentimentos que as pessoas possam ou não ter. Feministas radicais e abolicionistas de gênero encaram gêneros como o sistema patriarcal de “castas”, conjuntos de condições materiais e sociais nos quais um indivíduo já nasce imerso. Reformistas de gênero o encaram como um binarismo, enquanto feministas radicais e abolicionistas de gênero o encaram com uma hierarquia; hierarquia esta na qual quem está no topo é a classe masculina. Alguns reformistas de gênero afirmam que o gênero é algo “fluido”. Feministas radicais apontam que não há nada de fluido em ter seu rim posto a venda pelo seu marido. Então, sim, nós temos algumas grandes discordâncias ideológicas.

Feministas radicais também acreditam que as mulheres devem ter o direito de definir suas fronteiras e limites e decidir quem deve ser incluído em seus espaços exclusivos (e sim, também acreditamos na necessidade desses espaços exclusivos). Acreditamos que todos os grupos oprimidos têm esse direito. Somos constantemente chamadas de transfóbicas por apoiar a decisão de várias mulheres de não ter homens – pessoas nascidas com o sexo masculino e socializadas na masculinidade – em espaços exclusivamente femininos.

Se o feminismo com o qual você está acostumada não tem como prioridade fundamental a segurança das mulheres, se o seu feminismo não prioriza as causas destas mulheres e se ele não coloca como seu objetivo máximo a libertação da classe feminina do patriarcado e todos os sistemas que as aprisionam [mulheres] (e não a reforma destes sistemas, que seriam ineficientes para promover a real libertação das mulheres), então talvez seja a hora de parar e refletir se esse feminismo está realmente comprometido com a causa feminina.

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